Crónica de um fã que gostou da última temporada de “Game of Thrones”.

 

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“The Shining” é uma obra-prima do cinema. Um portento de tensão e terror, contado em silêncios, cortados por momentos de raiva mal contida, com a genialidade visual do olhar cinematográfico de Stanley Kubrick. É, também, uma péssima adaptação do livro de Stephen King que lhe deu origem. Como fã número um de King – cujo primeiro livro que li do mesmo é exatamente este de que falamos – posso-vos dizer que Kubrick, ao colocar o foco na personagem de Jack Nicholson e torná-lo um vilão logo desde o início, mostrou uma quase total incompreensão da mensagem e temas do livro de Stephen King – que, justificadamente, não gosta do filme. Já eu – King me perdoe – adoro-o. Mas como uma entidade separada.

Porque gastei este longo parágrafo para dizer tudo isto? Porque, após alguns dias de reflexão, a conclusão a que chego com “Game of Thrones” é a seguinte: esta série pode não ser a melhor adaptação possível dos livros que a inspiraram, mas não deixa, apesar disso, de ser um dos maiores feitos da História da Televisão.

A sombra de George RR Martin

Antes de entrar mais a fundo naquela que será uma crónica maioritariamente positiva, tenho de começar por abordar a chuva de críticas que tem invadido as redes sociais nas últimas semanas. Algumas críticas são legítimas (o ritmo apressado da narrativa não ajudou a que algumas das decisões das personagens tivessem o impacto devido – ainda que não ao nível do que tantos têm dito), outras são um pouco bizarras (portanto a série está a ser misógina ao pintar Daenerys como uma tirana instável mas misândrica ao dar a Arya a “honra” de derrotar o Night King, em vez do Jon Snow? – decidam-se, senhores e senhoras), mas todas têm sido profundamente exageradas. Sim, compreendo que esta é uma série que desperta fortes emoções, mas quando chega ao ponto de petições para retirar a Benioff e Weiss o controlo criativo da última temporada e repeti-la nas mãos de outros, é quando entramos na “Twilight Zone”. Pouco me interessa se a petição era apenas para “passar uma mensagem” – foi ridícula e absurda.

Tem sido também dito que a série foi sempre a piorar depois de “ultrapassar” os livros de George RR Martin. A nível de diálogos, muito provavelmente. Mas a nível de escolhas narrativas, confesso que não sei se concordo. Apesar de não ter lido ainda os livros, tenho uma ideia bastante boa de como a narrativa tem progredido até agora na página e acho que são um pouco injustas as críticas que têm sido apontadas aos criadores da série. Foi Martin quem deixou Daenerys presa em Meereen sem planos de saída. Foi Martin quem lhe deu três dragões e nenhuma “solução” viável para equilibrar a balança de poderes e dar alguma incerteza dramática à conclusão da história. Se me é permitido especular, eu diria que a tentativa de desatar o nó em que a narrativa dos livros se encontra, tem motivado, em grande parte, o atraso na escrita dos mesmos. Dos excertos que já li dele, Martin é um escritor brilhante e mal posso esperar para me lançar na bela prosa dos seus textos. Mas podemos deixar de o colocar num pedestal e retirar todo e qualquer crédito aos criadores desta série que tanto adoramos? É injusto e, francamente, um pouco infantil.

O triunfo da execução

Uma coisa que acho completamente inegável é que a execução desta última temporada foi absolutamente brilhante. Visualmente (sim, até na escura batalha de “The Long Night”), estes últimos seis episódios incluíram alguns dos momentos visuais mais icónicos de toda a série de “Game of Thrones”. A cavalgada iluminada dos Dothraki, o salto vitorioso e inesperado de Arya Stark para vencer o Night King, a devastadora destruição de Daenerys e Drogon em King’s Landing. Os momentos visuais foram inúmeros e cada um mais incrível com o outro.

Também a nível do trabalho dos atores, esta temporada foi impressionante. Indo além de concordarmos ou não com as decisões das suas personagens, atrizes e atores como Emilia Clarke, Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Maisie Williams, Sophie Turner e Kit Harrington deram tudo o que tinham para carregar cada uma das suas cenas com uma intensidade dramática irrepreensível.

Conclusões e recomeços

Por fim, pasme-se, também gostei, de um modo geral, do modo como foram concluídos os arcos narrativos da grande maioria das personagens. Tyrion, depois de várias temporadas a cometer erro atrás de erro, teve o seu momento de redenção quando ofereceu a solução para o impasse político no culminar da história. A escolha de Bran para liderar Westeros, que tanto incomodou os fãs, faz todo o sentido: num momento de potencial revolução política, a sua “história” era a mais fácil de vender a uma população em desacerto. Foi uma escolha cínica? Sem dúvida. Premiou alguém que pouco fez para o merecer? Claro que sim. Mas não é por isso, necessariamente, que a torna errada. Nem sempre temos o que queremos. Pensei que essa lição já tivesse aprendida pelos fãs de “Game of Thrones”.

A peregrinação de Jon Snow rumo ao norte era a conclusão inevitável para a sua trágica viagem. A vitória política de Sansa em liberar os senhores do Norte foi muito satisfatória. O final em conjunto de Jamie e Cersei Lannister não era necessariamente o que eu queria que acontecesse, mas faz todo o sentido do mundo – por deprimente que possa ser. E adorei as possibilidades abertas para a peregrinação rumo ao desconhecido por parte da eterna aventureira Arya.

Quanto à “viragem” de Daenerys para o mal, a sério que estamos surpreendidos? A sério que acham que não é exatamente o que vai acontecer nos livros? Quanto querem apostar? Se aconteceu rapidamente? Não sei se concordo. Os indícios da sede de sangue da Khaleesi já vinham sendo anunciados há bastante tempo. Havia a possibilidade de, no momento da decisão, ela escolher o “Bem”. Era, com todas as minhas forças, o que eu queria que acontecesse. Não aconteceu. Em última instância, a emoção avassaladora da perda simultânea de Rhaegal e Missandei quebrou a sua alma e despertou a conquistadora tirânica que estava dormente no seu espírito. Daenerys Targaryen sempre balançou dentro de si a sede de poder e o desejo de libertar os inocentes. Venceu o primeiro instinto – para minha grande tristeza. Assim é a vida de um fã de “Game of Thrones”.

Rumo ao Oeste

Em resumo, gostei (ou pelo menos compreendi) da conclusão que foi dada a cada uma das grandes personagens da história. Gostei do modo como nos foi dado algum sentimento de conclusão sem, no entanto, fechar necessariamente as portas da imaginação para o que ainda estará para vir nas suas vidas. Gostei, acima de tudo, do facto de não ter ficado totalmente satisfeito com o que aconteceu. É sinal que os argumentistas tomaram decisões concretas, ao invés de simplesmente se ficarem apenas pelos caminhos seguros.

Ao fim de todos estes anos, a viagem de “Game of Thrones” terminou. Foi uma viagem inesquecível – não sei se alguma vez voltarei a encontrar outra série que me faça contar os segundos até ao próximo episódio. Foi uma experiência recheada de exultação e tristeza, satisfação e surpresa. E agora estão-me a dizer que devo ficar furioso porque o final foi um pouco apressado? A vida é, ironicamente, demasiado curta para isso. Prefiro manter os meus sonhos voltados para Oeste.

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