Amores escondidos e oportunidades perdidas: “Call Me By Your Name”

Uma bela história de amor quase sufocada pela pretensão.

 

Título Português: Chama-me Pelo Teu Nome (BRA, FRA, ITA, EUA – 2017)
Realizador: Luca Guadagnino
Argumento: James Ivory
Protagonistas: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg

Nomeações: 4 (Melhor Filme, Melhor Ator Principal, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Canção Original)

Que pena que foi ver este filme. Que pena ter a certeza que podia ter sido tão melhor. “Call Me By Your Name” é uma das mais belas e sinceras histórias de amor deste grande ano de cinema e tinha tudo para ser um dos melhores filmes a concurso nestes Óscares. Que pena quase ter sucumbido debaixo de um mar de pretensão.

No centro deste simples mas elegante romance está Elio (Timothée Chalamet), um jovem de 17 anos com uma inteligência precoce e o coração aberto e disponível para ser invadido. Elio vive no norte de Itália, em 1983, e a sua vida é virada do avesso quando, durante as férias de Verão, partilha a sua casa com o novo assistente do pai, um americano charmoso e confiante chamado Oliver (Armie Hammer). A química entre os dois é automática mas, por uma série de razões – desde as mais óbvias às muito bem reprimidas –, evitam verbalizar esta atração.

O modo como o argumento do ilustre veterano James Ivory dá tempo para assistirmos à suave construção deste amor entre os dois protagonistas é um dos pontos mais fortes do filme. A assisti-lo nesta delicada operação, temos duas performances muito diferentes mais igualmente fenomenais. Chalamet é uma bola de tensão acumulada ao longo de todo o filme, um jovem a ser consumido por dentro pela paixão e a tentar escondê-lo, mal, através da sua inteligência. Já Armie Hammer empresta ao “seu” Oliver um conjunto de atitudes aparentemente contraditórias mas que o tornam agradavelmente imprevisível – com a arrogância de um galã “à moda antiga” e a insegurança de um jovem adulto ainda a aprender também a lidar com os seus sentimentos “fora do normal”.

Quando o filme se concentra completamente no desenvolvimento desta história de amor, ascende a níveis só possíveis no melhor cinema. Infelizmente, ao longo de boa parte do filme, o realizador Luca Guadagnino decidiu que devia ser ele a estrela. Há planos neste filme que gritam “olhem para mim! Olhem para mim!” – de um modo que se torna quase embaraçoso.

Que fique bem claro o que eu quero dizer quando digo que este filme é pretensioso. Não é tanto o ambiente de privilégio elitista em que estas personagens vivem. Sim, é um pouco difícil não revirar os olhos quando um momento de sedução entre Elio e Oliver é conduzido através de uma discussão sobre se devemos interpretar peças de Bach no estilo de Liszt ou Busoni. Mas esse é o mundo dos personagens. Esta história de amor está a ser contada num ambiente de intelectuais e isso não é um problema. É simplesmente o universo onde somos colocados.

Não, onde o filme resvala é nos delírios “criativos” que o realizador insiste em forçar numa história que não podia precisar menos deles. Escolhas como colocar uma sequência de cerca de dois, três segundos em que a imagem fica com a cor em negativo e depois volta ao normal. Sem qualquer explicação, sentido ou futura menção. Apenas… acontece. Para ser “artístico”.

E o pior mesmo é a utilização da música neste filme. A música em si é boa – e as canções compostas por Sufjan Stevens para esta obra são nada menos que sublimes. Mas, algures na sala de edição, Guadagnino deve ter sentido que tinham passado demasiados minutos sem mostrar a sua “genialidade” e decidiu intrometer-se no seu próprio filme. Cenas com um rapaz a olhar pela sua janela ao mesmo tempo que uma peça de piano, com o volume colocado no máximo, entra num crescendo despropositado. Momentos musicais altamente notórios que duram pouco mais que alguns segundos ou que são cortados abruptamente sem que haja qualquer justificação em cena para tal decisão.

Não tenho nada contra vozes artísticas fortes. Tendo a preferir os realizadores que servem as histórias em vez de si mesmos, mas quando a intenção artística é interessante, estou disposto a dar uma hipótese. Só exijo que sejam consistentes. “Call Me By Your Name” poderia ter sido muito mais “experimental”. E quem sabe o que eu teria achado dessa escolha? Mas, ao insistir em pontuar uma história simples mas encantadora com momentos de auto-congratulação cinemática, Luca Guadagnino apenas conseguiu tornar bom um filme que tinha tudo para ser excelente.

 

 

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