Monthly Archives: Novembro 2018

Assim Nasce Uma Estrela

Eddie Vedder desencorajou Bradley Cooper a realizar “Assim Nasce Uma Estrela”. Mas ainda bem que ele não lhe deu ouvidos.

 

Título original: A Star Is Born (EUA – 2018)
Realizador: Bradley Cooper
Argumento: Eric Roth, Bradley Cooper
Actores: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott

Bradley Cooper estava a trabalhar no argumento de “Assim Nasce Uma Estrela” quando decidiu partir para Seattle e pedir ajuda a um peso pesado do rock norte-americano, Eddie Vedder. O vocalista dos Pearl Jam desencorajou-o a fazer o filme, um remake do clássico com Barbra Streisand e Kris Kristofferson, mas Bradley Cooper foi em frente com a realização daquele que, hoje, é um dos filmes mais falados do ano.

Bradley confessou, entretanto, que Eddie inspirou a sua personagem no filme (a estrela de rock Jackson Maine), e a verdade é que, mesmo que não o soubéssemos, a barba, os cabelos compridos, o olhar simples e sorriso humilde e tímido da personagem de Bradley Cooper grita “Eddie Vedder” por todos os poros. Era uma estrela rock vinda da América profunda que Bradley queria trazer para “Assim Nasceu uma Estrela” (como o filme original, de 1976), com a sua típica simplicidade e olhar de quem traz a dureza da vida naqueles lugares às costas, e foi através da mimetização da aparência e dos maneirismos de Eddie Vedder que o conseguiu. Há, também, muito das letras fortes e profundamente humanas de Pearl Jam nas músicas do filme – o que também contribui para construir a persona de Jackson Maine, um homem perdido, à procura de sentido numa vida de concertos e festas sem fim.

E é esta abordagem, verdadeiramente humana, que nos agarra desde os primeiros minutos do filme. Bradley Cooper quis trazer-nos para dentro do abismo de uma estrela em declínio (Jackson Maine) de forma nua e crua, como se de um documentário se tratasse. Por outro lado, também Lady Gaga interpreta a sua Ally, a empregada de cozinha de sonhos adiados, de modo simples e visceral, como se nos abrisse a porta para os seus segredos, inseguranças e medos mais profundos. É isso que tem vindo a apaixonar o público e a crítica de “Assim Nasce Uma Estrela”: a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

Lady Gaga evoca-nos Barbra Streisand, com a sua magistral presença em palco e voz – e claro, o nariz que, também no caso da diva dos anos 60 e 70, era apontado como ameaça ao seu futuro no mundo da música e afinal se tornou na sua imagem de marca. O nariz que, na personagem de Ally, era uma das suas principais inseguranças, e que Jackson, do alto da sua bondade e repentina paixão por aquela simples e genuína empregada de cozinha, ensinou Ally a amar, como a todos os seus defeitos – sem julgamentos ou juízos de valor, como aliás Bradley Cooper nos convida a ver e apreciar este filme.

“Assim Nasce Uma Estrela” é, assim, uma montanha-russa de emoções que nos atropelam e que nos deixam desconfortáveis bem depois do fim do filme, para nos lembrar que a imperfeição é, afinal, daquilo que somos todos feitos – e que de errar, ninguém pode fugir. Um tocante filme, com interpretações impressionantes, que certamente não irá escapar à mira dos Óscares de 2019.

a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

 

Bohemian Rhapsody

Is this the real life? Is this just fantasy?

 

Título original: Bohemian Rhapsody (2018)
Realizador: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee

Começo por esclarecer que sou grande fã de Queen. Como muitos outros fãs, o entusiasmo teve o seu auge quando apareceram as primeiras imagens da transformação de Rami Malek (Mr. Robot) no icónico papel de Freddie Mercury e o primeiro teaser que pega na batida de “Another One Bites The Dust” e a liga magistralmente a várias das mais perfeitas músicas da banda.

A primeira reação a este filme foi totalmente como fanboy. Maravilhado por durante pouco mais duas horas ter assistido ao reanimar do incrível performer que era Mercury. Mas para fazer esta crítica achei que me devia afastar da experiência para conseguir avaliar Bohemian Rhapsody como filme.

O filme esteve envolto em problemas do início ao fim. Desde o anúncio de intenção de o fazer por parte de Brian May (que fez parte da produção, juntamente com Roger Taylor, como consultores e produtores executivos), até ao finalizar das produções. Foi conhecido que Sasha Baron Cohen seria a primeira escolha para dar corpo a Mercury, mas que acabou por abandonar por não concordar com como Mercury iria ser representado. Também o realizador Bryan Singer (Os Suspeitos do Costume, X-Men) abandonou a produção a 2/3 das filmagens, sendo substituído por Dexter Fletcher. Talvez por isso, estamos perante um filme que não sendo mau, podia ter sido muito melhor.

Não é a primeira vez que um biopic tem alguma liberdade criativa alterando o tempo em que os factos ocorrem e até criando alguns que não são factuais, para o tornar mais adequado ao grande ecrã. Por isso algumas das escolhas são aceitáveis, mas há algumas incoerências que são claramente desnecessárias e algumas que mostram alguma falta de coragem para expor um pouco mais Mercury e os Queen, quando na realidade, o que não faltou à banda e ao seu frontman foi a coragem de fazer diferente e assim ficar na história. Faltou um pouco dessa irreverência ao argumento que optou por fazer quase um “Behind The Music” e quase exclusivamente centrar-se no protagonista.

Nesse aspecto não podia ter sido mais certeiro. A escolha de Rami Malek é surpreendente, mas revelou-se perfeita. Freddie Mercury esteve vivo por momentos. A transformação física de Malek e a linguagem corporal, principalmente em palco, é absolutamente incrível. Não surpreenderá ninguém se o seu nome estiver na lista anunciada no início do ano pela Academia. Aliás, se há algo que neste filme é irrepreensível é o casting. A escolha dos actores que representam Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) é incrível de parecidos que são. Lee levou-me mesmo a questionar se seria eventualmente filho de May. Mas ao nível da representação o mérito não se esgota no protagonista. Lucy Boynton (que se destacou em Sing Street) é perfeita no papel de Mary Austin, a companheira e musa de Mercury, que mesmo quando assume a sua homossexualidade, se mantém como um pilar na estabilidade de Freddie.

Depois entra a música. Aqui seria difícil falhar. Um dos grandes méritos deste filme é conseguir colocar-nos no palco com a banda. Consegue passar a experiência sensorial que é tão característica do rock. Isso é conseguido com mestria pelo realizador e pela a sua equipa. Tem momentos em que aquela batida entra e te arrepia. Tem momentos em que não sabes se estás a cantar juntamente com o público, ou se ele está a cantar contigo. Tem a força das letras que, conhecendo a vivência de Mercury, nos emociona.

Aceitando que este filme é mais centrado em Mercury e menos nos outros membros da banda, ainda assim, a espaços os outros três elementos parecem apenas espectadores. Por outro lado, parece não haver a coragem de ir mais fundo no percurso conturbado de Mercury. Das origens humildes, da mudança de nome e divergências com a família, até à dificuldade de Mercury lidar com a exposição e importância que o facto de ser homossexual lhe iria trazer, parece que estes tópicos são quase só notas de rodapé. O filme centra-se muito na relação com Mary e acaba por deixar pouco espaço para o que realmente tornou a sua curta passagem pelo nosso planeta problemática e a espaços asfixiante.

Representar a luta interna para que a sua vida pessoal e escolhas sexuais fossem privadas e separadas da música apenas com uma conferência de imprensa que tenta criar uma tensão através de truques visuais e sonoros é quase erro de principiante de tão fraca que está. É neste tipo de pormenores e erros de timeline, como tocarem músicas em espetáculos vários anos antes de estas serem compostas, que o filme se torna displicente. O que é uma pena, porque a irreverência e singularidade da banda, merecia um filme mais irreverente e singular. O nome de David Fincher chegou a estar ligado à produção, o que poderia ter sido magnifico-o-o-o.

 

O Primeiro Homem na Lua

Uma viagem intensa e visceral, ainda que um pouco fria.

 

Título original: First Man (EUA – 2018)
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Josh Singer
Protagonistas: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke

“O Primeiro Homem na Lua” é o tipo de filme que já não se faz. Numa era em que a indústria de Hollywood só parece ter espaço para fazer enormes blockbusters ou pequenas obras de cinema indie com um orçamento de uma ida à mercearia, Damien Chazelle usou a celebridade que conquistou com o seu Óscar de Melhor Realizador (por “La La Land”) para dar vida a este filme de orçamento robusto (mas não titânico) com uma história clássica para contar.

Para esse efeito rodeou-se de um grupo de atores talentosos, com destaque para o sempre sólido Jason Clarke, a impossivelmente cativante Claire Foy e, acima de tudo, Ryan Gosling, que despe toda a sua performance de qualquer espécie de artifício e encarna esse homem invulgar que foi Neil Armstrong: um cientista profissional e muito reservado – incapaz, por vezes, de lidar com a fama inescapável da mediática missão de chegar primeiro à Lua.

A decisão de concentrar tanto do filme na desconstrução interna de uma personagem conhecida por (quase) nunca revelar os seus sentimentos é bastante curiosa. Poucos teriam criticado Chazelle se ele tivesse amplificado os momentos dramáticos para dar mais “força” às cenas entre Neil e os que os rodeiam, mas a contenção que o jovem realizador mostrou em não cair nessa tentação prova a confiança suprema com que atacou este projeto.

Dito isso, é curioso que uma das melhores decisões criativas deste filme é também a que criou um “limite” ao seu potencial. Ou seja, admirável que é a escolha de mostrar Neil Armstrong como ele era – contido, estóico, sem paciência para opiniões sem fundamentação científica –, é inegável também que isso torna “O Primeiro Homem na Lua” um filme moldado à imagem do seu protagonista: interessante – importante até – mas, em última instância, um pouco frio.

Mas, se é legítimo dizer que este não é um filme genial, é importante apontar que não deixa de ser muito, muito bom. E uma das grandes razões para isso está na sua execução técnica. O design de produção, principalmente nas cenas dentro dos foguetões, é brilhante. A isso, junta-se uma técnica de filmagem muito “realista”, com a câmara dentro das cápsulas exíguas em que os astronautas eram enfiados, criando uma sensação palpável de claustrofobia. A cada chocalhar de um parafuso, a cada ensurdecedor ribombar das finas placas de metal que os protegiam do letal e gelado vazio do espaço, percebemos o quão improvável o sucesso desta missão foi.

Gostaria de terminar uma nota sobre o contexto histórico deste filme. Apesar de ser, em parte, uma celebração do feito inacreditável da NASA, Damien Chazelle nunca torna o seu filme um mero ato de auto-elogio patriótico – chegou até a ser criticado por isso mesmo antes do filme ser lançado. “O Primeiro Homem na Lua” guarda espaço para mostrar as críticas de ativistas sociais ao dinheiro gasto pelo programa espacial, as hesitações dos organismos políticos que o financiavam e até o quanto este feito foi motivado por pura mesquinhez geopolítica.

O que o filme nunca faz é dar voz ao contigente de “peritos” da Internet que tentam argumentar que nunca fomos à Lua e que isto foi tudo um embuste filmado pelo Stanley Kubrick. Para os cinéfilos que partilhem dessas ideias, recomendo a obra de Mike Judge inspirada nas suas vidas: “Terra de Idiotas”.