Já não se fazem vidas como a de Stan Lee.

 

É sempre uma ocasião triste quando morre uma celebridade que teve impacto nas nossas vidas. Justificadamente ou não, criamos laços com essas pessoas que fazem com que a sua partida nos afecte como se de um familiar se tratasse. E essa perda tende, quase sempre, a ser um momento carregado de tristeza e melancolia. Mas esse não é, por alguma razão, o caso com Stan Lee.

Talvez por ter vivido 95 anos. Talvez por sentirmos que gozou ao máximo cada segundo da sua longa vida. Talvez, até, por sentirmos que não é essa a memória que ele desejaria que tivéssemos dele. Ao longo da sua aclamada carreira, Stan Lee sempre apareceu como uma personificação do entusiasmo, da vontade de criar, do desejo de sentir emoções sem filtro – sem irritantes camadas de cinismo a esconder o que se passava por baixo da máscara.

Os super-heróis de Stan Lee nunca desaparecem por trás das suas máscaras. Têm personalidades vibrantes e distintas, criando ligações profundas e emocionais com o leitor – algo que o próprio sempre afirmou como uma missão sua e o ajudou a distanciar-se do que se fazia na indústria dos comics antes da Marvel explodir em popularidade. Em conjunto com talentos fora-de-série como Jack Kirby e Steve Kirby, Lee provou que não chega mostrar feitos impossíveis e imagens inacreditáveis para cativar o público. Os sucessos que perduram na memória colectiva têm sempre algo mais a acontecer por trás.

Quando eu era muito novo e comecei a ser introduzido ao mundo dos comics, o meu superherói favorito sempre foi (e ainda é) o Homem-Aranha. Sim, era divertido vê-lo a pular de prédio em prédio e usar as suas teias de aranha para dominar inimigos (aparentemente) mais fortes, mas não era essa a razão para a minha preferência. A verdade? Eu sentia – mais do que com qualquer outros “clássicos” como Batman ou Super-Homem – que EU podia ser o Homem-Aranha. Um jovem nerd – bem-disposto mas inseguro, sempre com uma piada em riste para mascarar as minhas hesitações – , como eu era, sentia-se representado naquelas páginas. Razões semelhantes motivaram as preferências de muitos outros fãs. Os heróis da Marvel eram apenas pessoas normais – colocadas em situações extraordinárias.

Numa era em que tantos bizarramente se queixam da invasão do “politicamente correto” na cultura popular, muitos nas comunidades nerd tendem a esquecer-se que o seu messias foi uma das principais vozes na luta pela inclusão. Stan Lee sempre sentiu que as suas histórias tinham a obrigação de refletir os debates sociais do mundo real. Foi esse sentido de responsabilidade que motivou a exploração de temas como a inclusão e aceitação de minorias, tanto étnicas como sexuais, em personagens como Black Panther ou os X-Men, ou problemas mais transversais como o alcoolismo, em Iron Man. Estes eram ideais que Stan Lee também explanava, de forma mais direta, nas colunas que escrevia regularmente. Ninguém era um maior “social justice warrior” que Stan Lee.

A 12 de Novembro de 2018, Stan Lee morreu, depois de uma luta prolongada contra os efeitos de uma pneumonia. Mas o seu incomparável legado perdura. Perdura nas páginas que ajudou a criar e continuou a influenciar muitos anos depois de deixar de ser o dono e CEO da Marvel. Perdura na inspiração que tantos dos fãs – com quem adorava interagir – retiravam da sua alegria de viver. E perdura, até, nos vários (e hilariantes) cameos com que nos brindava em tantos dos êxitos do Marvel Cinematic Universe – já tinha sido gravado o seu cameo para a segunda parte de “Avengers: Infinity War” e, quase que aposto, irá continuar a aparecer em mais filmes, com ajuda da avançada tecnologia de efeitos especiais ao nosso dispor.

Stan Lee assinava as suas colunas (e muitos autógrafos, também), com a expressão “Excelsior”. Traduzido do latim, quer dizer “superior”, “majestoso” ou “continuamente elevado” (ou em elevação). Sacana do homem tinha sempre a palavra certa.

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