The power of No.

 

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Há uns tempos que andava a pensar no poder submestimado de dizer Não. Procurei até por algumas leituras na net, mas nada me parecia realmente interessante.

Numa noite, depois de muita arrumação e mudanças em casa, estava exausta e naqueles dias que só queremos mesmo ver alguma coisa na TV que nos dê sono e que seja mais fácil de mastigar que a massa com bacon que tinha cozinhado.

Sem grande motivação para o que quer que fosse optámos ainda assim por ver um episódiozinho de “After Life”, que já estava na lista há algum tempo – “deixa lá ver isto…”. No fundo, no fundo, eu sabia que vinha algo bom, porque o Ricky Gervais nunca me desiludiu e já tinha visto há pouco tempo o espectáculo dele, “Human”, e sabia que a sua tolerância à Humanidade em geral estava relativamente baixa (especialmente nas tiradas sobre o Brexit).

Claro que acabámos por ver logo 3 episódios (vê-se bem, são cerca de 30 minutos cada) e os restantes 3 no dia seguinte.

Ricky Gervais encarnaTony, um homem nos seus 40 que fica viúvo quando a sua mulher Lisa morre de cancro de mama. Uma história bastante comum nos nossos dias, portanto. Tony é um viúvo revoltado, profundamente triste e com pensamentos suícidas. Sentindo-se sozinho e entregue ao seu resto de vida miserável sem a sua Lisa, vai vendo o vídeo que esta lhe deixa como “orientação para a vida” mas sem acreditar que a felicidade que um dia sentiu seja alguma vez recuperável. Entregue ao seu destino, ele adopta uma atitude de “estou-me a foder para tudo e para todos, faço o que quiser e não aceito merdas – e quando correr mal posso sempre matar-me”.

Aqui eu escusei-me de leituras adicionais e o poder do Não foi-me mostrado pelo génio de Tony sem eu ter muito mais trabalho.

E com esta atitude acontecem as conversas mais brilhantes e delirantes e maravilhosas com todas as pessoas que o rodeiam – o pai, a enfermeira, o drogado, o cunhado, os co-workers. Cada uma daquelas pessoas consegue irritá-lo, enquanto enriquece a série e principalmente a moral da história.

Quem conhece um bocadinho de Ricky Gervais consegue encontrar a sua mão por ali facilmente, especialmente na sátira ao que considera inútil, na abordagem às religiões (também inúteis) e no seu amor pelos animais. Tudo coube ali e está colocado de forma inteligente e harmoniosa.

Ao longo da espiral de auto-destruição e comiseração, o Tony vai descobrindo a beleza dos pequenos detalhes e o seu poder de amar, mesmo contra todas as chances. E traz-nos esperança, mensagens de paz, valorização do amor Humano – honesto, sem aquela treta da lição de moral ou missas baratas. Traz a beleza da oportunidade, do momento e do “you only live once, do good”.

Adoro versão bondosa tal como adoro a versão maldosa do Ricky Gervais porque estão sempre colocadas nos sítios certos. Não me alongo muito na história das restantes personagens porque a estrela é mesmo ele, sem narcisismos ou pretensões.

2ª temporada em 2020? oh fuck me.

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