Ready Player One

 

“O Spielberg está de volta!”

Esta foi uma das frases mais espalhadas quando finalmente conseguimos ver no grande ecrã “Ready Player One”. Na verdade este Spielberg nunca existiu. Pelo menos neste moldes. Mas já explico o que quero dizer com isto. Quando Ernest Cline se afundou no imenso mundo geek e escreveu “Ready Player One” em 2011, cedo ganhou muitos fãs que se reviam na monumental quantidade de referências a filmes, séries, músicas, jogos, cultura. É impossível para quem nasceu entre os anos 70 e 80, não viajar no tempo à sua infância e juventude. Ainda antes de o livro ser publicado, já a Warner Bros tinha resgatado os direitos para a adaptação ao cinema que ficaria a cargo do próprio autor. Mas se era óbvio que esta história tinha tudo para dar um grande filme de entretenimento, era certo também que era complicadíssimo executá-lo visualmente, algumas partes seriam mesmo impossíveis. E havia também a questão das licenças. Para se mencionar todas aquelas referências era preciso pedir autorização e pagar aos autores, claro. Quem poderia pegar neste desafio? Aí era um pouco óbvio, menos para o próprio. Esta história estava à espera do Steven Spielberg.

Spielberg
sempre viajou entre o suspense, aventura, fantasia, drama e temas históricos. Nos anos 70 e 80 elevou ao expoente máximo o chamado blockbuster com o seu amigo George Lucas. Mas, mesmo quando o tema era mais leve e mais divertido, a marca de Spielberg em quase todos os seus filmes reflecte a sua relação familiar com os seus pais e mais tarde com os seus filhos. Daí dizer que este Spielberg de “Ready Player One” de pura acção e menos relação familiar, na verdade quase nunca existiu. O Spielberg que estará de volta é o Spielberg produtor, que, aí sim, ajudou a criar muitas das aventuras de divertimento puro e duro, como a trilogia “Back to the Future”, “Goonies”, “Who Framed Roger Rabbit”, etc. Seja que versão for a de Spielberg, esta história coube-lhe que nem uma luva e, em parceria com Ernest Cline, fez uma excelente adaptação, que muitos achariam impossível.

Já se sabia que a adaptação teria mudanças drásticas já que cenas como os chat rooms, jogar “Pac Man” como um dos desafios, ou recitar o filme “War Games”, não seriam exactamente momentos visualmente impactantes e arrastaria o ritmo do filme. Os mais puristas, mesmo sabendo que não haveria grande hipótese, podem não ter gostado das mudanças, mas a verdade é que funcionaram e deram ao filme o tal elemento de velocidade e entretenimento non-stop, sem perder as referências e o overload de geekness.

Viajamos então no tempo para o futuro distópico de 2045 onde a maior parte da população foge da realidade num espaço virtual partilhado chamado Oasis. Quando o seu fundador morre, deixa o controle da sua invenção e toda a fortuna que ela criou a quem conseguir encontrar um Easter Egg. Para isso tem que ultrapassar três desafios, ganhando no final de cada um deles, três chaves. Conhecemos então Wade Watts (Tye Sheridan), um ultra fã de Halliday (Mark Rylance) que é um dos criadores do Oasis. Assim que sabe do desafio, não pensa em mais nada do que ser o primeiro a chegar ao fim. Assim, coloca os seus óculos e aparatos que o transportam para o interior do Oasis transformando-se no seu avatar Parzival. Ao lado dele concorrem os seus amigos virtuais Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki) e, já em pleno desafio, conhece a bela Art3mis (Olivia Cook) que também deseja ser a primeira a descobrir o Easter Egg. A motivação de Art3mis ainda assim, centra-se mais em impedir que Sorrento (Ben Mendelsohn), com a ajuda de i-Rok (T.J. Miller), garanta o controlo do Oasis para as grandes corporações que querem acabar com a concorrência.

Uma das maiores diferenças do livro para o filme foi a dos personagens principais se conhecerem cedo no filme, quando no livro só se iriam conhecer no fim. Mas esta mudança trouxe mais proximidade ao nosso grupo de heróis e ajuda-nos a viajar lado a lado com eles nesta aventura.

Agora é entrar na corrida e abraçar a tonelada de referências a filmes, séries, jogos, músicas e tudo o que venha essencialmente dos anos 80 e 90. É impossível numa primeira sessão deste filme apanhar todas as referências e easter eggs que, principalmente na corrida do primeiro desafio e na guerra final, nos são oferecidos. King Kong, T-Rex, DeLorean, Ninja Turtles, Speed Racer, Freddy Krugger, Ghostbusters, Iron Giant, enfim… ficava aqui o dia todo e não diria metade. Ainda assim tenho que destacar uma das referências que veio de uma das maiores mudanças do livro para o filme, a cena do “The Shining”. É das coisinhas mais bem feitas nos últimos anos. Uma perfeita homenagem do Spielberg ao seu amigo Kubrick.

Mesmo quem não fique satisfeito com o enredo construído para nos contar esta aventura, é quase impossível os “filhos” dos anos 80 e 90 não se verem e reverem nesta viagem de nostalgia e, acima de tudo, não se divertirem nesta fulminante viagem virtual, em que Spielberg mais uma vez aplica a sua mestria.

Para conseguir fazer esta quase impossível transição do mundo virtual das páginas de Cline para o ecrã, Spielberg eleva a técnica do motion capture a todo um outro nível. Dirigindo o filme, também ele virtualmente com uma consola na mão que controla todas as câmaras que não existem no mundo real. É isto que Spielberg fez questão de nos lembrar. Que ainda consegue inovar. Que ainda nos consegue transportar para mundos que queremos explorar. Que nos consegue pura e simplesmente entreter. E, aí sim, esse Spielberg está de volta.

 

 

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