Um filme com uma mensagem simples… mas necessária.

 

Título Português: Green Book – Um Guia Para a Vida (EUA – 2018)
Realizador: Peter Farrelly
Argumento: Nick Vallelonga, Brian Currie, Peter Farrelly
Protagonistas: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini

Nomeações: 5 (Melhor Filme, Melhor Ator Principal, Melhor Ator Secundário, Melhor Argumento Original, Melhor Montagem)

Um talentoso pianista negro contrata um motorista e guarda-costas branco para o proteger durante uma tournée no Sul dos EUA nos anos 60, numa altura em que a segregação direta não era apenas uma má memória do passado. Desconfiam, ao princípio, um do outro, mas, através de experiências partilhadas – tanto boas como más – desenvolvem uma profunda amizade. Se esta descrição dá a impressão que este é um filme recheado de clichés, bem… não estamos assim tão longe da verdade. Mas quando a execução é deste nível, é difícil não gostar do filme na mesma.

Peter Farrelly, mais conhecido por comédias tresloucadas como “Doidos à Solta”, “O Rei do Bowling” ou “Doidos por Mary”, mostra aqui uma contenção muito mais respeitosa, retirando clara inspiração do cinema clássico de Hollywood. “Green Book” não tem grandes avarias ou inovações estéticas mas, francamente, é melhor assim. O que perdemos em criatividade ganhamos em ligação emocional com as personagens.

Este filme, baseado numa história real, está construído à volta das performances dos seus protagonistas – e quando estes são interpretados por talentos como Viggo Mortensen e Mahershala Ali, não há bem como falhar. Mortensen é Tony Vallelonga, um homem nova-iorquino que trabalha maioritariamente como guarda-costas em clubes noturnos e é conhecido por não hesitar em usar violência para resolver qualquer problema que lhe surja pela frente. É um pouco racista, principalmente devido, o filme sugere, a influências familiares. No entanto, está também em severos apuros financeiros.

É aqui que entra em cena Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista de grande sucesso em Nova Iorque que decide, apesar dos perigos envolvidos, fazer uma digressão em estados no sul norte-americano, onde o racismo é mais ostensivo e prevalente. O conflito entre Don e Tony é motivado por questões raciais, sim, mas também por grandes diferenças de conduta e modo de estar na vida. Shirley é muito mais bem-formado e delicado mas, também, elitista e distante. Já Tony é mais caloroso e aberto, mas também rude e inconveniente. O modo como ambos vão atacando as suas diferenças e quebrando barreiras pessoais é o grande motor da narrativa e, em virtude do talento de Ali e Mortensen, nunca se torna repetitivo.

Depois do filme sair, saíram algumas críticas, muitas vindas da família de Shirley, sobre alguns erros históricos que o filme comete mas, vou ser sincero, isso incomoda-me muito pouco ou nada. Sei que este é um ponto em que eu insisto sempre que vejo um “biopic”, mas tem de ser dito: isto não é um documentário. Pedir precisão biográfica constante a um realizador faz tanto sentido como criticar um pintor por pintar árvores de forma pouco realista. Um filme é um filme e o realizador tem direito a contar a sua história do modo que bem lhe apetecer. Já chega desta conversa.

Em última instância, consigo compreender críticas a quem diga que Farrelly simplificou demais esta história e que o filme pode passar a ideia que “road trips” são a cura para o racismo. E, sim, há alguma verdade nisto, mas não consegui deixar de ser seduzido pela história. Gostei do ritmo do filme, do contexto história, da interação de personagens. Gostei das duas horas que passei na companhia destes dois amigos tão diferentes. E gostei, acima de tudo, da mensagem positiva que o filme passa. Talvez em tempos eu fosse mais cínico em relação a este tipo de “filmes com mensagem”, mas, nos tempos que correm, toda a ajuda é bem-vinda.

 

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