A tragicomédia da adolescência: “Lady Bird”

Os altos e baixos de crescer – física e emocionalmente.

 

Título Português: Lady Bird (EUA – 2017)
Realizador: Greta Gerwig
Argumento: Greta Gerwig
Protagonistas: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts

Nomeações: 5 (Melhor Filme, Melhor Realizadora, Melhor Atriz Principal, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Original)

Ser adolescente é como viver num universo paralelo, sem percebermos que as nossas decisões têm um impacto genuíno no mundo real. As escolhas de “Lady Bird”, a protagonista titular, encarnada de forma subtil mas fascinante por Saiorse Ronan, são quase integralmente adaptadas a cada momento individual e emoção que sente.

Especificamente, Lady Bird tem uma relação muito próxima – ainda que cheia de altos e baixos – com a sua mãe (a excelente Laurie Metcalf), mas não hesita em abandoná-la pela mais ínfima hipótese de ter um momento de intimidade com o novo rapaz pelo qual acha que está apaixonada. O mesmo acontece, por vezes, com a sua relação com a sua melhor amiga Julie (Beanie Feldstein, uma das mais interessantes surpresas deste filme).

Na sua estreia como realizadora a solo, Greta Gerwig infunde esta obra com muitas memórias da sua adolescência em Sacramento. Sem grande floreados visuais ou cenas pré-fabricadas para criar momentos de (falsa) intensidade, a grande força de Gerwig é a sua profunda honestidade. Mesmo quando Lady Bird se lança numa das suas diatribes pseudo-intelectuais, a sinceridade do momento nunca é beliscada. Sim, ela é estranha e dramática e propensa momentos de rebeldia um pouco umbiguistas, mas todos conhecemos alguém assim durante a nossa adolescência. E, tal como o filme demonstra, todos sabemos também que, por trás de todo esse “fogo de artifício”, está uma alma ainda em construção, insegura em quase todas as decisões.

Esta preocupação com o realismo – não tanto factual, mas antes emocional – sente-se também nos elementos mais técnicos da produção. Primeiro, no modo a cidade de Sacramento é filmada, de uma forma crua e direta, mas ao mesmo tempo, de algum modo, carinhosa. Este carinho é sentido também nas escolhas musicais. Greta Gerwig tem, essencialmente, a mesma idade que este que vos escreve, por isso devo confessar que senti aquele calorzinho de nostalgia sempre que começava a dar uma canção de Alanis Morissette ou Dave Matthews Band.

“Lady Bird” é um belo filme sobre adolescência. Sobre a transição de rapariga para mulher, de jovem para adulta. Não há nada de especialmente errado em nenhum dos elementos da sua execução – e conta com algumas performances de alto calibre. Mas, ainda assim, senti que lhe faltou algo. Uma obra como “Lady Bird”, pela sua simplicidade, está dependente da ligação emocional que criamos com ela – comigo, sinto que isso não aconteceu totalmente. Gostei bastante deste filme, não adorei. Não sei bem explicar porquê. Mas confesso que estou muito curioso para ver o que está na calha para quase todos os envolvidos.

 

 

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