Quantas vezes terá Emily Blunt visto a “Mary Poppins” de Julie Andrews, para conseguir tão fantástica mimese?

 

Título original: Mary Poppins Returns (EUA – 2018)
Realizador: Rob Marshall
Argumento: David Magee, Rob Marshall, John DeLuca, P.L. Travers
Protagonistas: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw

Quando a Disney anunciou um novo filme de Mary Poppins, percebemos que não seria um remake nem uma reinterpretação de um dos seus mais bem sucedidos e premiados clássicos, mas sim a continuação das aventuras da ama que voa pelos céus de Londres com a ajuda de um guarda-chuva que fala. A escolhida para interpretar uma das mais inesquecíveis personagens do cinema foi Emily Blunt, uma das mais versáteis atrizes dos nossos tempos: tão depressa está a protagonizar filmes de terror (“Um Lugar Silencioso”, 2018), ou dramas, como “A Rapariga no Comboio” (2016), como a contracenar com Tom Cruise em filmes super exigentes fisicamente (“No Limite do Amanhã”, 2014). E como se não fosse suficiente, tem ainda talento para a comédia, como pudemos comprovar em “Espera Aí… Que Já Casamos” (2012), onde contracenou com o impagável Jason Segel.

E Emily Blunt não podia ter correspondido melhor às expectativas: como o que se pretendia era uma sequela das aventuras de Mary Poppins, a atriz britânica foi buscar todos os maneirismos e sorrisos misteriosos da personagem que nos apaixonou no filme de 1964, e tornou a sua Mary Poppins numa magnífica homenagem a Julie Andrews. O resultado é um filme carregado de nostalgia e bons momentos, especialmente para quem ainda canta “Supercalifragilisticexpialidocious” quando não tem nada para dizer.

Mas desengane-se quem pensar que o papel de Emily é apenas imitar o trabalho da diva Julie Andrews: a atriz britânica consegue deixar o seu cunho pessoal na personagem. Talvez porque a história se passe muitos anos depois do original, a Mary Poppins de Emily Blunt parece agora menos ingénua, e muito mais segura de si e dos seus mil e um talentos. Há, também, no olhar da Mary Poppins de Emily Blunt, uma confiança e magnetismo que não encontrávamos – ou pelo menos, não na mesma medida –, na bondosa e simples Mary Poppins de Julie Andrews.

Além da fantástica prestação de Emily Blunt, “O Regresso de Mary Poppins” merece a nossa visita ao cinema pela incrível experiência que nos oferece enquanto musical. É sem dúvida um “feel good movie” (como o original), onde ninguém resiste ao encantamento dos mundos mágicos de Mary Poppins, assim como às suas coreografias e músicas – que ficam no ouvido durante horas e horas depois do fim do filme.  Com realização de Rob Marshall, talentoso realizador de filmes do género – como o premiado “Chicago” (2002) ou “Nove” (2009) –, enquanto musical “O Regresso de Mary Poppins” é um espetáculo imperdível, especialmente para amantes deste estilo. O facto de terem ido buscar uma das mais incríveis descobertas da Broadway, Lin-Manuel Miranda (protagonista da tão falada peça “Hamilton”), terá certamente ajudado.

Lin-Manuel Miranda é Jack, um acendedor de candeeiros de rua, que vem preencher o papel de companheiro de aventuras de Mary Poppins – que no primeiro filme era Bert (Dick Van Dyke). Tal como a personagem do filme original, Jack vem para dançar e cantar com Mary Poppins, o que não podia sair de forma mais natural para um ator da Broadway. Contudo, sentimos falta dos gag moments e caretas que celebrizaram Dick Van Dyke como Bert, que faziam rir miúdos e graúdos. Lin-Manuel Miranda é um “animal” de palco e a sua prestação é ótima, mas não tão cómica como nos habituámos que fosse o parceiro de loucuras de Mary Poppins. Por outro lado, muitas vezes o talento de Lin-Manuel Miranda parece ofuscar Emily Blunt, sendo-lhe concedido até mais tempo de protagonismo do que seria esperado de uma personagem secundária. De facto, após várias músicas e danças interpretadas por Jack, sentimos vontade de espreitar o bilhete de cinema para confirmar se o título do filme não será “O Regresso de Mary Poppins e a estreia de Lin-Manuel Miranda num musical da Disney”. Mas tudo bem.

Com uma narrativa escorreita e divertida, este filme é mais um projeto sucedido para a gigante criada por Walt Disney. Uma forma de recuperar a magia dos clássicos, oferecendo aos mais pequenos a sua primeira aventura pelos mundos de Mary Poppins, e aos mais velhos, uma imensa nostalgia dos tempos de infância. O desafio, depois de ver “O Regresso de Mary Poppins”, é resistir a rever “Mary Poppins” logo de seguida. Posso confessar que não consegui (e diverti-me como da primeira vez, com as aventuras de Julie Andrews e Dick Van Dyke).

 

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