Os que amam e os que ficam por amar: “I, Tonya / Roman J. Israel, Esq. / The Florida Project”

Histórias de superação em situações insuperáveis.

 

I, Tonya

Título Português: Eu, Tonya (EUA – 2017)
Realizador: Craig Gillespie
Argumento: Steven Rogers
Protagonistas: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney

Nomeações: 3 (Melhor Atriz Principal, Melhor Atriz Secundária, Melhor Montagem)

Quem diria que a história de vida de uma patinadora caída em desgraça, rodeada por um grupo disfuncional de idiotas sem salvação e uma mãe sem um pingo de compaixão na alma, seria um dos filmes mais divertidos desta temporada dos Óscares? O realizador Craig Gillespie cria aqui uma tapeçaria aparentemente caótica, recheada de narradores pouco confiáveis. A história é real – ainda que muito improvável. A patinadora artística Tonya Harding ascende das suas raízes modestas para se tornar uma das melhores em todo o mundo na sua modalidade – ao mesmo tempo que luta contra uma elite que se recusa a reconhecer o seu talento, não vendo mais que uma “mulher das barracas”. A sua viagem navega entre inúmeros altos e baixos, culminando no seu famoso “incidente” com a rival, Nancy Kerrigan. Margot Robbie está absolutamente fenomenal como a titular Tonya, uma mulher simultaneamente forte e insegura, sempre no limiar de tomar a decisão errada no momento errado – normalmente por influência do seu patético marido, Jeff, e a sua mãe, LaVona, encarnada com uma ferocidade incomparável por Allison Janney. Tresloucado e ambicioso, o filme de Gillespie monta este invulgar mosaico saltando entre improváveis narradores e pontuando as suas transições com algumas das mais inspiradas escolhas de canções de qualquer banda sonora este ano. Este é o resultado que se tem quando uma história fascinante é contada com doses generosas de criatividade.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐1/2 (4,5 Estrelas)

 

Roman J. Israel, Esq.

Título Português: Roman J. Israel, Esq. (EUA – 2017)
Realizador: Dan Gilroy
Argumento: Dan Gilroy
Protagonistas: Denzel Washington, Colin Farrell, Carmen Ejogo

Nomeações: 1 (Melhor Ator Principal)

Denzel Washington é um excelente ator. Isso todos sabemos. Mas tendemos a associá-lo a personagens de grande carisma e força, que controlam todos à sua volta pela pura força da sua personalidade. Com “Roman J. Israel, Esq.”, Washington dá-nos algo um pouco diferente. A sua personagem é carismática, sim, ao seu jeito, mas não tem necessariamente uma personalidade dominadora. Na verdade, Roman J. Israel é um advogado que, sendo impossivelmente inteligente, é também muito inseguro e anti-social, com tendências quase autistas. Ao mesmo tempo que é admirado pelo seu conhecimento, é também ostracizado pelos colegas, num mundo em que as ligações pessoais são tão essenciais como as das firmas de advogados. O desempenho de Denzel Washington é impressionante, tanto nos tiques involuntários que pontuam muitas das suas interações, como no seu olhar profundo mas perdido, como alguém que sabe que é a pessoa mais inteligente na sala mas também sabe, simultaneamente, que isso lhe serve de muito pouco. É uma excelente performance e justifica a sua nomeação. Dito isso… há pouco mais a elogiar no filme que a rodeia. Dan Gilroy é um realizador que normalmente admiro, mas aqui pareceu perder-se nas curvas e contracurvas do seu próprio argumento. Rico em palavras, mas parco em emoções genuínas, o texto deste filme força as suas personagens a tomar decisões inexplicáveis por nenhuma outra razão para além das exigências da narrativa. Isto torna o filme desnecessariamente confuso e quase estraga o trabalho do seu impressionante elenco.

Classificação: ⭐⭐⭐1/2 (3,5 Estrelas)

 

The Florida Project

Título Português: The Florida Project (EUA – 2017)
Realizador: Sean Baker
Argumento: Sean Baker, Chris Bergoch
Protagonistas: Brooklyn Prince, Bria Vinaite, Willem Dafoe

Nomeações: 1 (Melhor Ator Secundário)

Este filme apanhou-me de surpresa. A sua história é muito, muito simples. Acompanha as aventuras de uma criança rebelde, Moonee, a passar as suas férias de Verão com os amigos e a semear o caos junto dos seus vizinhos numa comunidade pobre na Florida. Muito do seu comportamento levemente descontrolado estará relacionado, em grande parte, pela vida que leva com a sua mãe, Halley, que usa regularmente meios duvidosos para conseguir dinheiro e parece ter o condão de tomar sempre as piores decisões para a sua vida a cada encruzilhada com a qual se depara. Bria Vinaite, como Halley, e Brooklyn Prince, como Moonee, ambas estreantes como atrizes, brilham como poucos este ano nos seus papéis, a pingar de realismo e espontaneidade. A pequena Brooklyn, especialmente, do alto dos seus sete anos, é uma revelação. A guiá-las nesta entrada em Hollywood, temos o veterano Willem Dafoe, no papel do gerente do motel/comunidade em que ambas vivem, um homem de bom coração e uma aparente infinita fonte de paciência para todos os problemas com os quais tem de lidar no seu dia-a-dia. Dafoe, normalmente mais conhecido pelos seus vilões exuberantes, dá-nos aqui uma interpretação de grande contenção, deixando os seus olhos transparecer a tristeza e resignação que sente pela inevitabilidade das tragédias que se vão desenrolando à sua volta. Divertido e deprimente, contemplativo e incrivelmente dinâmico, este filme de Sean Baker (que já tinha sido responsável pelo também excelente “Tangerine”) é um murro no estômago, sim, mas um que todos deviam ser forçados a levar.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐1/2 (4,5 Estrelas)

 

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