Lisbeth Salander está de volta. Mas será mesmo ela?

 

Título original: The Girl In The Spider’s Web (UK, GER, SWE, CAN, EUA – 2018)
Realizador: Fede Alvarez
Argumento: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight
Protagonistas: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield

Depois de uma pequena saga nos bastidores de Hollywood para a continuação da saga Millenium, de Stieg Larsson, no grande ecrã, os detentores dos direitos de adaptação dos livros decidiram saltar os restantes capítulos da trilogia e saltar para o quarto volume, já escrito por David Lagercrantz. O resultado, “A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha”, é muito semelhante ao livro que o inspirou – interessante e executado de forma competente, mas estranhamente desligado da essência da saga que pretende continuar.

Começando pelo trabalho dos atores, a avaliação possível é, como quase todo o filme, mista. Lakeith Stanfield transpira carisma, mas interpreta um agente americano que parece relativamente desnecessário à narrativa, Sverrir Gudnason é competente como Mikael Blomqvist mas mal é utilizado e Sylvia Hoeks é interessante mas não espetacular no seu papel (que não vou revelar).

Mas o grande foco desta história é Claire Foy e, no que respeita ao seu trabalho como atriz, não há nada a apontar. Foy é uma estrela emergente e brilha no seu papel, como tem feito em basicamente todos os seus desempenhos recentes. O problema é mesmo o que lhe deram para fazer.

Não tenho nada contra personagens evoluirem – é um processo natural da criação de uma narrativa. Mas o que fizeram com Lisbeth Salander não faz grande sentido. Lisbeth fala mais neste filme que em qualquer outro, partilha emoções e assume-se cada vez mais como uma heroína. É construída à imagem das anti-heroínas modernas que têm vindo a popular tanta da cultura pop nos últimos anos. Mas isso não é a Lisbeth Salander. Se vão mudá-la tão radicalmente, tem de haver algum contexto para essa mudança. Devem ter saltado essas páginas do guião.

Adicionalmente, houve um esforço declarado para sexualizar a personagem de uma forma que nunca tinha acontecido, chegando ao ponto de várias vezes sugerirem nudez sem a mostrar com o claro intuito de criar titilação no espetador. A própria caracterização de Claire Foy deixa, à falta de melhor expressão, demasiada da sua beleza natural transparecer no ecrã. Lisbeth Salander é uma personagem muito complexa, com inúmeras facetas na sua personalidade – “sex symbol” nunca foi uma delas.

O realizador uruguaio, Fede Alvarez – que já tinha recebido elogios da crítica pelo seu trabalho em “Don’t Breathe” – mostra aqui ter boa mão na coreografia de cenas de ação. Ao longo de todo o filme, somos brindados com sequências de fina execução técnica – desde entusiasmantes perseguições automóveis a excitantes cenas de luta. A câmara ataca estas cenas com grande criatividade visual e ajuda a construir momentos memoráveis de ação.

O problema? Isso não tem nada a ver com esta saga… A obra de Stieg Larsson é caracterizada pela tensão que existe entre uma mulher rejeitada pela sociedade e as constantes ameaças à sua vida que a rodeiam. É um comentário sobre a podridão que se esconde por trás do brilho falso com que pintamos a nossa vida. Este reboot da saga parece estar mais interessado em torná-la a nova “Missão Impossível”. O resultado é um filme estranhamente desligado da sua fonte de inspiração. Mau? Não. Há uma boa dose de talento no ecrã. Mas podia ser tão, tão melhor.

 

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