Num mundo pragmático e materialista, quão longe iríamos por um rasgo de poesia?

 

Título original: The Kindergarten Teacher (EUA – 2018)
Realizador: Sara Colangelo
Argumento: Sara Colangelo, baseado no filme de Nadav Lapid
Actores: Maggie Gyllenhaal, Gael García Bernal, Parker Sevak

Os americanos são carinhosamente conhecidos por ter a mania de americanizar tudo, especialmente os filmes. São inúmeros os remakes que pecam por não trazer nada de novo à história original… Porém, este não é o caso com “A Educadora de Infância”.

A história é essencialmente a mesma que o filme original: Haganenet”, pelo israelita Nadav Lapid, com apenas algumas alterações pontuais e óbvias, adaptadas ao cenário de Nova Iorque. É como se de um mesmo livro se tivessem produzido duas obras de arte distintas, duas interpretações. O filme de 2014 é mais cru, mais europeu, a cinematografia é menos cliché e foca-se na câmara que acompanha as personagens como se alguém com um telemóvel as seguisse para todo o lado. É mais abstrato: ouvem-se os ecos das salas vazias, os silêncios e os passos no chão de pedra. Com esta nova versão, o ambiente é mais suave, menos parado. É a música que convida às emoções, os planos são mais abertos e a história flui melhor.

Lisa (Maggie Gyllenhaal) é uma educadora de infância comum que quer ser poetisa. Porém falha. Nas suas olheiras, tão profundas quanto a sua frustração, lê-se uma tristeza inerente de não conseguir alcançar o que considera um mundo ideal. Um mundo em que as pessoas procuram o belo, têm curiosidade, apreciam arte e idolatram poetas. É então que descobre que um dos seus alunos tem um talento nato. Jimmy (Parker Sevak), apesar de ainda nem saber ler, cria poesia e declama como se possuísse uma alma ancestral e entendesse sobre coisas mais avançadas do que a sua tenra idade. Nasce aqui uma obsessão que é acentuada pelo facto de Lisa observar que os que rodeiam a criança-prodígio não reparam ou não querem saber do seu dom: um pai demasiado ocupado, uma mãe ausente e uma babysitter negligente. Considera-o como um novo Mozart e quer (precisa!) de ajudá-lo a explorar todo o seu potencial.

A prestação de Maggie Gyllenhaal é sublime. A atriz consegue representar na perfeição esta mulher que aspira por ser especial, por ser mais do que uma simples educadora de infância. Uma mulher de olhos tristes, fala doce e bem articulada. Uma mulher desiludida e já vazia por dentro que vê no pequeno Jimmy a esperança de um mundo em que a Arte é rainha.

É um filme complexo, que nos deixa ansiosos. Há um perigo eminente que nos inquieta, que nos faz temer pela criança. Perguntamo-nos ansiosamente até onde pode ir a doce (mas cada vez mais irracional) educadora de infância para proteger o dom do diminuto e frágil menino.

 

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