Uma celebração da música num filme mediano.

 

Título Original: Bohemian Rhapsody (UK, EUA – 2018)
Realizador: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten
Protagonistas: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee

Nomeações: 5 (Melhor Filme, Melhor Ator Principal, Melhor Montagem, Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura de Som)

Eu adoro Queen. São as raras as músicas do icónico grupo britânico que não me lançam numa espiral de puro entusiasmo musical, como se toda a minha vida – naquele momento em que as ouço – se tornasse um espetáculo privado de karaoke. “Bohemian Rhapsody” percebe, como poucos, o poder das canções dos Queen. Pena que se tenha esquecido de contar uma história ao seu nível.

Vamos começar por falar no que resulta – e o que resulta, resulta incrivelmente bem. Primeiro que tudo, a música. Não só os êxitos de Queen continuam tão contagiosos como sempre, como o filme sabe como filmar não só as suas interpretações como a própria construção das canções. Adicionalmente, o filme inclui uma performance no Live Aid, em 1985, que é absolutamente brilhante na sua execução. Sentimo-nos como se tivéssemos sido transportados numa cápsula do tempo e colocados no centro da emoção de um concerto deles. Brian May esteve profundamente envolvido na construção deste filme e momentos como a montagem em que somos transportados para o modo como uma canção como Bohemian Rhapsody foi construída em estúdio tornam essa presença muito notória. Para grande proveito do filme.

As interpretações também resultam bastante bem. Gwilym Lee parece um clone de Brian May e todas as interações entre os elementos da banda caminham uma linha de estranheza e camaradagem que parece sempre resultar. E, claro, Rami Malek tem uma performance titânica como o incomparável Freddie Mercury. Simultaneamente tresloucado e sensível, é impossível não ver o inimitável vocalista em cada um dos seus trejeitos e movimentos. É um dos favoritos ao Óscar e não é difícil compreender porquê.

Em suma, este filme cumpre tudo o que tem a cumprir como celebração do legado dos Queen. Mais até. Há verdadeira arte no modo como esses momentos são concebidos. Mas isto não é um vídeo musical. É um filme. E, se olharmos para além da música, não há muito mais a encontrar. E o que encontramos é um pouco banal. Rami Malek vai carregando alguns desses momentos, mas mesmo a sua performance não chega. Em vários momentos ao longo do filme dei por mim a pensar “quando é que voltamos à música?”.

Muito tem sido escrito, também, sobre os erros biográficos sobre a progressão da carreira dos Queen. Vou ser sincero: esses incomodam-me menos que a outros. Sempre fui um grande defensor de que um cineasta merece controlo sobre o modo como quer contar a sua história. Se querem realismo, vejam um documentário. Dito isso, é um pouco estranho que uma história sobre uma das mais sonantes celebridades LGBT de sempre seja tão dominada pela sua relação com uma mulher. Seria de pensar que já tínhamos passado além da ideia antiquada de que um filme precisa de uma relação homem/mulher para não afastar o grande público.

Dito isto, repito, as inconsistências históricas não são o que me incomodam mais. A banalidade das mesmas é o que quase afunda o filme. Para fãs de Queen, como eu, a intensidade dos momentos musicais retira-nos o olhar crítico e torna-nos autênticas crianças de novo, com os olhos a brilhar de entusiasmo. Mas, quando me sentei a refletir sobre o que tinha visto, apercebi-me que quase tudo o que eu gostava no filme estava diretamente relacionado com as canções dos Queen. E isto não é uma crítica a um álbum.

 

separador_trailer

Facebook Comments