Uma co-atuação simbiótica salva um roteiro caótico.

 

Título Original: Venom (EUA, CHI – 2018)
Realizador: Ruben Fleischer
Argumento: Scott Rosenberg, Jeff Pinkner, Kelly Marcel, Todd McFarlane, David Michelinie
Protagonistas: Tom Hardy, Riz Ahmed, Michelle Williams

Enquanto a titã Marvel continua a sua hegemonia sobre os filmes de super-heróis, e a gigante DC luta arduamente para conseguir um lugar ao sol (e na modesta opinião deste que vos fala, sem muito sucesso), a Sony traz-nos a sua tímida tentativa de conseguir uma fatia desse mercado. Embora seja um super da linha Marvel, o conhecido vilão do Homem-Aranha, Venom, ainda não foi sugado pelo constantemente expandindo MCU. O resultado é um filme solo onde o Venom (Tom Hardy) e o seu hospedeiro Eddie Brock (Tom Hardy) têm de derrotar juntos outros simbiontes, cortando as suas ligações com o Aranha. O carisma e presença de Tom Hardy carregam boa parte do filme, uma vez que a sua junção com o Venom só acontece, de facto, perto da metade do filme, e o anti-herói como o conhecemos só começa realmente a ganhar tempo de tela com os seus plenos poderes perto do final.

Com um romance morno na melhor das hipóteses, e sem nenhuma consequência para a história, e um vilão bidimensional (Riz Ahmed), só mesmo a conturbada relação de Eddie com o simbionte salvam o filme. As sequências de ação são, na sua maioria, bastante satisfatórias, mesmo se pouco memoráveis, e a comédia está sempre presente, porém com qualidade inconsistente, com bons momentos e momentos que é melhor nem mencionar.

O filme sofre de alguns problemas como, por exemplo, um guião bastante inchado com linhas narrativas que acabam por não compensar o tempo investido nelas com um pay off que desaponta ou que poderia ter sido alcançado de maneira muito mais rápida sem perda de impacto, o que deixaria mais tempo para partes realmente interessantes. Por exemplo, o “romance” vivido pelo protagonista que em nada adiciona à história, e parece estar ali simplesmente para preparar terreno para uma futura sequência. Mas ainda assim, muito tempo é usado para desenvolver a personagem de Anne Weying (Michelle Williams), que acaba servindo apenas para transportar o simbionte do local A para o local B, algo que poderia ter sido feito de muitas maneiras mais efetivas.

Um problema é a grande quantidade de tempo em que passamos seguindo a jornada de um dos simbiontes que se separa dos outros, apenas para acabar, não só na mesma cidade, mas no mesmo laboratório deles. Considerando que a relação entre Venom e Eddie Brock é, de longe, a parte mais interessante do filme, e que ela parece ter sido apressada para manter a duração do filme razoável, parece-me que as prioridades do guião estão invertidas.

Outro problema é a insistência em manter uma atmosfera sombria e violenta, mas mesmo assim não mostrar violência explícita, provavelmente para mantar a classificação indicativa para adolescentes. O resultado é que o filme acaba por falar muito sobre violência, mas parece reticente sobre mostrá-la. Venom passa muito tempo a falar sobre comer cabeças, arrancar membros, entre outras coisas, mas tudo isso acontece fora da tela, e o filme não contém nenhuma cena de violência explícita.

Ter optado por uma narrativa menos violenta teria sido uma melhor opção, ou comprometer-se com a violência e subir a classificação indicativa, uma vez que o sucesso de Deadpool mostra que é possível trazer uma grande audiência para um filme de herói com uma classificação de 18+. Mas o meio-termo escolhido causa uma dissonância entre o que é dito e o que é visto, o que torna difícil a imersão na história do filme.

Mas, mesmo com esses problemas em conta, o filme ainda termina com uma nota positiva. Tom Hardy consegue carregar uma boa parte da história com uma atuação expressiva e divertida, o que é ainda mais admirável considerando que ele está a falar com os efeitos especiais a maior parte do filme, e o Venom ainda consegue ser cativante apesar dos seus maus hábitos, navegando a linha que se espera do anti-herói, e, em certos momentos, é quase possível sentir empatia por um alienígena devorador de pessoas. Quase. Venom não é o melhor filme da temporada, mas talvez seja um bom partido para um fim de semana parado enquanto se aguarda a estreia de Captain Marvel.

 

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