Performances ecléticas de atores geniais.

 

The Wife

Título Português: A Mulher (SWE, UK, EUA – 2018)
Realizador: Björn Runge
Argumento: Jane Anderson
Protagonistas: Glenn Close, Jonathan Pryce, Max Irons

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

O aclamado escritor Joseph Castleman (Jonathan Pryce) recebe a notícia de que vai ser condecorado com o Prémio Nobel da Literatura e celebra a notícia com a mulher, Joan (Glenn Close), que o acompanha à Suécia para o grande momento de celebração. Mas algo está errado. Joan faz tudo o que uma mulher devota “deve” fazer nesta situação, mas não parece estar especialmente feliz nessa missão. “The Wife” é a história de todas as razões para esse ser o caso. O sueco Björn Runge assina aqui um filme sóbrio e ponderado, com um brilho quase gélido na superfície, que esconde (propositadamente mal) a emoção escaldante que ameaça a borbulhar a cada momento. É uma obra bem executada, de um modo geral, e mereceria elogios só pelo facto de contar bem uma história (relativamente) simples mas recheada de humanidade. Mas o que o faz transcender o patamar do “bom” é mesmo a performance titânica de Glenn Close. É um trabalho de absoluta perfeição, no modo como combina o carisma natural de uma mulher que sabe que existe num nível superior à maioria dos que a rodeiam e a mal contida dor que lhe atravessa o olhar sempre que se obriga a ser apenas “a mulher”. Close alcança aqui um feito ao alcance de poucos, conseguindo construir um retrato muito pessoal de uma mulher numa situação pessoal e profissional muito delicada e, simultaneamente – e sem nunca o fazer de forma banal ou didática –, mostrar o quão difícil ainda é, para uma mulher, ser respeitada pelos seus próprios feitos, fora do contexto das suas relações. Nomeada em sete ocasiões, Glenn Close nunca conquistou um Óscar. Já está na altura de colmatar essa falha.

 

Classificação: ⭐⭐⭐⭐ 1/2 (4,5 Estrelas)

 

At Eternity’s Gate

Título Português: À Porta da Eternidade (FRA, IRE, SWI, UK, EUA – 2018)
Realizador: Julian Schnabel
Argumento: Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel, Louise Kugelberg
Protagonistas: Willem Dafoe, Rupert Friend, Oscar Isaac

Nomeações: 1 (Melhor Ator Principal)

Willem Dafoe é um ator incrível, com uma das caras mais expressivas da História do Cinema. Vê-lo a trabalhar, seja em projetos mais sóbrios como em trabalhos mais criativos, nunca deixa de me impressionar. O modo como Dafoe se entrega a esta encarnação do icónico pintor Vincent Van Gogh é, sem exageros, um dos maiores triunfos da sua carreira. Pena que seja rodeado por um filme que fica um pouco aquém do seu potencial. “At Eternity’s Gate”, de Julian Schnabel, acompanha os últimos dias da vida do pintor, focando-se simultaneamente na sua prolífica criação artística e no seu progressivo declínio mental. Visualmente, o filme representa muito bem estas duas dimensões, tanto a nível da escolha de cores como através do uso seletivo de planos propositadamente desfocados. São escolhas muito interessantes e criativas que resultam bastante bem, mas o problema está mais no modo como tudo é conjugado no fim. Por vezes, as tentativas de representar uma mente em declínio tornam o filme um pouco desconexo e, a espaços, problemas com o ritmo da narrativa correm o risco de tornar o filme aborrecido. A fabulosa interpretação de Willem Dafoe e o rasgo visual no uso das cores tornam “At Eternity’s Gate” um filme a ver, mas não consigo deixar de pensar no quão melhor podia ainda ter sido.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐ (4,0 Estrelas)

 

 

Can You Ever Forgive Me?

Título Português: Can You Ever Forgive Me? (EUA – 2018)
Realizador: Marielle Heller
Argumento: Nicole Holofcener, Jeff Whitty
Protagonistas: Mellissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells

Nomeações: 3 (Melhor Atriz Principal, Melhor Ator Secundário, Melhor Argumento Adaptado)

A história que deu origem a “Can You Ever Forgive Me?” é absolutamente incrível, ditando que só o ato de a contar já dava imensos pontos a favor deste filme. Para os que não estejam a par, este é um relato do declínio da jornalista e autora Lee Israel, que conquistou fama, nos anos 70 e 80, pelas suas biografias de mulheres importantes no mundo das artes. Quando a sua popularidade começou a decair, Israel, desesperada, começou a forjar correspondência entre ela e certas celebridades, vendendo as cartas falsas a coleccionadores. Melissa McCarthy tem uma performance belíssima como Israel, removendo todos os filtros e não tendo medo de mostrar a personalidade abrasiva e autodestrutiva da autora, incapaz de filtrar o que pensa e de “jogar o jogo” sequer um bocadinho. O filme acompanha também a relação entre Israel e Jack Hock (o também excelente Richard E. Grant), um bon-vivant inglês que fazia dinheiro a vender drogas e se torna um colaborador da autora nos seus… empreendimentos ilegais. O argumento de Nicole Holofcener e Jeff Whitty oferece a Marielle Heller uma tela perfeita para contar esta história, mas o grande triunfo do filme é, acima de tudo, ter a inteligência para perceber que esta é uma montra para os atores. Por fim, de elogiar também o uso de canções para pontuar as emoções díspares no filme, com destaque para a excelente “Can’t Run But”, de Paul Simon.

Classificação: ⭐⭐⭐⭐ 1/2 (4,5 Estrelas)

 

 

 

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