Charlie Brooker está de volta, com um foco apontado às relações humanas.

 

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Não existem muitas séries que me lancem tão profundamente em espirais de introspeção como “Black Mirror”. Esteja a sua mira apontada a questões sociais ou a relações interpessoais, a série de antologia de Charlie Brookerconsegue sempre esse feito prodigioso de usar a especulação da ficção científica sobre o futuro para lançar os seus espetadores numa reflexão sobre os seus comportamentos do presente. Ainda que, talvez, não de forma tão explosiva, é isso que Brookerconsegue também nesta quinta temporada de “Black Mirror”.

Talvez tenha acontecido devido aos custos de produção e tempo de realizar o episódio interativo “Bandersnatch”. Talvez Charlie Brookersimplesmente tenha desejado regressar ao formato original da série, quando começou no Reino Unido. Seja qual for a razão, esta temporada de “Black Mirror”conta com apenas três episódios. Mas, como é seu apanágio, Brookerdá-nos bastante em que pensar – mesmo nestas doses mais concentradas.

No primeiro episódio, “Striking Vipers”, Anthony Mackiee Yahya Abdul-Mateen IIsão dois amigos que, depois da universidade, perdem o contacto. Anos mais tarde, a relação é reatada quando voltam a jogar o videojogo no qual perdiam horas em jovens, agora numa versão em realidade virtual, completamente imersiva. O que começa por ser um olhar sobre as possibilidades ilimitadas da tecnologia, cedo se torna uma reflexão sobre os limites da amizade, do afeto, do amor. Sobre o que muda numa relação quando o nosso corpo… não é o nosso corpo. Foi o episódio que mexeu mais com as minhas emoções e assumiu-se como o  meu favorito desta temporada.

Já em “Smithereens”, temos uma performance titânica de Andrew Scotta ancorar um episódio consistentemente imprevisível e inevitavelmente trágico. A intensidade do sempre brilhante Scottcoloca-nos na pele de um homem inteligente mas desesperado, numa luta quixotesca contra a omnipresença das redes sociais nas nossas vidas diárias. No que ao debate tecnológico diz respeito é um episódio um pouco mais “magro”, mas o que lhe falta em futurologia é preenchido por uma dose enorme de intensidade dramática.

Por fim, temos “Rachel, Jack and Ashley Too”, o famoso “episódio com a Miley Cyrus”. Apesar de algumas das críticas que ouvi em antecipação a eu ver o episódio, a cantora está, na verdade, bastante bem no episódio, oscilando habilmente entre emoções tão simultaneamente próximas e distantes como a depressão e a raiva. Na verdade, o grande problema deste episódio é que o gancho tecnológico da trama (uma boneca na qual é implantada uma cópia digital da personalidade de uma estrela pop) tinha imenso pano para mangas e é, essencialmente, abandonado em prol de um “thriller” relativamente rotineiro. Fica a ideia que havia muito mais a dizer sobre o assunto.

Olhando para a temporada como um todo, a verdade transversal que me ocorreu quando terminei é o quão mais “positiva” foi, de um modo geral. Por norma, as histórias de “Black Mirror”cruzam um aviso quanto ao perigo de certos avanços tecnológicos com uma reflexão profunda sobre a podridão (mal)escondida da nossa sociedade e como essa mesma podridão pode ser exacerbada pela inovação científica. Nesta quinta temporada, a componente tecnológica está presente, como sempre, mas a “podridão” foi um pouco deixada de lado. A grande maioria das personagens principais são figuras que sendo, a espaços, trágicas, são bem-intencionadas. Apenas um dos episódios tem uma figura com comportamento verdadeiramente deplorável – e mesmo esse não está muito relacionado com alguma “infeção” dos vícios das novas tecnologias. É um comportamento que aconteceria mesmo que a tecnologia não existisse – só mudaria a forma.

Em conclusão, esta temporada de “Black Mirror”é boa. Talvez pareça pior do que é porque da série de Charlie Brookeresperamos que seja sempre genial. Ainda assim, há muito “sumo” para beber desta trilogia de histórias sobre amor, desamor e novos afetos. Com esta série, vale sempre a pena ir à procura desses momentos que nos fazem repensar o modo como olhamos para o mundo. Seja aquele em que vivemos ou o do futuro, que ainda estamos a construir.

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