Uma grande história de crime… e muito, muito mais.

 

Título original: Widows (UK, EUA – 2017)
Realizador: Steve McQueen
Argumento: Gillian Flynn, Steve McQueen
Protagonistas: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki

Quando ouvi que Steve McQueen ia realizar uma história de crime, com várias cenas de ação pelo meio, a minha primeira reação foi de estranheza. Adorei todos os outros filmes do realizador britânico (“Fome”, “Vergonha” e “12 Anos Escravo”), mas este parecia estar tão longe da sua zona de conforto que não consegui evitar alguma sensação de desconfiança. Depois de ver “Viúvas”, a lição aprendida é que nunca se deve duvidar de talento.

Neste clássico moderno, um grupo de mulheres vê-se envolvida no mundo clandestino do crime, depois dos seus maridos criminosos morrerem durante um assalto. Confrontadas com a obrigação de pagar a dívida dos seus ex-parceiros, as mulheres decidem, relutantemente, planear outro grande assalto. Toda esta trama, já de si relativamente complexa, é contada no contexto de uma campanha política local que ameaça revelar vários segredos obscuros da vida nas ruas de Chicago.

Uma das principais razões para o sucesso deste filme passa pelo seu impossivelmente recheado elenco. Desde grandes estrelas a veteranos do teatro e do ecrã, não há um frame que seja que não esteja a transbordar de talento em cena. Entre estes destacam-se especialmente Viola Davis, Elizabeth Debicki e Daniel Kaluuya. Curiosamente, os três destacam-se por razões que não têm tanto a ver com habilidade técnica mas antes com pura presença em cena. Viola Davis está imperial como a líder do recém-formado grupo de assaltantes. Elizabeth Debicki, do alto dos seus 1,90m, consegue a proeza de parecer imponente e vulnerável ao mesmo tempo. E Daniel Kaluuya enche a tela nas cenas em que entra, dominando os seus adversários como um predador a brincar com a sua presa.

A ajudar estas performances temos o sempre original olhar de Steve McQueen atrás da câmara. “Viúvas” tem os elementos clássicos de uma história de crime e ação, sim, mas o realizador inglês acrescenta sempre algo mais na sua construção de planos, introduzindo vários close-ups apertados dos seus protagonistas e sequências quase lânguidas em que parece fascinado pelos movimentos dos corpos dos seus protagonistas – de uma forma curiosa em que transita entre o fascínio romântico (ou até mesmo sexual) e a pura curiosidade biológica, como se estivéssemos a ver um documentário sobre o corpo humano. O facto de isto ser feito sem nunca comprometer o ritmo da narrativa é apenas mais uma prova do talento de McQueen.

Por fim, não queria deixar de elogiar aquele que será um dos melhores argumentos deste ano de cinema. Escrito por Gillian Flynn (“Gone Girl”) e McQueen, este texto partiu de uma série britânica clássica, dos anos 80, e acrescentou-lhe toques de modernidade brilhantes. Desde uma mensagem sobre a luta das mulheres por um lugar no topo da “cadeia alimentar” ao mundo da corrupção na política urbana, passando por um comentário sobre o racismo omnipresente nas forças de autoridade, “Viúvas” consegue juntar camadas por cima de camadas de significado sem nunca se tornar num sermão.

Acima de tudo, é profunda e completamente cativante. A cada decisão dos protagonistas que nos fazem pensar que já sabemos para onde a narrativa vai caminhar, somos apanhados de surpresa com mais uma guinada brusca no guião. Este filme manteve a minha atenção durante cada segundo da sua duração. E é só isso que lhe posso pedir. Tudo o resto é um bónus.

 

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