O real, o surreal e o fantástico: Os melhores dos Óscares de 2018

Uma das “colheitas” mais diversas dos últimos anos da Academia.

 

 

Como faço todos os anos, antes de me lançar nos labirintos tortuosos (e inesperadamente matemáticos) de escolher as minhas previsões, lanço-me na consideravelmente menos torturada decisão de escolher os meus favoritos. Fácil, certo? É só seguir o meu coração e dizer o que me vai na alma. E, no entanto, dei por mim a passar horas a massacrar-me com o que escrever aqui. A consequência inevitável de termos tido um ano excelente de cinema. Assim sendo, espero que gostem do resultado final desta minha tortura auto-infligida. Sem mais demoras, os meus favoritos do ano:

 

MELHOR FILME – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Este foi um grande ano de cinema. Mas, mais do que apenas bom, foi diverso e original. Sim, temos os projetos “de prestígio” que normalmente são nomeados, mas também temos um filme de guerra quase sem diálogos, um filme de terror que satiriza o conceito de “white guilt” e um filme de fantasia em que uma mulher muda se apaixona por uma criatura aquática. Se há coisa de que não nos podemos queixar é de termos tido as mesmas histórias de sempre. O mesmo acontece com o meu filme favorito do ano: “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”. Do homem responsável pelo também brilhante “In Bruges”, este tem filme tem um pouco de tudo. Performances incríveis, diálogos memoráveis, uma narrativa completamente imprevisível. E tudo sempre com aquele rasgo de desafio sempre presente na obra de Martin McDonagh. Entre risos e arrepios de compaixão, nenhum filme me afetou tanto este ano.

 

MELHOR REALIZADOR – Christopher Nolan, Dunkirk

A lista de realizadores deste ano é uma das mais interessantes dos últimos tempos, com Jordan Peele e Greta Gerwig a receberem nomeações logo nos seus filmes de estreia atrás das câmaras. O meu coração está dividido, no entanto, entre dois nomes grandes da indústria, também eles nomeados pela primeira vez, nesta categoria: Guillermo del Toro e Christopher Nolan. O mexicano conseguiu, com “The Shape of Water”, criar um mundo incrível de fantasia de raiz, com um equilíbrio impressionante entre a preocupação pelos detalhes e a criatividade sem limites. Mas a minha preferência vai para Nolan, que mostra, em “Dunkirk”, todas as dimensões do seu talento: a precisão cirúrgica na construção dos planos, o uso de som para criar tensão, a construção de uma trama complexa que nos desafia sem nunca deixar de fazer sentido. A destilação perfeita do estilo de um dos melhores realizadores da sua geração.

 

MELHOR ATOR PRINCIPAL – Gary Oldman, Darkest Hour

Este ano conta com grandes performances de novos valores, como Timothée Chalamet, em “Call Me By Your Name”, ou Daniel Kaluuya, em “Get Out”, mas o génio de um dos veteranos mais respeitados de Hollywood obliterou por completo toda a concorrência. Na sua encarnação de Winston Churchill, em “Darkest Hour”, Gary Oldman faz mais que apenas colecionar tiques ou esconder-se por trás de um grande trabalho de maquilhagem. A sua performance é um trabalho completo de captura do espírito de uma personagem icónica da História moderna. Inteligente mas inseguro, com um brilho nos olhos que revela o espírito rebelde de um homem que não resistia a desafiar os que o rodeavam. O respeito que Oldman recolhe na indústria torna-o um dos maiores favoritos nesta categoria (sem querer spoilar demasiado o meu texto das previsões), mas isto é tudo menos um “prémio de carreira”.

 

MELHOR ATRIZ PRINCIPAL – Frances McDormand, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Frances McDormand é a maior. Já era uma lenda em Hollywood e só cimentou o seu legado com este desempenho absolutamente titânico como Mildred Hayes, uma mãe consumida pela raiva após a sua filha ter sido violada e morta. “Three Billboards” é um filme arrojado, com escolhas controversas – e a presença de McDormand no centro de toda a narrativa é uma das grandes razões porque tudo acaba, improvavelmente, por resultar. A concorrência é forte, diga-se. Margot Robbie está fantástica em “I, Tonya”, Sally Hawkins brilha no centro de “The Shape of Water”, Saiorse Ronan continua a demonstrar o seu precoce talento em “Lady Bird” e Meryl Streep é tão brilhante como sempre em “The Post”. Num ano normal, qualquer uma delas poderia ganhar e não seria vergonha nenhuma para a Academia. Mas o que Frances McDormand faz neste filme transcende o bom e eleva-se ao puramente icónico.

 

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO – Sam Rockwell, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Já tinha esta categoria “fechada” na minha cabeça desde o início, convicto que nenhuma outra poderia superar a minha preferência inicial. Até que vi Willem Dafoe em “The Florida Project” e quase hesitei. O respeitado ator tende a ser reconhecido pela sua intensidade dramática, mas tem aqui um desempenho de grande contenção e carinho, como um farol de compaixão num mundo repleto de morais questionáveis e más decisões. Ainda assim, vou manter o meu “voto” com Sam Rockwell. É um ator que já adoro há largos anos e tem aqui uma interpretação de grande coragem, entregando-se de corpo e alma a um personagem que tinha tudo para ser uni-dimensional, mas não é necessariamente. É preciso um ator de especial inteligência para encontrar a alma escondida de um personagem tão intensamente burro como o polícia Dixon, sem nunca esconder o seu lado racista, violento e imprevisível.

 

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA – Allison Janney, I, Tonya

Aqui, a concorrência não é tão forte assim. Sim, a categoria conta com várias boas interpretações (entre as quais destaco especialmente Laurie Metcalf, em “Lady Bird”, e Lesley Manville, em “Phantom Thread”), mas poucas são especialmente marcantes. Com a exceção de uma: a incomparável Allison Janney. Devo confessar que a minha afeição a esta atriz poderia ter comprometido a minha parcialidade – desde os tempos de “The West Wing” que Janney é uma das minhas atrizes favoritas em Hollywood. Assumiria o meu desejo que ela ganhe sem qualquer vergonha. Mas, para bem do que resta da minha credibilidade, nem é preciso comprometer os meus valores. No papel da absolutamente imperdoável mãe de Tonya Harding, LaVona, Allison Janney é feroz e inquebrável, evitando o instinto de “suavizá-la” para agradar a um público maior. O tipo de segurança em si mesma só ao alcance das melhores.

 

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO – Aaron Sorkin, Molly’s Game

Antes de falar sobre o meu favorito deste ano, tenho de deixar alguns elogios a outros candidatos. James Ivory escreveu um argumento elegante para “Call Me by Your Name” e, de todos os problemas que tenho com esse filme, o texto é tudo menos um deles. Também gosto de ver projetos “fora da caixa” como “The Disaster Artist” ou “Logan” a serem reconhecidos pela Academia. Mas, como já foi dito por múltiplas pessoas, a vida seria tão melhor se fosse escrita por Aaron Sorkin. Na sua estreia como realizador, Sorkin continuou a destacar-se, acima de tudo, no entanto, pela qualidade dos seus diálogos. Inspirado pela improvável vida real de Molly Bloom, Sorkin lançou-se no mundo do poker clandestino e, munido de talentos como Jessica Chastain e Idris Elba, compôs os seus bailados verbais, pontuados pelo ritmo musical da sua escrita. Poucas coisas me deixam tão feliz como os diálogos de Aaron Sorkin.

 

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL – Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Esta é, à vontade, a categoria mais forte em todos os Óscares. Basta dizer que o argumento de “The Shape of Water”, que é bastante bom, é provavelmente o pior na contenda. Greta Gerwig construiu uma bela memória no seu texto para “Lady Bird”, tal como Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani, com “The Big Sick”. E o argumento de Jordan Peele para “Get Out” é uma das mais ambiciosas sátiras à sociedade moderna que alguma vez vi. Mas o meu “voto” tem de ir para Martin McDonagh. Um dos pontos de maior controvérsia que “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” tem gerado é a sua quase esquizofrenia de tom. Numa cena de grande tensão dramática, aparece uma piada solta para quebrar o ambiente. Num momento em que personagens parecem estar finalmente prontas a sorrir, mais um podre trágico das suas vidas é revelado. Poucos argumentistas no planeta têm a confiança de Martin McDonagh.

 

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