Um melodrama cómico à boa maneira do cinema europeu: nu e cru.

 

Título original: Le Jeu (FRA, BEL – 2018)
Realizador: Fred Cavayé
Argumento: Filippo Bologna, Fred Cavayé
Actores: Bérénice Bejo, Suzanne Clément, Stéphane De Groodt

Há, no serviço português da Netflix, cada vez mais e melhor oferta de filmes – nomeadamente, de produções europeias. “Nada a Esconder” é um desses exemplos: um original Netflix que encontramos pelo zapping, com a promessa de ser, segundo lemos na plataforma, um “filme espirituoso”. E, de facto, quem quer que tenha assim categorizado esta película francesa, tem toda a razão.

Comecemos pelo facto de ser uma produção francesa. As comédias realizadas neste país têm vindo a surpreender o público, seja pelas suas – lá está – espirituosas histórias, ou pelos seus excelentes atores, que trazendo para o grande ecrã os dotes para a ironia e sarcasmo do seu povo, tornam os filmes franceses incríveis experiências de gargalhadas sem parar.

Depois, há que salientar que este é um filme baseado numa produção italiana, “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte” (Perfetti Sconosciuti, 2016), outro país de onde nos chegam, também, obras-primas da comédia – do estilo que põe o dedo na ferida, desconfortável.

Assim, temos os ingredientes que tornaram “Nada a Esconder” num melodrama cómico que importa ver, onde acabamos a olhar para dentro de nós e confessar os nossos próprios pecados, engolindo em seco – como apenas um bom filme é capaz de fazer.

A história é muito simples: um grupo de amigos, com laços que recuam até à escola primária, junta-se mais uma vez na casa de Vincent (Stéphane De Groodt), o cozinheiro e anfitrião do costume. Estamos perante casais nos seus trinta ou quarenta anos, com décadas de relacionamento, mágoas e segredos. A tensão é visível em cada um dos pares – menos entre os joviais Thomas (Vincent Elbaz) e Léa (Doria Tilier), que acabaram de casar. Mas quando chegam a casa de Vincent, todos brincam e riem juntos, como se nada se passasse. Até que Marie (Bérénice Bejo), psicoterapeuta de profissão, lança o tema dos telemóveis como “as novas caixas negras dos casais” e convida os amigos a fazer um jogo: naquela noite, todos irão pousar os seus telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para cima e o som ativo, para que, sempre que um dos aparelhos tocar, todos possam ler as mensagens, ouvir os telefonemas e ver as fotos recebidas, confirmando se há, ou não, segredos entre os casais e amigos. E o resultado, que já se adivinhava desastroso, revela-se surpreendente. Especialmente, porque à medida que o jogo avança, e os segredos são postos a nu, aqueles que mais apontam o dedo acabam por ser obrigados a admitir a sua hipocrisia.

“Nada a Esconder” mostra-nos que, quando a narrativa é competente e envolvente, o cenário de 1h33 minutos de filme pode ser sempre o de uma pequena sala, sem mais nada. A força dos diálogos do filme prende-nos irremediavelmente, até ao seu intenso desenlace. Por uma noite, e durante um jogo, descobrimos, entre vícios, falhas e pudores, homens e mulheres que se revelam em toda a sua profunda imperfeição, e, como qualquer ser humano, erram e voltam a errar, porque amam e desejam ser amadas – não é o que queremos todos?

Um verdadeiro retrato da sociedade moderna, onde, com tantas formas de comunicar com quem não está, perdemos o contacto com quem está mesmo ao nosso lado.

 

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