Black Panther

Como fazer o importante sem esquecer o divertido.

 

Título Original: Black Panther (EUA – 2018)
Realizador: Ryan Coogler
Argumento: Ryan Coogler, Joe Robert Cole
Protagonistas: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o

“Black Panther” é um filme sobre o contexto histórico de uma das personagens mais recentes do Universo Marvel. É também um comentário social fortíssimo sobre as condições de vida das comunidades negras um pouco por todo o mundo. E um excelente blockbuster de ação, com cenas de combate impecavelmente coreografadas. E uma reflexão sobre o debate entre proteger os interesses de uma nação e a sustentabilidade do planeta como um todo. E um espetáculo visual deslumbrante. E uma celebração da posição das mulheres na sociedade.

O grande milagre que “Black Panther” consegue é que é isto tudo e nunca, nem por um segundo, se torna uma confusão irremediável. Pelo contrário, este é um dos melhores filmes de um catálogo já impressionante como o dos filmes recentes da Marvel.

Sem querer tornar esta crítica um ensaio universitário de 1000 páginas, vou tentar explicar o quanto adorei este filme olhando para cada parte, antes de avaliar o todo. Visualmente, este é um dos mais interessantes filmes da Marvel. Em grande parte, isto deve-se ao fascinante equilíbrio que a nação de Wakanda apresenta – combinando um respeito profundo entre as tradições que associamos normalmente ao folclore africano, com o facto de serem a nação mais tecnologicamente avançada em todo a planeta, fruto de existir em cima da maior reserva mundial de “vibranium”, o metal (ficcional) mais forte que existe. O mesmo com o qual foi construído o escudo do Capitão América, por exemplo.

As cores empregues por Ryan Coogler e o seu diretor de fotografia fundem passado, presente e futuro de uma forma que torna este filme completamente diferente e simultaneamente alinhado com a imaginação visual do universo dos super-heróis. Este contraponto entre tradição e inovação é refletido também na música, onde o hip-hop de nomes como Kendrick Lamar coexiste com cânticos africanos, numa cama sonora de orquestração “tradicional” para cinema. É verdadeiramente incrível.

O elenco, maioritariamente negro, é também uma das grande razões para o sucesso deste filme. Chadwick Boseman é imperial no papel de T’Challa, o novo rei e protetor de Wakanda – o titular “Black Panther” –,  um homem dividido entre o dever entre manter a tradição de protecionismo da sua nação (Wakanda usa tecnologia de camuflagem para esconder a dimensão do seu poder do resto do mundo) e o desejo de ajudar quem mais precisa. O seu confronto interno é colocado em primeiro plano pela ascensão de Erik Killmonger (Michael B. Jordan), um vilão imprevisível e consumido pela sua própria raiva, que deseja tornar Wakanda uma potência mundial. O facto do vilão não estar completamente errado nos seus argumentos só revela ainda mais a deliciosa complexidade deste filme.

O sucesso “inesperado” de “Black Panther” nas bilheteiras marca, espero, um ponto de viragem na indústria de Hollywood. Abre caminho a um futuro em que um êxito de bilheteira pode ter “minorias” num lugar de protagonismo sem abdicar do desejo de fazer dinheiro. E sem nunca “diluir” o contexto sócio-cultural que informa as suas decisões, sem medo de “alienar” o público maioritariamente branco deste tipo de filmes.

Como se não fosse já suficiente, este é também um filme profundamente feminista. As mulheres de Wakanda são poderosas e influentes nas decisões da nação – não são apenas decoração, não existem apenas para servir de apoio às ações dos homens que as rodeiam. Lupita Nyong’o, como Nakia, vocaliza sem medos o quanto discorda do isolacionismo de Wakanda e é, também, uma lutadora de grande habilidade. Danai Gurira é uma elegante bola demolidora de destruição como Okoye, a chefe da guarda militar do rei, inteiramente composta por mulheres também. E não podemos esquecer Shuri (Letitia Wright), irmã mais nova de T’Challa, que não só é a personagem mais divertida no filme como é também, à vontade, a pessoa mais inteligente em Wakanda – e a principal propulsora dos seus constantes avanços tecnológicos.

Ryan Coogler já era um dos realizadores mais promissores em ascensão na indústria e o sucesso de “Black Panther” vai, certamente, dar-lhe ainda mais liberdade para fazer o que quer. Se continuar a produzir obras como esta, que combinam um cinema de ideias com o desejo (legítimo) de levar pessoas ao cinema, o céu é o limite.

 

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