Duas formas diferentes de abordar emoções universais.

 

If Beale Street Could Talk

Título Português: Se Esta Rua Falasse (EUA – 2018)
Realizador: Barry Jenkins
Argumento: Barry Jenkins
Protagonistas: KiKi Layne, Stephan James, Regina King

Nomeações: 3 (Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora)

A intoxicante banda sonora de Nicholas Britell toca em pano de fundo. Dois amantes olham profundamente nos olhos um do outro. Em momentos de desespero. Em momentos de felicidade. Sempre em momentos de amor. Mais do que recordar a narrativa ou a perícia técnica de todos os envolvidos em cenas específicas, “If Beale Street Could Talk” marcou-me com sensações. Tal como já o tinha feito em “Moonlight”, Barry Jenkins cria aqui uma obra de grande delicadeza, em que o foco está mais nas emoções que nas ações. A história não é especialmente complicada: Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James) são amigos de infância que desenvolvem um profundo amor e iniciam uma relação, antes de tudo começar a correr mal. Primeiro, Fonny é acusado (erradamente) de violação – provavelmente fruto da perseguição de um polícia racista. Depois, Tish descobre que está grávida e tem de lidar com a possibilidade de ter criar o filho sozinha. À volta desta trama, circula um eclético rol de personagens, que vão entrando e saindo das vidas dos protagonistas. Nesta galeria, destaca-se a performance titânica de Regina King como Sharon, a mãe de Tish, principalmente numa visita desesperada a Porto Rico para tentar limpar o nome do namorado da filha. Na sua ainda jovem carreira, Barry Jenkins mostra uma capacidade incrível para contar histórias com grande subtileza. Mais do que vermos dispositivos narrativos em ação, o que temos em “If Beale Street Could Talk” é, simplesmente, vida a acontecer. Nas mãos de Jenkins, essa vida evita escolhas fáceis entre drama e comédia e assume-se como simples poesia.

 

Classificação: ⭐⭐⭐⭐ 1/2 (4,5 Estrelas)

 

Cold War

Título Português: Cold War – Guerra Fria (POL, FRA, UK – 2018)
Realizador: Pawel Pawlikowski
Argumento: Pawel Pawlikowski, Janusz Glowacki
Protagonistas: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc

Nomeações: 3 (Melhor Realizador, Melhor Fotografia, Melhor Filme Estrangeiro)

Esta é uma história de amor. Digo-o assim, desta forma tão taxativa e simples, não para poupar caracteres na minha crítica mas antes para realçar que é só isso que o filme é. Isso, e absolutamente mais nada. E que história de amor esta é… Pawel Pawlikowski, que já tinha conquistado o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro com “Ida”, em 2015, volta a estar na mira da Academia com este conto de uma relação entre dois artistas musicais cujo amor está constantemente a ser posto à prova – seja por más decisões pessoais ou, simplesmente, pelos constrangimentos sociopolíticos da vida da Polónia nos tempos da “Cortina de Ferro”. Uma das coisas mais interessantes em “Cold War” é que, ao mesmo tempo que é um filme contemplativo e sem grandes momentos de diálogo, tem pouco mais que 80 minutos de duração, fruto de fazer grandes saltos temporais na narrativa, concentrando-se quase exclusivamente nos momentos de interação entre os dois protagonistas – duas performances excelentes de Tomasz Kot e, acima de tudo, Joanna Kulig, que brilha em cena com o carisma natural de uma estrela “à antiga”. O filme inclui alguns momentos que não pintam o regime comunista da Polónia nos anos 50 e 60 na melhor das cores, mas não me parece que Pawlikowski tenha tido aqui grande intenção de fazer um comentário político. Os constrangimentos à arte das máquinas de propaganda do regime são apenas uma fenda na relação entre o casal que a história segue. Uma ferramenta narrativa, quase, ao serviço do enquadramento desta bonita, ainda que trágica, história de amor. Por fim, não podia deixar de mencionar a impossivelmente bela fotografia a preto e branco de Lukasz Zal, que já tinha surpreendido com a nomeação com “Ida” e volta aqui a repetir a façanha. Desde os atores à música, passando pela pura estética da imagem, cada segundo deste filme é simplesmente bonito. Uma pequena, mas intensa, pérola.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐ 1/2 (4,5 Estrelas)

 

 

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