Monthly Archives: Janeiro 2019

Às Cegas

“Na vida, há os cretinos, e os mortos” – de que lado queremos estar?

 

Título original: Bird Box (EUA, 2018)
Realizador: Susanne Bier
Argumento: Eric Heisserer, Josh Malerman
Protagonistas: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich

Não podia deixar de começar esta crítica sem a deixa mais forte do filme – e que só podia ter sido proferida pela personagem de John Malkovich, o eterno “cretino” dos filmes de Hollywood. A verdade é que, ao longo de anos de filmes de terror norte-americanos, já percebemos que os bons da fita são sempre tramados pelos outros – mas não conseguimos deixar de torcer por eles.

Sandra Bullock, a protagonista de “Bird Box” (mais uma grande produção da Netflix), não é a típica heroína destes filmes. Aqui, a estrela de “Gravity” interpreta Malorie, uma mulher fria e distante, tão focada na sua arte que passa os dias fechada em casa, a pintar quadros (que nunca acaba), e cujo único contacto com o mundo é Jessica (Sarah Paulson), a irmã, que, apesar da falta de afetos da outra, continua a visitá-la e a encher-lhe o frigorífico (e a lembrar-lhe de telefonar à mãe). A passar pelo fim de uma relação, e com uma gravidez indesejada, Malorie prefere fugir do mundo a enfrentar os seus problemas – portanto, nada o estereótipo de heroína.

Mas quando, de súbito, uma inexplicável vaga de suicídios chega aos Estados Unidos (depois de ter começado na Europa e na Ásia), Malorie não tem escolha senão agir. Refugia-se em casa de desconhecidos, quando se começa a perceber que o mundo foi invadido por “criaturas” misteriosas, que levam a pensamentos e atos psicóticos a quem as observa. Tapam-se todas as janelas e recolhem-se os sobreviventes em casa – até não haver mais mantimentos.

E é aqui que regressamos à deixa com que comecei a crítica. John Malkovich é Douglas, um advogado cínico e sem escrúpulos, que se dedica a processar os vizinhos por tudo e por nada, e que prefere salvar-se a si mesmo antes de salvar os outros. Tal como a personagem principal deste filme, pensamos nós. Mas, e tentando evitar os spoilers, a ameaça que paira nos céus é afinal o impulso de que Malorie precisava para sair da sua clausura emocional auto-imposta e começar a ligar-se aos outros. É nesta altura que percebemos que, mais do que um filme de terror e sci-fi, “Bird Box” é também um poderoso ensaio sobre o comportamento humano, que só uma situação-limite pode testar – e muitas vezes levar à mais necessária e imperativa transformação de si mesmo.

Talvez para compreender a mudança de Malorie, Susanne Bier, realizadora de filmes como “Serena” (2014) ou “Tudo o que perdemos” (2007), tenha optado por uma lógica narrativa não-linear, contando esta história através de analepses e prolepses constantes, de modo a que possamos comparar o passado e o futuro destas personagens. Embora às vezes possa ser confuso, é quase sempre uma forma eficaz de colocar em prática a velha máxima “Show, don’t tell”, já que, como vamos tendo vislumbres dos próximos passos das personagens, as nossas perguntas são respondidas praticamente no momento em que as colocamos.

Por isso, e pela brilhante construção das personagens no filme (sendo Malorie o exemplo mais expressivo), “Bird Box” não deve escapar dos radares dos Óscares este ano, provando mais uma vez que a Netflix está decidida a mudar o paradigma do cinema, pois os grandes filmes também já estreiam no sofá lá de casa.

Aquaman

O mundo necessita de um herói, outra vez… Who you gonna call? Fish-boy!

 

Título original: Aquaman (USA – 2018)
Realizador: James Wan
Argumento: David Leslie Johnson-McGoldrick, Will Beall
Actores: Jason Mamoa, Amber Heard, Willem Dafoe

De criança queria ser muitas coisas e cada vez que jogávamos ao “o que queres ser quando fores grande”, as respostas eram várias: bailarina, Indiana Jones, bibliotecária, Macgyver, Lois Lane ou correr ao lado de Mitch Buchannon em câmara lenta. Mas quando o jogo era “se pudesses escolher um super poder” já a resposta era constante: respirar debaixo d’água e poder falar com os peixinhos, como a Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen ou a Pequena Sereia do autor curiosamente de apelido parecido, Hans Christian Andersen, mas a versão menos dramática da Disney, claro. Foi então com entusiasmo que abracei os primeiros trailers deste herói subaquático. Porém o filme, propriamente dito, deixou um pouco a desejar.

Depois dos acontecimentos do filme de 2017, Justice League, volta Arthur Curry (Jason Momoa) à sua vida de comum mortal by day e herói dos mares by night. Temos um vislumbre da história dos seus pais, o simples faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison) e a rainha Atlanna (Nicole Kidman) e uma curta backstory de como veio a descobrir os seus poderes em criança.

O vilão toma forma no seu meio-irmão, o King Orm (Patrick Wilson) que planeja comandar um exército dos sete mares contra o mundo da superfície. O Reino da Atlântida está cansado de como tratam os oceanos e o astuto rei decide usar isso a seu favor, com o verdadeiro intuito de se tornar Ocean Master.

A injeção de um mau-da-fita secundário, o Black Manta (Yahya Abdul-Mateen II), considero como um bónus para os fãs da DC, já que a fatiota é 100% fiel aos comics, mas irrelevante para a trama. Os seus atos parecem mais próprios de um spin off do Aquaman e se calhar merecia um filme à parte. O pirata desaparece da história tão confusamente como entrou.

O filme está recheado de pontas soltas e uns quantos plot-holes que são difíceis de ignorar. As personagens principais são tão fantasiosas e praticamente invencíveis que não nos estimulam a parte emocional do cérebro. Nem com dinossauros do mundo cinematográfico como William Dafoe ou mesmo Nicole Kidman. Perde a atriz o seu encanto original com tanta caracterização e se havia alguma dúvida antes… Nicole Kidman não combina com filmes de ação. Jason Momoa, com o seu charme de brutamontes que resolve tudo à pancada, abraça o cliché de herói viril  e proporciona-nos um bom ratio de momentos shirtless e man-buns. É contrastado pela feminilidade graciosa da sua companheira e princesa estilo Disney, Mera (Amber Heard), que neste filme nos dá uma prestação quase robótica…

O enredo fraquinho é salvo por épicas batalhas de CGI, com destaque para as belas cidades inundadas e animais marinhos formidáveis, sem esquecer a melhor versão de monstro gigante das profundezas que alguma vez vi: Karathen (a quem Julie Andrews, curiosamente, dá voz). Mas apesar de tudo fica a recomendação para quem aprecia esvaziar um bom balde de pipocas e esquecer as monotonias do seu dia-a-dia por pouco mais de duas horas.