CATARINA LOUREIRO

Tudo a Nu na Normandia

Uma comédia dramática que se despe literalmente de preconceitos.

 

Título original: Normandie nue (FRA – 2018)
Realizador: Philippe Le Guay
Argumento: Victoria Bedos, Olivier Dazat
Actores: François Cluzet, François-Xavier Demaison, Julie-Anne Roth

Mêle-sur-Sarthe é uma comuna esquecida na Normandia. Apesar de apenas a duas horas da capital francesa, é lugar que pouca gente conhece. Alí a maior parte dos seus habitantes, que não são muito mais que seis centenas, dedicam-se à pastorícia. Contemporâneos de uma sociedade que cada vez mais diminui o consumo da carne e do leite ou procuram o mais barato e conveniente. Tentam a todo o custo sobreviver com o ofício herdado dos seus antepassados.

Assim começa esta pitoresca comédia dramática francesa, realizada entre os prados verdejantes a perder de vista com as suas vacas que pastam em silêncio envolvidas pela neblina matinal. O novo mundo ameaça o velho e esta comunidade sente-se traída. É terra de gente dura de roer, que não tem medo ao trabalho árduo do campo e com costumes e moral tradicionais profundamente intrínsecas no seu modo de vida. Acreditam que quem se dedica com esmero como eles, merece o fruto do seu trabalho.

Na tentativa de chamar a atenção de uma França que os ignora, decidem bloquear a estrada principal com tratores e molhes de feno. Entram então em cena três americanos que vão a caminho de Paris. Entre eles está Newman, fotógrafo famoso por despir multidões para as suas fotografias não convencionais. Barrados pelos manifestantes, acaba por desviar por estradas secundárias onde encontra finalmente, depois de tanto procurar, o lugar ideal para a sua próxima milionária obra de arte. O local é Champ Chollet, precisamente em Mêle-sur-Sarthe. Comunica então ao mayor da pequena localidade a sua intenção de despir os seus habitantes. O mayor é Georges Balbuzard, interpretado por François Cluzet que por si só já é um veterano da cinematografia francesa. Numa atuação que se destaca entre outros nomes mais desconhecidos, representa na perfeição este homem que faria qualquer coisa pela sua aldeia. Encontra nesta estranha proposta uma oportunidade de ouro para colocá-los no mapa e chamar a atenção do governo francês. Porém depara-se com o maior desafio da sua vida ao tentar convencer os seus conterrâneos de se despir de preconceitos e ficar a nu por uma boa causa.

A quem esteja habituado a filmes hollywoodescos em que toda a ação gira em redor de heróis altos e espadaúdos que embarcam em aventuras tão fantásticas como irrealistas, poderá não conseguir ver a beleza de um filme que conta o quotidiano de uma típica aldeia rural na Normandia. Deparamo-nos com um leque formidável de todo o tipo de pitorescas personagens que decoram a trama, dando-nos aquele gostinho delicioso das vidas simples mas ricas das gentes que vivem da terra. Temos Eugène (Philippe Rebbot), agricultor constantemente despenteado e temperamento volátil, que está a ponto de perder tudo e Maurice (Patrick d’Assumçao) o seu arqui inimigo com o qual tem uma disputa de terras tão antiga quanto a Segunda Guerra Mundial. Ou Gìsele (Lucie Muratet), ex Miss Calvados e agora mulher do talhante Roger (Grégory Gadebois) que ciumento, não consegue aceitar o facto da sua bela mulher se despir em frente dos vizinhos. Também temos a família parisiense, os Levasseur (François-Xavier Demaison e Julie-Anne Roth) que fugindo da confusão da cidade, tentam recomeçar uma vida mais sossegada no campo, apesar da sua filha adolescente Chloé (Pili Groyne) não estar muito satisfeita com a mudança repentina. Ou Vincente (Arthur Dupont), filho do antigo fotógrafo local, que apenas regressa à terra onde nasceu para vender a loja de seu pai e acaba por encontrar bons motivos para ficar.

Numa sociedade mediática como aquela em que vivemos hoje, sabe bem parar o ritmo acelerado dos dias e deixar-nos comover umas vezes, rir outras, com este singelo filme. Deixamos para outra altura os super heróis, os desastres naturais sempre em Nova Iorque e as batalhas épicas de deuses contra titãs. Tentamos agora absorver o simbolismo deste povo de normandos a quem já tiraram tanto que apenas lhes sobra a roupa que levam posta, e mesmo essa despem-na humildemente num último grito desesperado por um modo de vida que poderá ter os dias contados.

 

“Ils ne savent plus le nom des fontaines
Ils ne savent plus la saveur de l’eau
Ils ne savent plus le cri de la chaine
Aux portes des puits à la mérienne

Sauront-ils encore
Un jour nos enfants
Parler aux chevaux
Compter les étoiles”

Ils ne savent plus, François Budet, 1976

 

Eles não sabem já o nome das fontes
Eles não conhecem já o sabor da água
Eles não sabem já o grito da cadeia
Nas portas dos poços da Mérienne

Saberão eles ainda
Um dia nossos filhos
Falar com os cavalos
Contar as estrelas