Escolhas ecléticas marcam as minhas preferências deste ano.

 

 

Este foi um ano de grandes constrastes na dificuldade das minhas escolhas. Por um lado, apesar de ter gostado bastante de vários filmes este ano, mais nenhum atingiu os níveis de genialidade de “Roma”, tornando essa escolha bastante fácil. No entanto, quando entrei nas outras categorias, dei por mim a perder horas de sono nestas decisões. O texto que segue em baixo é o resultado dessas insónias:

MELHOR FILME – “Roma”

Para que fique bem claro, tenho de começar por dizer que há vários excelentes filmes nesta lista de nomeados, muitos dos quais podiam ganhar o grande prémio dos Óscares sem me tirar o sono. Dito isso, esta foi provavelmente uma das minhas escolhas mais fáceis. “Roma”  não é apenas bastante bom – é uma obra-prima. Alfonso Cuarón retira inspiração da própria infância para contar uma das invulgares e belas histórias de amor – a de uma família mexicana branca de classe média nos anos 70 e a sua empregada indígena. O desnível social entre a família e a empregada, Cleo, parece paradoxal como base de uma relação de amor mas é exatamente nesse contraste que reside o pequeno milagre deste filme. Num equilíbrio subtil entre comédia e tragédia, reflexão e melodrama, Cuarón assina uma pérola que encontra a mais pura beleza nos problemas do dia-a-dia.

MELHOR REALIZADOR – Alfonso Cuarón, “Roma”

Temos aqui um grupo agradavelmente eclético de realizadores, desde Pawel Pawlikowski a Yorgos Lanthimos, passando pela loucura controlada de Adam McKay. E confesso que nada me deixaria mais feliz que ver Spike Lee a conquistar a estatueta, depois de, bizarramente, ter demorado tantos anos a sequer ser nomeado. Mas, mais uma vez, não vejo como não dar este prémio a Alfonso Cuarón. Mais do que apenas merecer ganhar este prémio por ser o homem responsável pelo melhor filme do ano, Cuarón coloca todo o talento que tem em cada frame de “Roma”. Para além de ser uma simples mas bela história muito bem contada, o filme é também impecavelmente bem filmado, com movimentos de câmara sempre perfeitos para cada cena – e até o uso de preto e branco (e consequente contraste de sombras) resulta para recriar o ambiente da história. É perfeito.

MELHOR ATOR PRINCIPAL – Bradley Cooper, “A Star Is Born”

De duas escolhas relativamente óbvias, passamos para a minha decisão mais difícil em todo este texto. Qualquer dos nomeados podia vencer este prémio sem envergonhar ninguém. É um conjunto impressionante de performances. Quando me decidi a fazer este “ranking”, dei por mim, no entanto, a focar-me em dois atores – Bradley Cooper e Christian Bale. Ambos desaparecem nos seus papéis ao ponto de deixarmos de ver os atores e concentrarmo-nos completamente nas suas personagens – no caso de Bale temos uma camada extra de transformação física. Ambos caminham uma linha interessante entre momentos de representação muito “visíveis” e decisões mais subtis, que abrem uma janela para o conflito interno pelo qual ambos estão a passar. A ter de escolher, a combinação de arte e carisma na performance de Cooper coloca-o (marginalmente) no topo.

MELHOR ATRIZ PRINCIPAL – Glenn Close, “The Wife”

Outra decisão que acabou, na minha cabeça, por se tornar uma decisão a duas. Neste caso, duas performances que não podiam ser mais radicalmente diferentes. Ponderei escolher a loucura patética da rainha Anne de Olivia Colman, um trabalho que vive nas mais altas instâncias da intensidade dramática, sem nunca esquecer as subtilezas que revelam as emoções genuínas por trás de toda a teatralidade. Acabei por escolher, no entanto, a presença magnética de Glenn Close em “The Wife”, um trabalho quase por completo em quase impercetíveis mudanças numa face há muito treinada em estoicismo. O gelo que corre nas veias da personagem encarnada por Close transparece em quase todas as suas ações ao longo do filme, dando ainda mais impacto aos raros momentos em que o verniz estala. É incrível. Vamos lá dar o Óscar a Glenn Close, de uma vez por todas.

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO – Sam Elliott, “A Star Is Born”

Gostei muito do que Adam Driver fez em “BlacKkKlansman”, trazendo profundidade a uma personagem que, na grande maioria do tempo, está inserida num filme que mais parece uma farsa – não obstante ser inspirado por eventos reais. Já Mahershala Ali está irrepreensível noutra história real – “Green Book” –, encarnando o genial pianista Don Shirley com doses generosas de dignidade e tristeza. Qualquer um seria uma boa escolha. Mas confesso que fiquei mais marcado pela força dramática dos breves momentos em que Sam Elliott aparece em “A Star Is Born”. Elliott é titânico no seu desempenho como o irmão do protagonista Jackson Maine, um homem marcado por uma vida de constantes mágoas mas que, fruto da herança cultural de masculinidade na qual foi criado, sente que nunca o deve o mostrar. Sam Elliott entra em poucas cenas, mas são todas inesquecíveis.

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA – Emma Stone, “The Favourite”

Todas as atrizes nesta categoria são não só incrivelmente talentosas mas capazes de protagonizar um filme. São mulheres dotadas de uma presença em cena que nos atrai sempre o olhar. Duas performances este ano, no entanto, saltam à vista como as mais memoráveis – curiosamente, vêm ambas do mesmo filme. Um dos elementos que faz a bizarria de “The Favourite” resultar tão bem é a complexa relação entre as primas rivais Abigail e Sarah, interpretadas, respetivamente, por Emma Stone e Rachel Weisz. Weisz é imperial no seu papel como a fria Sarah, uma mulher de grande força interior e exterior, habituada a impor a sua vontade , num universo dominado pela força masculina. Mas o meu “voto” vai para Emma Stone, que usa a sua natural máscara de doce inocência para dar vida a uma deliciosamente manipuladora performance como a imprevisível Abigail.

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO – Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, Spike Lee, “BlacKkKlansman”

Numa colecção de textos incrivelmente diferente, que oscila entre comédia hilariante e momentos dramáticos que nos partem o coração, não consigo deixar de mostrar a minha preferência pelo argumento de Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot e, claro, Spike Lee. Não sendo necessariamente o melhor argumento que Lee já assinou (“Do The Right Thing” ainda tem o lugar no topo), não deixa de ser adequado que venha a ser aquele com que finalmente ganha o Óscar. “BlacKkKlansman” combina a irreverência provocatória do realizador no seu início de carreira com uma maior estrutura narrativa e uma progressão de acontecimentos mais “tradicional”, fruto da sua larga experiência nos meandros de Hollywood. Só Spike Lee conseguiria pegar em algo como o Ku Klux Klan e torná-lo o motivo de várias boas gargalhadas, sem nunca minimizar o seu perigo.

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL – Deborah Davis, Tony McNamara, “The Favourite”

Quando olho para os nomeados nesta categoria, nem sei bem para onde me virar. Devo escolher a simplicidade intimista do argumento de Alfonso Cuarón para “Roma”? O tresloucado mas elegante equilíbrio entre seriedade e sátira que Adam McKay alcança em “Vice”? Depois de refletir, cheguei à conclusão que o texto que me tinha ficado mais na memória era mesmo o que Deborah Davis e Tony McNamara assinaram para “The Favourite”. Ostensivamente um “filme de época”, este argumento rapidamente mostra que está interessado em muito mais que uma simples revisitação de costumes. Através de diálogos afiados como uma navalha, Davis e McNamara constroem não apenas três personagens memoráveis mas também um mundo fascinante que, de um modo perverso, tanto combate como influencia as suas dúbias ações.

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