Is this the real life? Is this just fantasy?

 

Título original: Bohemian Rhapsody (2018)
Realizador: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee

Começo por esclarecer que sou grande fã de Queen. Como muitos outros fãs, o entusiasmo teve o seu auge quando apareceram as primeiras imagens da transformação de Rami Malek (Mr. Robot) no icónico papel de Freddie Mercury e o primeiro teaser que pega na batida de “Another One Bites The Dust” e a liga magistralmente a várias das mais perfeitas músicas da banda.

A primeira reação a este filme foi totalmente como fanboy. Maravilhado por durante pouco mais duas horas ter assistido ao reanimar do incrível performer que era Mercury. Mas para fazer esta crítica achei que me devia afastar da experiência para conseguir avaliar Bohemian Rhapsody como filme.

O filme esteve envolto em problemas do início ao fim. Desde o anúncio de intenção de o fazer por parte de Brian May (que fez parte da produção, juntamente com Roger Taylor, como consultores e produtores executivos), até ao finalizar das produções. Foi conhecido que Sasha Baron Cohen seria a primeira escolha para dar corpo a Mercury, mas que acabou por abandonar por não concordar com como Mercury iria ser representado. Também o realizador Bryan Singer (Os Suspeitos do Costume, X-Men) abandonou a produção a 2/3 das filmagens, sendo substituído por Dexter Fletcher. Talvez por isso, estamos perante um filme que não sendo mau, podia ter sido muito melhor.

Não é a primeira vez que um biopic tem alguma liberdade criativa alterando o tempo em que os factos ocorrem e até criando alguns que não são factuais, para o tornar mais adequado ao grande ecrã. Por isso algumas das escolhas são aceitáveis, mas há algumas incoerências que são claramente desnecessárias e algumas que mostram alguma falta de coragem para expor um pouco mais Mercury e os Queen, quando na realidade, o que não faltou à banda e ao seu frontman foi a coragem de fazer diferente e assim ficar na história. Faltou um pouco dessa irreverência ao argumento que optou por fazer quase um “Behind The Music” e quase exclusivamente centrar-se no protagonista.

Nesse aspecto não podia ter sido mais certeiro. A escolha de Rami Malek é surpreendente, mas revelou-se perfeita. Freddie Mercury esteve vivo por momentos. A transformação física de Malek e a linguagem corporal, principalmente em palco, é absolutamente incrível. Não surpreenderá ninguém se o seu nome estiver na lista anunciada no início do ano pela Academia. Aliás, se há algo que neste filme é irrepreensível é o casting. A escolha dos actores que representam Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) é incrível de parecidos que são. Lee levou-me mesmo a questionar se seria eventualmente filho de May. Mas ao nível da representação o mérito não se esgota no protagonista. Lucy Boynton (que se destacou em Sing Street) é perfeita no papel de Mary Austin, a companheira e musa de Mercury, que mesmo quando assume a sua homossexualidade, se mantém como um pilar na estabilidade de Freddie.

Depois entra a música. Aqui seria difícil falhar. Um dos grandes méritos deste filme é conseguir colocar-nos no palco com a banda. Consegue passar a experiência sensorial que é tão característica do rock. Isso é conseguido com mestria pelo realizador e pela a sua equipa. Tem momentos em que aquela batida entra e te arrepia. Tem momentos em que não sabes se estás a cantar juntamente com o público, ou se ele está a cantar contigo. Tem a força das letras que, conhecendo a vivência de Mercury, nos emociona.

Aceitando que este filme é mais centrado em Mercury e menos nos outros membros da banda, ainda assim, a espaços os outros três elementos parecem apenas espectadores. Por outro lado, parece não haver a coragem de ir mais fundo no percurso conturbado de Mercury. Das origens humildes, da mudança de nome e divergências com a família, até à dificuldade de Mercury lidar com a exposição e importância que o facto de ser homossexual lhe iria trazer, parece que estes tópicos são quase só notas de rodapé. O filme centra-se muito na relação com Mary e acaba por deixar pouco espaço para o que realmente tornou a sua curta passagem pelo nosso planeta problemática e a espaços asfixiante.

Representar a luta interna para que a sua vida pessoal e escolhas sexuais fossem privadas e separadas da música apenas com uma conferência de imprensa que tenta criar uma tensão através de truques visuais e sonoros é quase erro de principiante de tão fraca que está. É neste tipo de pormenores e erros de timeline, como tocarem músicas em espetáculos vários anos antes de estas serem compostas, que o filme se torna displicente. O que é uma pena, porque a irreverência e singularidade da banda, merecia um filme mais irreverente e singular. O nome de David Fincher chegou a estar ligado à produção, o que poderia ter sido magnifico-o-o-o.

 

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