Um retrato alucinante de uma verdade deprimente.

 

Título Português: Vice (EUA – 2018)
Realizador: Adam McKay
Argumento: Adam McKay
Protagonistas: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell

Nomeações: 8 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Principal, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Original, Melhor Montagem, Melhor Caracterização)

É preciso ser um eremita a viver numa caverna nas montanhas para não saber quem é George W. Bush. Nem todos conhecem bem, no entanto, a figura misteriosa que o acompanhou (e, muito provavelmente, controlou) durante a sua trágica presidência. Com o excêntrico biopic “Vice”, Adam McKay procura revelar a verdade escondida por trás de uma das mais controversas figuras da política norte-americana – Dick Cheney.

A corda bamba que o filme caminha na imagem que constroem de Cheney é um dos seus pontos mais fortes. Que fique bem claro: a imagem é claramente negativa. Cheney é revelado como um homem distante, frio, capaz de esconder as suas emoções e operar os bastidores da política para atingir os seus objetivos. Um político que não hesita nem um segundo, após uma das maiores tragédias da História dos EUA, em avançar para acções que o beneficiam pessoalmente – tanto a nível emocional como na carteira.

Seria fácil simplesmente pintar Cheney como um vilão maquiavélico a dar gargalhadas no escuro enquanto retorce o bigode. Mas as pessoas reais são um pouco mais interessantes que isso. As decisões que Cheney impulsionou após os atentados de 11 de Setembro foram motivados por interesse próprio, sim, mas também por genuína (e cega) raiva pelos ataques. Adicionalmente, Cheney é retratado como um homem que não olha a meios para atingir os seus fins, mas quando a filha Mary se assume como lésbica, Cheney não só a apoia imediatamente mas recusa-se a fazer campanha contra o casamento gay – quase sempre.

Este retrato interessante e complexo é executado, de forma brilhante, por Christian Bale, que consegue não só representar estas emoções paradoxais com relativamente poucos diálogos, mas também encarna o misterioso mas icónico vice-presidente norte-americano com uma transformação física e corporal à qual já nos habituou mas que continua a ser tão inacreditável de presenciar como sempre.

Ao bom estilo dos filmes de Adam McKay, a performance central de Bale é rodeada por um elenco impecável de estrelas, com especial destaque para Amy Adams, como Lynne Cheney, e Sam Rockwell, como George W. Bush. De forma semelhante ao seu filme anterior – “The Big Short” –, McKay não resiste a contar esta história séria, sobre dúbias decisões com graves consequências, com um rasgo de irreverência no estilo narrativo. A certa altura, uma conversa noturna entre o casal Cheney é feita ao estilo de William Shakespeare. É tão inesperado e brilhante quanto parece.

Vamos ser sinceros. Este filme não é exatamente para todos. Apesar de ser uma comédia, nunca é uma farsa. Aborda os seus temas com a seriedade de quem está a retratar algo que acredita que verdadeiramente aconteceu – na medida do possível. E fá-lo com um ponto de vista. Um ponto de vista de “esquerda” – ou, pelo menos, não-Republicano. Mas é tudo menos um filme paranóico. É de notar que nunca sequer consideram as absurdas teorias da conspiração sobre o ataque de Bin Laden ter sido “encomendado” pelo governo norte-americano. É um filme que compreende que a melhor comédia nasce da verdade. Se és um conservador irracional que se recusa a aceitar o conceito de “verdade”, não há nada que este filme vá fazer por ti. Se és um simples cidadão do mundo que abraça uma multitude de perspetivas, é ver sem medo.

 

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