Monthly Archives: Dezembro 2018

Tudo a Nu na Normandia

Uma comédia dramática que se despe literalmente de preconceitos.

 

Título original: Normandie nue (FRA – 2018)
Realizador: Philippe Le Guay
Argumento: Victoria Bedos, Olivier Dazat
Actores: François Cluzet, François-Xavier Demaison, Julie-Anne Roth

Mêle-sur-Sarthe é uma comuna esquecida na Normandia. Apesar de apenas a duas horas da capital francesa, é lugar que pouca gente conhece. Alí a maior parte dos seus habitantes, que não são muito mais que seis centenas, dedicam-se à pastorícia. Contemporâneos de uma sociedade que cada vez mais diminui o consumo da carne e do leite ou procuram o mais barato e conveniente. Tentam a todo o custo sobreviver com o ofício herdado dos seus antepassados.

Assim começa esta pitoresca comédia dramática francesa, realizada entre os prados verdejantes a perder de vista com as suas vacas que pastam em silêncio envolvidas pela neblina matinal. O novo mundo ameaça o velho e esta comunidade sente-se traída. É terra de gente dura de roer, que não tem medo ao trabalho árduo do campo e com costumes e moral tradicionais profundamente intrínsecas no seu modo de vida. Acreditam que quem se dedica com esmero como eles, merece o fruto do seu trabalho.

Na tentativa de chamar a atenção de uma França que os ignora, decidem bloquear a estrada principal com tratores e molhes de feno. Entram então em cena três americanos que vão a caminho de Paris. Entre eles está Newman, fotógrafo famoso por despir multidões para as suas fotografias não convencionais. Barrados pelos manifestantes, acaba por desviar por estradas secundárias onde encontra finalmente, depois de tanto procurar, o lugar ideal para a sua próxima milionária obra de arte. O local é Champ Chollet, precisamente em Mêle-sur-Sarthe. Comunica então ao mayor da pequena localidade a sua intenção de despir os seus habitantes. O mayor é Georges Balbuzard, interpretado por François Cluzet que por si só já é um veterano da cinematografia francesa. Numa atuação que se destaca entre outros nomes mais desconhecidos, representa na perfeição este homem que faria qualquer coisa pela sua aldeia. Encontra nesta estranha proposta uma oportunidade de ouro para colocá-los no mapa e chamar a atenção do governo francês. Porém depara-se com o maior desafio da sua vida ao tentar convencer os seus conterrâneos de se despir de preconceitos e ficar a nu por uma boa causa.

A quem esteja habituado a filmes hollywoodescos em que toda a ação gira em redor de heróis altos e espadaúdos que embarcam em aventuras tão fantásticas como irrealistas, poderá não conseguir ver a beleza de um filme que conta o quotidiano de uma típica aldeia rural na Normandia. Deparamo-nos com um leque formidável de todo o tipo de pitorescas personagens que decoram a trama, dando-nos aquele gostinho delicioso das vidas simples mas ricas das gentes que vivem da terra. Temos Eugène (Philippe Rebbot), agricultor constantemente despenteado e temperamento volátil, que está a ponto de perder tudo e Maurice (Patrick d’Assumçao) o seu arqui inimigo com o qual tem uma disputa de terras tão antiga quanto a Segunda Guerra Mundial. Ou Gìsele (Lucie Muratet), ex Miss Calvados e agora mulher do talhante Roger (Grégory Gadebois) que ciumento, não consegue aceitar o facto da sua bela mulher se despir em frente dos vizinhos. Também temos a família parisiense, os Levasseur (François-Xavier Demaison e Julie-Anne Roth) que fugindo da confusão da cidade, tentam recomeçar uma vida mais sossegada no campo, apesar da sua filha adolescente Chloé (Pili Groyne) não estar muito satisfeita com a mudança repentina. Ou Vincente (Arthur Dupont), filho do antigo fotógrafo local, que apenas regressa à terra onde nasceu para vender a loja de seu pai e acaba por encontrar bons motivos para ficar.

Numa sociedade mediática como aquela em que vivemos hoje, sabe bem parar o ritmo acelerado dos dias e deixar-nos comover umas vezes, rir outras, com este singelo filme. Deixamos para outra altura os super heróis, os desastres naturais sempre em Nova Iorque e as batalhas épicas de deuses contra titãs. Tentamos agora absorver o simbolismo deste povo de normandos a quem já tiraram tanto que apenas lhes sobra a roupa que levam posta, e mesmo essa despem-na humildemente num último grito desesperado por um modo de vida que poderá ter os dias contados.

 

“Ils ne savent plus le nom des fontaines
Ils ne savent plus la saveur de l’eau
Ils ne savent plus le cri de la chaine
Aux portes des puits à la mérienne

Sauront-ils encore
Un jour nos enfants
Parler aux chevaux
Compter les étoiles”

Ils ne savent plus, François Budet, 1976

 

Eles não sabem já o nome das fontes
Eles não conhecem já o sabor da água
Eles não sabem já o grito da cadeia
Nas portas dos poços da Mérienne

Saberão eles ainda
Um dia nossos filhos
Falar com os cavalos
Contar as estrelas

 

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

A tão aguardada adaptação ao pequeno ecrã de um dos mais recentes fenómenos da literatura contemporânea.

 

Título original: The Truth About the Harry Quebert Affair (EUA – 2018)
Criado por: Jean-Jacques Annaud
Argumento: Joël Dicker (adaptado do livro “The Truth About the Harry Quebert Affair”)
Actores: Patrick Dempsey, Ben Schnetzer, Kristine Froseth
Canal: AMC (PT) Epix (US)

Ouvi falar de Joël Dicker há dois anos. Uma “devoradora” de livros como eu confessava-se “viciada” nas suas obras – e desesperada porque, à data, o jovem (33 anos) escritor suíço só tinha lançado três livros (e ela já tinha lido todos). O entusiasmo dela convenceu-me e dediquei-me à leitura de “O Último Dia dos Nossos Pais”, o primeiro livro de Joël Dicker a que consegui deitar a mão. Descobri que os elogios às obras do escritor suíço, por quem me tinha aconselhado, eram mais que merecidos – eu também já estava viciada. Li então “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e “O Livro dos Baltimore” num sopro (entretanto, saiu “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”, este ano), perguntando-me como é que ainda ninguém se tinha lembrado de fazer um filme ou uma série a partir das brilhantes histórias de Joël Dicker. Afinal, soube recentemente que o autor recusou 95 propostas de adaptação de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, até ter finalmente concordado com a ideia de Jean-Jacques Annaud, o realizador à frente da série em exibição desde dia 2 de dezembro no canal AMC.

Joël Dicker foi sensato em esperar e não ceder os direitos do seu livro à primeira proposta de Hollywood: afinal, Jean-Jacques Annaud é o realizador de êxitos como “O Nome da Rosa” (1986), “O Amante” (1992) ou “Sete Anos no Tibete” (1997). Assim, este promissor escritor suíço, já com alguns prémios no currículo, pode ver a sua história adaptada por um dos grandes nomes do cinema contemporâneo – e que se aventura pela primeira vez na televisão. Um privilégio reservado a poucos.

A verdade é que a intensidade da obra de Joël Dicker se perderia se não fosse bem contada, por um realizador experiente em thrillers e romances pesados e desafiantes. A escolha pelo formato série também foi acertada – quem conhece a escrita de Joël Dicker sabe que vive de de suspense e de pormenores, e perdia tanto em detalhes como em emoção num filme. Assim, de episódio em episódio, vamos entrando na história e conhecendo as várias personagens que compõem este intrincado e viciante thriller. É a melhor forma de descobrir e de nos apaixonarmos por “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”.

A série, que é exibida todos os domingos às 22h10, no AMC, segue de forma fiel a ordem cronológica dos eventos do livro. Começamos por conhecer Marcus Goldman (interpretado por Ben Schnetzer), um jovem escritor a desfrutar os prazeres da fama, depois do êxito do seu primeiro livro. Mas, à medida que se aproxima o deadline para a entrega da sua segunda obra, para a qual lhe foi oferecido um contrato milionário, Marcus não tem nem uma linha escrita. É então que se lembra do seu professor e mentor Harry Quebert (Patrick Dempsey), um aclamado escritor que, há anos, trocou a frenética Nova Iorque por uma tranquila localidade à beira-mar no Maine, perto de onde dá aulas numa universidade. Marcus parte para o interior norte-americano esperando que a sua quietude lhe devolva a inspiração. Passa um tranquilo fim de semana com o professor e regressa a casa – ainda sem nenhuma obra-prima no bolso. De repente, Harry liga-lhe para lhe dizer que encontraram, no seu quintal, os restos mortais de uma rapariga, Nola Kellergan (Kristine Froseth), desaparecida há 33 anos. Harry é acusado de a ter morto e enterrado. O crime ganha novos contornos quando Marcus descobre que o seu ídolo terá vivido um amor proibido com a vítima, quando ele tinha 34 e a rapariga apenas 15. Mas Harry nega o crime e Marcus, que conhece o professor há 10 anos, acredita na sua inocência.

Esta é a intriga que nos é apresentada no primeiro episódio da série, que, respeitando as pausas dramáticas da escrita de Joël Dicker, acaba em cliffhanger. A produção da AMC tem 10 episódios e, após assistir aos quatro que foram exibidos até à data, o balanço é positivo. Tal como no livro, é com o coração nas mãos que assistimos ao desenrolar da história – e ao desespero de Marcus, quando tudo aponta para a culpa de Harry Quebert.

Como no livro, a série leva-nos por analepses a conhecer o romance entre Harry e Nola. Tanto na versão jovem como mais velha de Harry, Patrick Dempsey interpreta de forma competente o escritor, primeiro feliz e apaixonado, e depois caído em desgraça, de semblante perdido e, de súbito, num novo luto pelo seu amor. Kristine Froseth é também a Nola que os leitores de Joël Dicker imaginaram: inocente, apaixonada pela vida, com uma alegria que a todos contagia. A química entre Patrick e Kristine é palpável – como era suposto.

Assim, as expectativas em relação a esta série – à qual temos de assistir “à maneira antiga”, semanalmente –, não podiam estar mais elevadas. As boas notícias é que, para o dia 25 de dezembro, o canal AMC promete uma maratona dos cinco primeiros episódios da série – o que, para os fãs de Joël Dicker, não podia ser melhor presente de Natal.

 

22 de julho

Um (muito bem dado) murro no estômago.

 

Título original: 22 July (NOR, ISL, EUA – 2018)
Realizador: Paul Greengrass
Argumento: Paul Greengrass, Åsne Seierstad
Protagonistas: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden

Paul Greengrass. Ver o nome de um dos mais brilhantes realizadores de Hollywood associado a um original da Netflix já era razão suficiente para assistir a “22 de julho” – mais ainda se nos lembrarmos que o cineasta foi o realizador de alguns dos mais intensos thrillers dos últimos tempos, como “Capitão Philips” (2013), “Voo 93” (2006) ou “Domingo Sangrento” (2002). Paul Greengrass parece ter uma queda por argumentos baseados em histórias verídicas – e ainda bem, pois o seu talento para contá-las, mantendo sempre a narrativa num limbo entre o suspense e o drama, é indiscutível.

22 de julho de 2011. A Noruega acorda para o seu pior pesadelo. Ao início da tarde, um carro-bomba explode junto aos prédios onde se situa o gabinete do primeiro-ministro, em Oslo, resultando na morte de 8 pessoas. Horas depois, 69 pessoas são mortas num tiroteio na ilha de Utøya, onde se realizava um campo de verão para jovens do Partido Trabalhista Norueguês. É um dia negro para a História da Noruega, especialmente porque a maioria das vítimas são crianças.

“22 de julho” leva-nos pelo antes, durante e depois dos acontecimentos do dia que marcou os noruegueses. Conhecemos os jovens que, no dia anterior, chegam entusiasmados ao campo de férias – crianças fascinadas pela ideia de deixar a sua marca no mundo, muitas delas filhas de dirigentes e figuras influentes da Noruega –, e conhecemos Anders Behring Breivik, enquanto escreve ao computador o manifesto que, como diria mais tarde, “explica a necessidade daquele atentado”.

Mestre em filmes sobre tragédias humanas, Paul Greengrass garante que nos envolvemos tanto com as vítimas como com o terrorista, antes dos momentos-chave. No discurso de Anders Breivik há ideias que, infelizmente, nos são familiares: a oposição em relação à imigração, aos refugiados e ao multiculturalismo – que o terrorista classifica como “forçado”. Sabemos que não param de nascer, pela Europa, frentes que apoiam ideias extremistas de direita, e este filme vem precisamente lembrar-nos disso. Vem lembrar-nos que o que construímos como ideal – uma Europa de braços abertos, onde todos podem trabalhar e sonhar ter uma vida melhor – está a ser ameaçado por quem preferia fechar portas a tudo o que é diferente e novo.

“22 de julho” é, também, brilhante a mostrar aquilo que não vemos, quando os bombeiros limpam os destroços e nasce um novo dia num palco de guerra: os longos meses de recuperação das vítimas dos atentados, as marcas que deixam nas suas famílias e o medo que se apodera, para sempre, dos seus corações. E é através de pequenos detalhes que o filme nos mostra como tudo muda, enquanto nós continuamos a fazer zapping, esquecendo aos poucos o último cenário sangrento que vimos na TV. Sentimo-nos, às vezes, a invadir momentos demasiado privados, quando Paul Greengrass nos leva pelas difíceis sessões de fisioterapia das vítimas, a imensa vitória que é descer umas escadas ou, simplesmente, tentar adormecer todos os dias sem pensar, outra vez, naquele dia fatídico.

No papel do infame Anders Breivik, o norueguês Anders Danielsen Lie não podia ter melhor prestação. Tudo na sua linguagem corporal e olhar transmite ódio e uma convicção cega nos ideais que defende. Mas a construção da personagem de Anders Breivik em “22 de julho” não cede ao facilitismo de retratar o terrorista norueguês como um “monstro”, como a imprensa daquele país começou por chamar-lhe. Descobrimos a sua infância e o que levou àquele tipo de pensamento, para percebemos que afinal, o “mau da fita moderno” não é apenas um lobo mau com sede de sangue: é fruto de más experiências e problemas que, infelizmente, o socialismo europeu levou para dentro das casas de adolescentes incompreendidos, que viram, injustamente, nos imigrantes e refugiados a culpa para a perda do poder de compra das suas famílias.

É por isso que “22 de julho” é um autêntico murro no estômago – porque põe a nu as fragilidades de um ideal à beira do colapso, e porque nos lembra da insignificância das nossas queixas de todos os dias, face à luta diária que se torna a vida de uma vítima de atentado.

 

Nada a Esconder

Um melodrama cómico à boa maneira do cinema europeu: nu e cru.

 

Título original: Le Jeu (FRA, BEL – 2018)
Realizador: Fred Cavayé
Argumento: Filippo Bologna, Fred Cavayé
Actores: Bérénice Bejo, Suzanne Clément, Stéphane De Groodt

Há, no serviço português da Netflix, cada vez mais e melhor oferta de filmes – nomeadamente, de produções europeias. “Nada a Esconder” é um desses exemplos: um original Netflix que encontramos pelo zapping, com a promessa de ser, segundo lemos na plataforma, um “filme espirituoso”. E, de facto, quem quer que tenha assim categorizado esta película francesa, tem toda a razão.

Comecemos pelo facto de ser uma produção francesa. As comédias realizadas neste país têm vindo a surpreender o público, seja pelas suas – lá está – espirituosas histórias, ou pelos seus excelentes atores, que trazendo para o grande ecrã os dotes para a ironia e sarcasmo do seu povo, tornam os filmes franceses incríveis experiências de gargalhadas sem parar.

Depois, há que salientar que este é um filme baseado numa produção italiana, “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte” (Perfetti Sconosciuti, 2016), outro país de onde nos chegam, também, obras-primas da comédia – do estilo que põe o dedo na ferida, desconfortável.

Assim, temos os ingredientes que tornaram “Nada a Esconder” num melodrama cómico que importa ver, onde acabamos a olhar para dentro de nós e confessar os nossos próprios pecados, engolindo em seco – como apenas um bom filme é capaz de fazer.

A história é muito simples: um grupo de amigos, com laços que recuam até à escola primária, junta-se mais uma vez na casa de Vincent (Stéphane De Groodt), o cozinheiro e anfitrião do costume. Estamos perante casais nos seus trinta ou quarenta anos, com décadas de relacionamento, mágoas e segredos. A tensão é visível em cada um dos pares – menos entre os joviais Thomas (Vincent Elbaz) e Léa (Doria Tilier), que acabaram de casar. Mas quando chegam a casa de Vincent, todos brincam e riem juntos, como se nada se passasse. Até que Marie (Bérénice Bejo), psicoterapeuta de profissão, lança o tema dos telemóveis como “as novas caixas negras dos casais” e convida os amigos a fazer um jogo: naquela noite, todos irão pousar os seus telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para cima e o som ativo, para que, sempre que um dos aparelhos tocar, todos possam ler as mensagens, ouvir os telefonemas e ver as fotos recebidas, confirmando se há, ou não, segredos entre os casais e amigos. E o resultado, que já se adivinhava desastroso, revela-se surpreendente. Especialmente, porque à medida que o jogo avança, e os segredos são postos a nu, aqueles que mais apontam o dedo acabam por ser obrigados a admitir a sua hipocrisia.

“Nada a Esconder” mostra-nos que, quando a narrativa é competente e envolvente, o cenário de 1h33 minutos de filme pode ser sempre o de uma pequena sala, sem mais nada. A força dos diálogos do filme prende-nos irremediavelmente, até ao seu intenso desenlace. Por uma noite, e durante um jogo, descobrimos, entre vícios, falhas e pudores, homens e mulheres que se revelam em toda a sua profunda imperfeição, e, como qualquer ser humano, erram e voltam a errar, porque amam e desejam ser amadas – não é o que queremos todos?

Um verdadeiro retrato da sociedade moderna, onde, com tantas formas de comunicar com quem não está, perdemos o contacto com quem está mesmo ao nosso lado.

 

Viúvas

Uma grande história de crime… e muito, muito mais.

 

Título original: Widows (UK, EUA – 2017)
Realizador: Steve McQueen
Argumento: Gillian Flynn, Steve McQueen
Protagonistas: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki

Quando ouvi que Steve McQueen ia realizar uma história de crime, com várias cenas de ação pelo meio, a minha primeira reação foi de estranheza. Adorei todos os outros filmes do realizador britânico (“Fome”, “Vergonha” e “12 Anos Escravo”), mas este parecia estar tão longe da sua zona de conforto que não consegui evitar alguma sensação de desconfiança. Depois de ver “Viúvas”, a lição aprendida é que nunca se deve duvidar de talento.

Neste clássico moderno, um grupo de mulheres vê-se envolvida no mundo clandestino do crime, depois dos seus maridos criminosos morrerem durante um assalto. Confrontadas com a obrigação de pagar a dívida dos seus ex-parceiros, as mulheres decidem, relutantemente, planear outro grande assalto. Toda esta trama, já de si relativamente complexa, é contada no contexto de uma campanha política local que ameaça revelar vários segredos obscuros da vida nas ruas de Chicago.

Uma das principais razões para o sucesso deste filme passa pelo seu impossivelmente recheado elenco. Desde grandes estrelas a veteranos do teatro e do ecrã, não há um frame que seja que não esteja a transbordar de talento em cena. Entre estes destacam-se especialmente Viola Davis, Elizabeth Debicki e Daniel Kaluuya. Curiosamente, os três destacam-se por razões que não têm tanto a ver com habilidade técnica mas antes com pura presença em cena. Viola Davis está imperial como a líder do recém-formado grupo de assaltantes. Elizabeth Debicki, do alto dos seus 1,90m, consegue a proeza de parecer imponente e vulnerável ao mesmo tempo. E Daniel Kaluuya enche a tela nas cenas em que entra, dominando os seus adversários como um predador a brincar com a sua presa.

A ajudar estas performances temos o sempre original olhar de Steve McQueen atrás da câmara. “Viúvas” tem os elementos clássicos de uma história de crime e ação, sim, mas o realizador inglês acrescenta sempre algo mais na sua construção de planos, introduzindo vários close-ups apertados dos seus protagonistas e sequências quase lânguidas em que parece fascinado pelos movimentos dos corpos dos seus protagonistas – de uma forma curiosa em que transita entre o fascínio romântico (ou até mesmo sexual) e a pura curiosidade biológica, como se estivéssemos a ver um documentário sobre o corpo humano. O facto de isto ser feito sem nunca comprometer o ritmo da narrativa é apenas mais uma prova do talento de McQueen.

Por fim, não queria deixar de elogiar aquele que será um dos melhores argumentos deste ano de cinema. Escrito por Gillian Flynn (“Gone Girl”) e McQueen, este texto partiu de uma série britânica clássica, dos anos 80, e acrescentou-lhe toques de modernidade brilhantes. Desde uma mensagem sobre a luta das mulheres por um lugar no topo da “cadeia alimentar” ao mundo da corrupção na política urbana, passando por um comentário sobre o racismo omnipresente nas forças de autoridade, “Viúvas” consegue juntar camadas por cima de camadas de significado sem nunca se tornar num sermão.

Acima de tudo, é profunda e completamente cativante. A cada decisão dos protagonistas que nos fazem pensar que já sabemos para onde a narrativa vai caminhar, somos apanhados de surpresa com mais uma guinada brusca no guião. Este filme manteve a minha atenção durante cada segundo da sua duração. E é só isso que lhe posso pedir. Tudo o resto é um bónus.

 

Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Regressar ao mundo mágico criado por J.K. Rowling é como voltar a casa.

 

Título original: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald (GBR, EUA – 2018)
Realizador: David Yates
Argumento: J.K. Rowling
Actores: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler

Quem cresceu a ler as aventuras de Harry Potter – como eu –, sabe que há mais para além das histórias dos sete livros da saga. Compreendendo que, para criar um mundo fantástico, verosímil e possível, é necessário que este tenha um passado e uma previsão de futuro, J.K. Rowling foi sempre deixando, pelos romances d'”O Rapaz que Sobreviveu”, referências a outros acontecimentos marcantes para a História dos feiticeiros. Assim, J.K. Rowling não encerrou o mundo mágico de Harry Potter no final da saga – pelo contrário, deixou sementes para muitas, muitas novas histórias.

É o caso do filme “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, que chegou este ano aos cinemas. Esta nova aventura apresenta-se como a sequela de “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” (2016), o primeiro filme depois do fim da saga dos cinemas, “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2”, em 2011. Mas esta sequela representa uma autêntica revolução para os fãs da saga. É que, se “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” ainda se baseava num pequeno (e quase passado despercebido) livro de J.K. Rowling, sobre as criaturas mágicas do mundo dos feiticeiros e um homem completamente fascinado por elas, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não tem qualquer livro de base. Podia ser completamente desvirtuado da ideia original, como com muitas sagas continuadas por nomes que não os seus criadores (veja-se o caso do último filme da saga Millenium, com crítica no nosso site) – mas, felizmente, J.K. Rowling é uma verdadeira mãe galinha da sua mais preciosa criação e encarregou-se ela própria do argumento do filme, para felicidade e alívio de todos os “Potterheads” do nosso mundo muggle. Talvez graças a isso, e ao realizador não ser outro que David Yates, o nome mais frequente na cadeira de realização dos filmes de Harry Potter, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” regressa com o look & feel, a típica ação e emoção da saga do miúdo da cicatriz em forma de relâmpago.

A narrativa deste novo filme é bem construída, de emoção ascendente e, muitas vezes, de cortar a respiração, como J.K. Rowling nos habituou nos livros, e tão bem tem sido transposto para os filmes. Descobrimos versões mais jovens das personagens das aventuras de Harry Potter, como Albus Dumbledore (Jude Law), e neles é mantida a personalidade e características que marcaram as películas anteriores. Havia, entre os fãs da série, uma imensa curiosidade em conhecer um jovem Albus, especialmente depois de saber que o carismático Jude Law o iria interpretar – e acredito que o público não se pode sentir defraudado, já que o ator britânico consegue trazer para a sua versão de Albus até aquele brilhozinho nos olhos que Michael Gambon (o ator que interpretou Dumbledore na saga original) emprestava à sua personagem sempre que falava com o seu mais promissor aluno, Harry Potter. Neste filme, a menina dos olhos de Albus é, como não podia deixar de ser, o singular Newt Scamander, fã de criaturas mágicas que só lhe dão problemas.

O vilão desta história, que se passa antes da II Guerra Mundial e antes de Voldemort ou Harry Potter terem nascido, é Grindelwald (Johnny Depp, que dispensa apresentações), um fanático que sonha com o domínio dos feiticeiros sobre o mundo muggle. O paralelismo com o ditador que a nossa História viria a conhecer é inevitável – e a história constrói-se exatamente nesse sentido, lembrando-nos que, de tempos a tempos, surge um extremista que defende a superioridade de uma raça sobre as outras. Na nossa sociedade, já sabemos que o impacto destas figuras é sempre catastrófico, mas no mundo mágico ficamos sem saber – já que (tentando evitar os spoilers), o filme termina deixando antever que teremos mais “Monstros Fantásticos” nos cinemas nos próximos anos.

E é mesmo a desejar que o tempo passe depressa até ao próximo filme de “Monstros Fantásticos” que deixamos a sala de cinema depois de ver esta película, sabendo que, tal como no final de cada livro, J.K. Rowling fica a rir-se da quantidade de fãs que todas as noites deita a cabeça na almofada criando mil e um cenários e plot twists para a próxima aventura de Newt Scamander – “Potterheads” felizes porque, afinal, há mais para além do último “the end” do capítulo final de Harry Potter.

 

The Man In the High Castle

E se as Forças Aliadas tivessem perdido a 2ª Grande Guerra?

 

Título original: The Man In the High Castle (2015 – presente)
Criado por: Frank Spotniz
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Alexa Davalos, Luke Kleintank, Rufus Sewell
Canal: Amazon Prime (PT) Amazon Prime (US)

Estamos em 1962, numa América dominada e invadida pela Alemanha Nazi e pelo Império Japonês. As potencias do Eixo ganham a Segunda Grande Guerra e acordam dividir o território dos Estados Unidos da América. No Este, é criado o Greater Nazi Reich e, nos Estados de Oeste, os Japanese Pacific States, deixando no meio os Estados das Rocky Mountains, uma zona de ninguém onde se refugiam os indesejados dos invasores e onde cresce um movimento rebelde na esperança de voltar a ter um país livre. Esta é a assustadora premissa de The Man in the High Castle, baseada no livro de Philip K. Dick com o mesmo nome. Mais assustador ainda é como a intolerância fascista está presente no dia a dia dos americanos como se fosse natural, ou mesmo como, entre uma season e outra, essa realidade passou a ser tão próxima da actualidade.

Frank Spotnitz (X-Files) está ao leme desta série, que tem na produção uma das suas mais valias. É impressionante a transformação, principalmente de Nova Iorque e São Francisco. Os cenários, guarda-roupa, os veículos, tudo nos coloca imediatamente nos anos 60, com propaganda Nazi e ordem, presente em cada canto, ou, no caso do Oeste, o sol Californiano mistura-se com o tradicionalismo Oriental. Aliás, a atenção ao detalhe coloca esta série no topo das melhores produções na televisão. Até o genérico é brilhante e arrepiante ao mesmo tempo.

Juliana Crain (Alexa Davalos) vive em São Francisco, dominada pelo Império Japonês, onde estuda Aikido. Ela e o seu namorado Frank (Rupert Evans), um artista plástico, tentam manter-se debaixo dos radares, visto que a arte moderna não é aceite e é perseguida pelas autoridades.

As suas calmas rotinas são interrompidas quando a irmã de Juliana é assassinada por ter na sua posse uma bobine de filme que contém um filme proibido. “The Grasshopper Lies Heavy” é um filme que contem notícias da vitória das Forças Aliadas. A série segue a missão que Juliana acredita ser o seu destino, para levar aquele filme ao destino pretendido pela sua irmã. Não se sabe bem o que é aquilo realmente. Uma simulação? Uma realidade paralela? Como é que alguém conseguiu aquelas imagens? Quem será o “The Man in the High Castle”, suposto responsável pela existência do filme?

Na terra de ninguém, onde vivem as várias raças rejeitadas pelos Nazis e pouco aceites pelos Japoneses, Juliana conhece Joe Blake (Luke Kleintank) que tem também ele uma missão. Os dois seguem em direcção de Este, onde Joe se deve encontrar com John Smith (Rufus Sewell), um official Nazi americano que luta entre providenciar o melhor para a sua família e a pretenção de subir na escada do poder local. Este é o ponto de partida, de que não posso revelar muito mais, desta história de espionagem, ficção científica e suspense.

The Man in the High Castle peca, no princípio, por alguma falta de profundidade dos personagens e diálogos, mas vai melhorando de série em série, com entrada de novos personagens. Quem nos consegue agarrar logo de inicio é Davalos e Sewell que são o grande destaque da série no que ao elenco diz respeito. Também neste aspecto, à medida que viajamos da série 1 à 3, vão aparecendo mais personagens com mais interesse que vão alimentar o mistério.

The Man in the High Castle está disponível em Portugal através da Amazon Prime e vale a mensalidade que chega para ver, em modo binge, as três séries disponíveis até agora. Quem ainda não viu, não deixe de a ver.