O poder inebriante da fantasia: “The Shape of Water”

Um conto de fadas moderno que nos transporta ao passado.

 

Título Português: A Forma da Água (EUA – 2017)
Realizador: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Protagonistas: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon

Nomeações: 13 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Atriz Principal, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Original, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Design de Produção, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura de Som)

Este não é um filme perfeito. Temos personagens que agem de um modo que parece servir mais as exigências na narrativa que as suas motivações pessoais. Eventos surreais são tratados como pouco mais que uma inconveniência. Subtileza dramática é, por vezes, substituída por intensidade feroz. Tudo isto são coisas que, a qualquer momento, me poderiam ter retirado deste filme. E, no entanto, dou por mim a considerar que nada do que me enumerei me interessa especialmente. A névoa inebriante deste universo criado por Guillermo del Toro ainda não abandonou o meu cérebro.

Talvez seja o efeito de “The Shape of Water” ser, essencialmente, um conto de fadas. Um conto de fadas com elementos de erotismo e violência gráfica que normalmente evitamos partilhar com crianças, sim, mas um conto de fadas, não obstante. Num conto de fadas, mais do que os detalhes da narrativa ou a construção emocional das personagens, o que interessa é a sua mensagem. Neste caso, uma mensagem de exultação dos marginais, dos rejeitados pela sociedade.

E quem são estes rejeitados? No centro, temos Elisa Esposito, uma mulher muda sensível e desejosa de sentido na sua vida, interpretada de forma carinhosa pela sempre excelente Sally Hawkins. Elisa trabalha, nos anos 60, como empregada de limpeza num laboratório secreto, onde inicia uma improvável relação romântica com uma criatura aquática de poderes misteriosos (Doug Jones). Não é fácil passar uma imagem simultânea de força interior e profunda fragilidade, mas é isso que Hawkins consegue. E fá-lo sem uma única linha de diálogo falado.

A rodeá-la, temos a sempre excelente Octavia Spencer, no papel de uma colega de trabalho que cumpre também a função de anjo protetor, e Michael Shannon, como um agente militar consumido por uma sede de violência que turva todas as suas ações. E não podemos esquecer o excelente Richard Jenkins, como o vizinho de Elisa, um homem gay que anseia poder ser quem verdadeiramente é, mas hesita, por razões tão deprimentes quanto óbvias.

O grande triunfo deste filme está na sua execução, nos ambientes ricos que cria: a meio caminho entre o brilho falso da América no pós-Segunda Guerra, a sujidade da realidade por trás desse brilho e o encanto visual do mundo de ficção científica que se esconde nas entrelinhas. Mas, mais do que apenas mestria técnica, o que impressiona especialmente aqui é o modo como esta serve o propósito de contar uma história. De nos transportar, de forma completamente imersiva, para um universo completamente novo. A embalar esta deliciosa fusão entre a realidade crua do mundo steampunk em que este conto navega e as ocasionais viagens para a pura fantasia, temos a brilhante banda sonora de Alexandre Desplat – uma das melhores deste ano de cinema.

Consigo compreender quem se desligue desta história devido aos seus saltos lógicos. Quem olhe para algumas das decisões das personagens com um olhar cínico. Com um fio diferente ligado no meu cérebro no momento em que vi este filme no cinema, talvez até eu pudesse ter sido um deles. Mas não aconteceu. Consigo compreender algumas das razões… racionais que levaram algumas pessoas a criticar este filme. Mas, como crítico, não tenho outra opção que não ser completamente honesto comigo mesmo. E, no momento em que escrevo estas linhas finais, ainda tenho a alma a vaguear no mundo bizarramente encantador que Guillermo del Toro construiu. Enquanto assobio, distraidamente, uma das suas canções.

 

 

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