FÁTIMA CASANOVA

Colette

Keira Knightley num filme de época. O típico, tal como a história do filme.

 

Título original: Colette (UK, EUA – 2018)
Realizador: Wash Westmoreland
Argumento: Richard Glatzer, Wash Westmoreland, Rebecca Lenkiewicz
Actores: Keira Knightley, Fiona Shaw, Dominic West

Numa época de intensas discussões sobre o tema do feminismo, não podia deixar de vir à baila a figura de Sidonie Grabrielle Colette, uma ousada e polémica escritora francesa do início do século XX. É que Colette – como assinava – teve tudo menos uma vida pacífica, num tempo em que o talento no feminino não era reconhecido e vigorava uma mentalidade machista e castradora. Importa por isso falar de Colette e da sua luta pessoal e profissional – que continua a ser a luta com que muitas mulheres, nos dias de hoje, se debatem -, e é isso que este filme, “Colette”, nos traz.

É Keira Knightley que surge como Colette, em mais uma interpretação num filme de época – nada de novo na sua carreira, depois de a termos visto em “Orgulho e Preconceito”, “Expiação” e na saga de ação e aventuras “Piratas das Caraíbas”. A atriz britânica já provou que é capaz de nos levar em viagens ao passado como ninguém, mas chega a ser algo cansativo ter sempre Keira Knightley como a protagonista deste tipo de filmes. Há mais atrizes em Hollywood, certo? Talvez não se sintam tão confortáveis em corpetes como a eternamente elegante Keira, mas alguém tem de dizer às produtoras norte-americanas e britânicas que há mais carinhas bonitas e talentosas por aí. Questões de casting à parte, o desempenho de Keira é de facto muito competente. A atriz britânica consegue interpretar Colette em toda a sua complexidade, desde o seu lado mais doce e ingénuo ao feroz e determinado olhar que vai ganhando, ao longo da sua (nada fácil) vida. É essa transformação que acompanhamos no filme, que procura ser fiel à biografia da escritora francesa.

Quando Colette casa com um charmoso e carismático “empreendedor literário” – como o próprio se autodenomia -, Willy (Dominic West), ainda não tinha consciência do seu incrível talento para a escrita. É só mais tarde, quando o casal começa a ter problemas de dinheiro, que Colette tenta escrever para ajudar o marido, e o ganancioso empresário percebe que a mulher é uma mina de ouro. Convence-a, depois, que ninguém a levaria a sério se assinasse com o seu próprio nome, por ser mulher, e assume a autoria de uma série de livros inspirados na adolescência e juventude de Colette, e as suas aventuras na descoberta da sexualidade. As histórias de “Claudine”, o nome da protagonista dos livros, tornam-se rapidamente um sucesso em França, mas quem tem a fama e o proveito é Willy.

O filme faz-nos lembrar “Olhos Grandes” (2014), de Tim Burton, outra história verídica de um homem que rouba à mulher a autoria da sua arte – neste caso de incríveis quadros de mulheres, crianças e animais com olhos gigantes – mas “Colette” não consegue transmitir o mesmo fogo e intensidade, e torna-se um ensaio de algo já muito visto no cinema. A narrativa desenvolve-se sem grande suspense e força, num tema que merecia muito mais vida e emoção.

O filme, de Wash Westmoreland, realizador do fantástico “O Meu Nome é Alice” (2014), vale por recuperar uma história que merece ser contada, embora sem o fulgor que merecia.

 

O Regresso de Mary Poppins

Quantas vezes terá Emily Blunt visto a “Mary Poppins” de Julie Andrews, para conseguir tão fantástica mimese?

 

Título original: Mary Poppins Returns (EUA – 2018)
Realizador: Rob Marshall
Argumento: David Magee, Rob Marshall, John DeLuca, P.L. Travers
Protagonistas: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw

Quando a Disney anunciou um novo filme de Mary Poppins, percebemos que não seria um remake nem uma reinterpretação de um dos seus mais bem sucedidos e premiados clássicos, mas sim a continuação das aventuras da ama que voa pelos céus de Londres com a ajuda de um guarda-chuva que fala. A escolhida para interpretar uma das mais inesquecíveis personagens do cinema foi Emily Blunt, uma das mais versáteis atrizes dos nossos tempos: tão depressa está a protagonizar filmes de terror (“Um Lugar Silencioso”, 2018), ou dramas, como “A Rapariga no Comboio” (2016), como a contracenar com Tom Cruise em filmes super exigentes fisicamente (“No Limite do Amanhã”, 2014). E como se não fosse suficiente, tem ainda talento para a comédia, como pudemos comprovar em “Espera Aí… Que Já Casamos” (2012), onde contracenou com o impagável Jason Segel.

E Emily Blunt não podia ter correspondido melhor às expectativas: como o que se pretendia era uma sequela das aventuras de Mary Poppins, a atriz britânica foi buscar todos os maneirismos e sorrisos misteriosos da personagem que nos apaixonou no filme de 1964, e tornou a sua Mary Poppins numa magnífica homenagem a Julie Andrews. O resultado é um filme carregado de nostalgia e bons momentos, especialmente para quem ainda canta “Supercalifragilisticexpialidocious” quando não tem nada para dizer.

Mas desengane-se quem pensar que o papel de Emily é apenas imitar o trabalho da diva Julie Andrews: a atriz britânica consegue deixar o seu cunho pessoal na personagem. Talvez porque a história se passe muitos anos depois do original, a Mary Poppins de Emily Blunt parece agora menos ingénua, e muito mais segura de si e dos seus mil e um talentos. Há, também, no olhar da Mary Poppins de Emily Blunt, uma confiança e magnetismo que não encontrávamos – ou pelo menos, não na mesma medida –, na bondosa e simples Mary Poppins de Julie Andrews.

Além da fantástica prestação de Emily Blunt, “O Regresso de Mary Poppins” merece a nossa visita ao cinema pela incrível experiência que nos oferece enquanto musical. É sem dúvida um “feel good movie” (como o original), onde ninguém resiste ao encantamento dos mundos mágicos de Mary Poppins, assim como às suas coreografias e músicas – que ficam no ouvido durante horas e horas depois do fim do filme.  Com realização de Rob Marshall, talentoso realizador de filmes do género – como o premiado “Chicago” (2002) ou “Nove” (2009) –, enquanto musical “O Regresso de Mary Poppins” é um espetáculo imperdível, especialmente para amantes deste estilo. O facto de terem ido buscar uma das mais incríveis descobertas da Broadway, Lin-Manuel Miranda (protagonista da tão falada peça “Hamilton”), terá certamente ajudado.

Lin-Manuel Miranda é Jack, um acendedor de candeeiros de rua, que vem preencher o papel de companheiro de aventuras de Mary Poppins – que no primeiro filme era Bert (Dick Van Dyke). Tal como a personagem do filme original, Jack vem para dançar e cantar com Mary Poppins, o que não podia sair de forma mais natural para um ator da Broadway. Contudo, sentimos falta dos gag moments e caretas que celebrizaram Dick Van Dyke como Bert, que faziam rir miúdos e graúdos. Lin-Manuel Miranda é um “animal” de palco e a sua prestação é ótima, mas não tão cómica como nos habituámos que fosse o parceiro de loucuras de Mary Poppins. Por outro lado, muitas vezes o talento de Lin-Manuel Miranda parece ofuscar Emily Blunt, sendo-lhe concedido até mais tempo de protagonismo do que seria esperado de uma personagem secundária. De facto, após várias músicas e danças interpretadas por Jack, sentimos vontade de espreitar o bilhete de cinema para confirmar se o título do filme não será “O Regresso de Mary Poppins e a estreia de Lin-Manuel Miranda num musical da Disney”. Mas tudo bem.

Com uma narrativa escorreita e divertida, este filme é mais um projeto sucedido para a gigante criada por Walt Disney. Uma forma de recuperar a magia dos clássicos, oferecendo aos mais pequenos a sua primeira aventura pelos mundos de Mary Poppins, e aos mais velhos, uma imensa nostalgia dos tempos de infância. O desafio, depois de ver “O Regresso de Mary Poppins”, é resistir a rever “Mary Poppins” logo de seguida. Posso confessar que não consegui (e diverti-me como da primeira vez, com as aventuras de Julie Andrews e Dick Van Dyke).

 

Às Cegas

“Na vida, há os cretinos, e os mortos” – de que lado queremos estar?

 

Título original: Bird Box (EUA, 2018)
Realizador: Susanne Bier
Argumento: Eric Heisserer, Josh Malerman
Protagonistas: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich

Não podia deixar de começar esta crítica sem a deixa mais forte do filme – e que só podia ter sido proferida pela personagem de John Malkovich, o eterno “cretino” dos filmes de Hollywood. A verdade é que, ao longo de anos de filmes de terror norte-americanos, já percebemos que os bons da fita são sempre tramados pelos outros – mas não conseguimos deixar de torcer por eles.

Sandra Bullock, a protagonista de “Bird Box” (mais uma grande produção da Netflix), não é a típica heroína destes filmes. Aqui, a estrela de “Gravity” interpreta Malorie, uma mulher fria e distante, tão focada na sua arte que passa os dias fechada em casa, a pintar quadros (que nunca acaba), e cujo único contacto com o mundo é Jessica (Sarah Paulson), a irmã, que, apesar da falta de afetos da outra, continua a visitá-la e a encher-lhe o frigorífico (e a lembrar-lhe de telefonar à mãe). A passar pelo fim de uma relação, e com uma gravidez indesejada, Malorie prefere fugir do mundo a enfrentar os seus problemas – portanto, nada o estereótipo de heroína.

Mas quando, de súbito, uma inexplicável vaga de suicídios chega aos Estados Unidos (depois de ter começado na Europa e na Ásia), Malorie não tem escolha senão agir. Refugia-se em casa de desconhecidos, quando se começa a perceber que o mundo foi invadido por “criaturas” misteriosas, que levam a pensamentos e atos psicóticos a quem as observa. Tapam-se todas as janelas e recolhem-se os sobreviventes em casa – até não haver mais mantimentos.

E é aqui que regressamos à deixa com que comecei a crítica. John Malkovich é Douglas, um advogado cínico e sem escrúpulos, que se dedica a processar os vizinhos por tudo e por nada, e que prefere salvar-se a si mesmo antes de salvar os outros. Tal como a personagem principal deste filme, pensamos nós. Mas, e tentando evitar os spoilers, a ameaça que paira nos céus é afinal o impulso de que Malorie precisava para sair da sua clausura emocional auto-imposta e começar a ligar-se aos outros. É nesta altura que percebemos que, mais do que um filme de terror e sci-fi, “Bird Box” é também um poderoso ensaio sobre o comportamento humano, que só uma situação-limite pode testar – e muitas vezes levar à mais necessária e imperativa transformação de si mesmo.

Talvez para compreender a mudança de Malorie, Susanne Bier, realizadora de filmes como “Serena” (2014) ou “Tudo o que perdemos” (2007), tenha optado por uma lógica narrativa não-linear, contando esta história através de analepses e prolepses constantes, de modo a que possamos comparar o passado e o futuro destas personagens. Embora às vezes possa ser confuso, é quase sempre uma forma eficaz de colocar em prática a velha máxima “Show, don’t tell”, já que, como vamos tendo vislumbres dos próximos passos das personagens, as nossas perguntas são respondidas praticamente no momento em que as colocamos.

Por isso, e pela brilhante construção das personagens no filme (sendo Malorie o exemplo mais expressivo), “Bird Box” não deve escapar dos radares dos Óscares este ano, provando mais uma vez que a Netflix está decidida a mudar o paradigma do cinema, pois os grandes filmes também já estreiam no sofá lá de casa.

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

A tão aguardada adaptação ao pequeno ecrã de um dos mais recentes fenómenos da literatura contemporânea.

 

Título original: The Truth About the Harry Quebert Affair (EUA – 2018)
Criado por: Jean-Jacques Annaud
Argumento: Joël Dicker (adaptado do livro “The Truth About the Harry Quebert Affair”)
Actores: Patrick Dempsey, Ben Schnetzer, Kristine Froseth
Canal: AMC (PT) Epix (US)

Ouvi falar de Joël Dicker há dois anos. Uma “devoradora” de livros como eu confessava-se “viciada” nas suas obras – e desesperada porque, à data, o jovem (33 anos) escritor suíço só tinha lançado três livros (e ela já tinha lido todos). O entusiasmo dela convenceu-me e dediquei-me à leitura de “O Último Dia dos Nossos Pais”, o primeiro livro de Joël Dicker a que consegui deitar a mão. Descobri que os elogios às obras do escritor suíço, por quem me tinha aconselhado, eram mais que merecidos – eu também já estava viciada. Li então “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e “O Livro dos Baltimore” num sopro (entretanto, saiu “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”, este ano), perguntando-me como é que ainda ninguém se tinha lembrado de fazer um filme ou uma série a partir das brilhantes histórias de Joël Dicker. Afinal, soube recentemente que o autor recusou 95 propostas de adaptação de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, até ter finalmente concordado com a ideia de Jean-Jacques Annaud, o realizador à frente da série em exibição desde dia 2 de dezembro no canal AMC.

Joël Dicker foi sensato em esperar e não ceder os direitos do seu livro à primeira proposta de Hollywood: afinal, Jean-Jacques Annaud é o realizador de êxitos como “O Nome da Rosa” (1986), “O Amante” (1992) ou “Sete Anos no Tibete” (1997). Assim, este promissor escritor suíço, já com alguns prémios no currículo, pode ver a sua história adaptada por um dos grandes nomes do cinema contemporâneo – e que se aventura pela primeira vez na televisão. Um privilégio reservado a poucos.

A verdade é que a intensidade da obra de Joël Dicker se perderia se não fosse bem contada, por um realizador experiente em thrillers e romances pesados e desafiantes. A escolha pelo formato série também foi acertada – quem conhece a escrita de Joël Dicker sabe que vive de de suspense e de pormenores, e perdia tanto em detalhes como em emoção num filme. Assim, de episódio em episódio, vamos entrando na história e conhecendo as várias personagens que compõem este intrincado e viciante thriller. É a melhor forma de descobrir e de nos apaixonarmos por “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”.

A série, que é exibida todos os domingos às 22h10, no AMC, segue de forma fiel a ordem cronológica dos eventos do livro. Começamos por conhecer Marcus Goldman (interpretado por Ben Schnetzer), um jovem escritor a desfrutar os prazeres da fama, depois do êxito do seu primeiro livro. Mas, à medida que se aproxima o deadline para a entrega da sua segunda obra, para a qual lhe foi oferecido um contrato milionário, Marcus não tem nem uma linha escrita. É então que se lembra do seu professor e mentor Harry Quebert (Patrick Dempsey), um aclamado escritor que, há anos, trocou a frenética Nova Iorque por uma tranquila localidade à beira-mar no Maine, perto de onde dá aulas numa universidade. Marcus parte para o interior norte-americano esperando que a sua quietude lhe devolva a inspiração. Passa um tranquilo fim de semana com o professor e regressa a casa – ainda sem nenhuma obra-prima no bolso. De repente, Harry liga-lhe para lhe dizer que encontraram, no seu quintal, os restos mortais de uma rapariga, Nola Kellergan (Kristine Froseth), desaparecida há 33 anos. Harry é acusado de a ter morto e enterrado. O crime ganha novos contornos quando Marcus descobre que o seu ídolo terá vivido um amor proibido com a vítima, quando ele tinha 34 e a rapariga apenas 15. Mas Harry nega o crime e Marcus, que conhece o professor há 10 anos, acredita na sua inocência.

Esta é a intriga que nos é apresentada no primeiro episódio da série, que, respeitando as pausas dramáticas da escrita de Joël Dicker, acaba em cliffhanger. A produção da AMC tem 10 episódios e, após assistir aos quatro que foram exibidos até à data, o balanço é positivo. Tal como no livro, é com o coração nas mãos que assistimos ao desenrolar da história – e ao desespero de Marcus, quando tudo aponta para a culpa de Harry Quebert.

Como no livro, a série leva-nos por analepses a conhecer o romance entre Harry e Nola. Tanto na versão jovem como mais velha de Harry, Patrick Dempsey interpreta de forma competente o escritor, primeiro feliz e apaixonado, e depois caído em desgraça, de semblante perdido e, de súbito, num novo luto pelo seu amor. Kristine Froseth é também a Nola que os leitores de Joël Dicker imaginaram: inocente, apaixonada pela vida, com uma alegria que a todos contagia. A química entre Patrick e Kristine é palpável – como era suposto.

Assim, as expectativas em relação a esta série – à qual temos de assistir “à maneira antiga”, semanalmente –, não podiam estar mais elevadas. As boas notícias é que, para o dia 25 de dezembro, o canal AMC promete uma maratona dos cinco primeiros episódios da série – o que, para os fãs de Joël Dicker, não podia ser melhor presente de Natal.

 

22 de julho

Um (muito bem dado) murro no estômago.

 

Título original: 22 July (NOR, ISL, EUA – 2018)
Realizador: Paul Greengrass
Argumento: Paul Greengrass, Åsne Seierstad
Protagonistas: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden

Paul Greengrass. Ver o nome de um dos mais brilhantes realizadores de Hollywood associado a um original da Netflix já era razão suficiente para assistir a “22 de julho” – mais ainda se nos lembrarmos que o cineasta foi o realizador de alguns dos mais intensos thrillers dos últimos tempos, como “Capitão Philips” (2013), “Voo 93” (2006) ou “Domingo Sangrento” (2002). Paul Greengrass parece ter uma queda por argumentos baseados em histórias verídicas – e ainda bem, pois o seu talento para contá-las, mantendo sempre a narrativa num limbo entre o suspense e o drama, é indiscutível.

22 de julho de 2011. A Noruega acorda para o seu pior pesadelo. Ao início da tarde, um carro-bomba explode junto aos prédios onde se situa o gabinete do primeiro-ministro, em Oslo, resultando na morte de 8 pessoas. Horas depois, 69 pessoas são mortas num tiroteio na ilha de Utøya, onde se realizava um campo de verão para jovens do Partido Trabalhista Norueguês. É um dia negro para a História da Noruega, especialmente porque a maioria das vítimas são crianças.

“22 de julho” leva-nos pelo antes, durante e depois dos acontecimentos do dia que marcou os noruegueses. Conhecemos os jovens que, no dia anterior, chegam entusiasmados ao campo de férias – crianças fascinadas pela ideia de deixar a sua marca no mundo, muitas delas filhas de dirigentes e figuras influentes da Noruega –, e conhecemos Anders Behring Breivik, enquanto escreve ao computador o manifesto que, como diria mais tarde, “explica a necessidade daquele atentado”.

Mestre em filmes sobre tragédias humanas, Paul Greengrass garante que nos envolvemos tanto com as vítimas como com o terrorista, antes dos momentos-chave. No discurso de Anders Breivik há ideias que, infelizmente, nos são familiares: a oposição em relação à imigração, aos refugiados e ao multiculturalismo – que o terrorista classifica como “forçado”. Sabemos que não param de nascer, pela Europa, frentes que apoiam ideias extremistas de direita, e este filme vem precisamente lembrar-nos disso. Vem lembrar-nos que o que construímos como ideal – uma Europa de braços abertos, onde todos podem trabalhar e sonhar ter uma vida melhor – está a ser ameaçado por quem preferia fechar portas a tudo o que é diferente e novo.

“22 de julho” é, também, brilhante a mostrar aquilo que não vemos, quando os bombeiros limpam os destroços e nasce um novo dia num palco de guerra: os longos meses de recuperação das vítimas dos atentados, as marcas que deixam nas suas famílias e o medo que se apodera, para sempre, dos seus corações. E é através de pequenos detalhes que o filme nos mostra como tudo muda, enquanto nós continuamos a fazer zapping, esquecendo aos poucos o último cenário sangrento que vimos na TV. Sentimo-nos, às vezes, a invadir momentos demasiado privados, quando Paul Greengrass nos leva pelas difíceis sessões de fisioterapia das vítimas, a imensa vitória que é descer umas escadas ou, simplesmente, tentar adormecer todos os dias sem pensar, outra vez, naquele dia fatídico.

No papel do infame Anders Breivik, o norueguês Anders Danielsen Lie não podia ter melhor prestação. Tudo na sua linguagem corporal e olhar transmite ódio e uma convicção cega nos ideais que defende. Mas a construção da personagem de Anders Breivik em “22 de julho” não cede ao facilitismo de retratar o terrorista norueguês como um “monstro”, como a imprensa daquele país começou por chamar-lhe. Descobrimos a sua infância e o que levou àquele tipo de pensamento, para percebemos que afinal, o “mau da fita moderno” não é apenas um lobo mau com sede de sangue: é fruto de más experiências e problemas que, infelizmente, o socialismo europeu levou para dentro das casas de adolescentes incompreendidos, que viram, injustamente, nos imigrantes e refugiados a culpa para a perda do poder de compra das suas famílias.

É por isso que “22 de julho” é um autêntico murro no estômago – porque põe a nu as fragilidades de um ideal à beira do colapso, e porque nos lembra da insignificância das nossas queixas de todos os dias, face à luta diária que se torna a vida de uma vítima de atentado.

 

Nada a Esconder

Um melodrama cómico à boa maneira do cinema europeu: nu e cru.

 

Título original: Le Jeu (FRA, BEL – 2018)
Realizador: Fred Cavayé
Argumento: Filippo Bologna, Fred Cavayé
Actores: Bérénice Bejo, Suzanne Clément, Stéphane De Groodt

Há, no serviço português da Netflix, cada vez mais e melhor oferta de filmes – nomeadamente, de produções europeias. “Nada a Esconder” é um desses exemplos: um original Netflix que encontramos pelo zapping, com a promessa de ser, segundo lemos na plataforma, um “filme espirituoso”. E, de facto, quem quer que tenha assim categorizado esta película francesa, tem toda a razão.

Comecemos pelo facto de ser uma produção francesa. As comédias realizadas neste país têm vindo a surpreender o público, seja pelas suas – lá está – espirituosas histórias, ou pelos seus excelentes atores, que trazendo para o grande ecrã os dotes para a ironia e sarcasmo do seu povo, tornam os filmes franceses incríveis experiências de gargalhadas sem parar.

Depois, há que salientar que este é um filme baseado numa produção italiana, “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte” (Perfetti Sconosciuti, 2016), outro país de onde nos chegam, também, obras-primas da comédia – do estilo que põe o dedo na ferida, desconfortável.

Assim, temos os ingredientes que tornaram “Nada a Esconder” num melodrama cómico que importa ver, onde acabamos a olhar para dentro de nós e confessar os nossos próprios pecados, engolindo em seco – como apenas um bom filme é capaz de fazer.

A história é muito simples: um grupo de amigos, com laços que recuam até à escola primária, junta-se mais uma vez na casa de Vincent (Stéphane De Groodt), o cozinheiro e anfitrião do costume. Estamos perante casais nos seus trinta ou quarenta anos, com décadas de relacionamento, mágoas e segredos. A tensão é visível em cada um dos pares – menos entre os joviais Thomas (Vincent Elbaz) e Léa (Doria Tilier), que acabaram de casar. Mas quando chegam a casa de Vincent, todos brincam e riem juntos, como se nada se passasse. Até que Marie (Bérénice Bejo), psicoterapeuta de profissão, lança o tema dos telemóveis como “as novas caixas negras dos casais” e convida os amigos a fazer um jogo: naquela noite, todos irão pousar os seus telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para cima e o som ativo, para que, sempre que um dos aparelhos tocar, todos possam ler as mensagens, ouvir os telefonemas e ver as fotos recebidas, confirmando se há, ou não, segredos entre os casais e amigos. E o resultado, que já se adivinhava desastroso, revela-se surpreendente. Especialmente, porque à medida que o jogo avança, e os segredos são postos a nu, aqueles que mais apontam o dedo acabam por ser obrigados a admitir a sua hipocrisia.

“Nada a Esconder” mostra-nos que, quando a narrativa é competente e envolvente, o cenário de 1h33 minutos de filme pode ser sempre o de uma pequena sala, sem mais nada. A força dos diálogos do filme prende-nos irremediavelmente, até ao seu intenso desenlace. Por uma noite, e durante um jogo, descobrimos, entre vícios, falhas e pudores, homens e mulheres que se revelam em toda a sua profunda imperfeição, e, como qualquer ser humano, erram e voltam a errar, porque amam e desejam ser amadas – não é o que queremos todos?

Um verdadeiro retrato da sociedade moderna, onde, com tantas formas de comunicar com quem não está, perdemos o contacto com quem está mesmo ao nosso lado.

 

Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Regressar ao mundo mágico criado por J.K. Rowling é como voltar a casa.

 

Título original: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald (GBR, EUA – 2018)
Realizador: David Yates
Argumento: J.K. Rowling
Actores: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler

Quem cresceu a ler as aventuras de Harry Potter – como eu –, sabe que há mais para além das histórias dos sete livros da saga. Compreendendo que, para criar um mundo fantástico, verosímil e possível, é necessário que este tenha um passado e uma previsão de futuro, J.K. Rowling foi sempre deixando, pelos romances d'”O Rapaz que Sobreviveu”, referências a outros acontecimentos marcantes para a História dos feiticeiros. Assim, J.K. Rowling não encerrou o mundo mágico de Harry Potter no final da saga – pelo contrário, deixou sementes para muitas, muitas novas histórias.

É o caso do filme “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, que chegou este ano aos cinemas. Esta nova aventura apresenta-se como a sequela de “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” (2016), o primeiro filme depois do fim da saga dos cinemas, “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2”, em 2011. Mas esta sequela representa uma autêntica revolução para os fãs da saga. É que, se “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” ainda se baseava num pequeno (e quase passado despercebido) livro de J.K. Rowling, sobre as criaturas mágicas do mundo dos feiticeiros e um homem completamente fascinado por elas, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não tem qualquer livro de base. Podia ser completamente desvirtuado da ideia original, como com muitas sagas continuadas por nomes que não os seus criadores (veja-se o caso do último filme da saga Millenium, com crítica no nosso site) – mas, felizmente, J.K. Rowling é uma verdadeira mãe galinha da sua mais preciosa criação e encarregou-se ela própria do argumento do filme, para felicidade e alívio de todos os “Potterheads” do nosso mundo muggle. Talvez graças a isso, e ao realizador não ser outro que David Yates, o nome mais frequente na cadeira de realização dos filmes de Harry Potter, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” regressa com o look & feel, a típica ação e emoção da saga do miúdo da cicatriz em forma de relâmpago.

A narrativa deste novo filme é bem construída, de emoção ascendente e, muitas vezes, de cortar a respiração, como J.K. Rowling nos habituou nos livros, e tão bem tem sido transposto para os filmes. Descobrimos versões mais jovens das personagens das aventuras de Harry Potter, como Albus Dumbledore (Jude Law), e neles é mantida a personalidade e características que marcaram as películas anteriores. Havia, entre os fãs da série, uma imensa curiosidade em conhecer um jovem Albus, especialmente depois de saber que o carismático Jude Law o iria interpretar – e acredito que o público não se pode sentir defraudado, já que o ator britânico consegue trazer para a sua versão de Albus até aquele brilhozinho nos olhos que Michael Gambon (o ator que interpretou Dumbledore na saga original) emprestava à sua personagem sempre que falava com o seu mais promissor aluno, Harry Potter. Neste filme, a menina dos olhos de Albus é, como não podia deixar de ser, o singular Newt Scamander, fã de criaturas mágicas que só lhe dão problemas.

O vilão desta história, que se passa antes da II Guerra Mundial e antes de Voldemort ou Harry Potter terem nascido, é Grindelwald (Johnny Depp, que dispensa apresentações), um fanático que sonha com o domínio dos feiticeiros sobre o mundo muggle. O paralelismo com o ditador que a nossa História viria a conhecer é inevitável – e a história constrói-se exatamente nesse sentido, lembrando-nos que, de tempos a tempos, surge um extremista que defende a superioridade de uma raça sobre as outras. Na nossa sociedade, já sabemos que o impacto destas figuras é sempre catastrófico, mas no mundo mágico ficamos sem saber – já que (tentando evitar os spoilers), o filme termina deixando antever que teremos mais “Monstros Fantásticos” nos cinemas nos próximos anos.

E é mesmo a desejar que o tempo passe depressa até ao próximo filme de “Monstros Fantásticos” que deixamos a sala de cinema depois de ver esta película, sabendo que, tal como no final de cada livro, J.K. Rowling fica a rir-se da quantidade de fãs que todas as noites deita a cabeça na almofada criando mil e um cenários e plot twists para a próxima aventura de Newt Scamander – “Potterheads” felizes porque, afinal, há mais para além do último “the end” do capítulo final de Harry Potter.

 

Assim Nasce Uma Estrela

Eddie Vedder desencorajou Bradley Cooper a realizar “Assim Nasce Uma Estrela”. Mas ainda bem que ele não lhe deu ouvidos.

 

Título original: A Star Is Born (EUA – 2018)
Realizador: Bradley Cooper
Argumento: Eric Roth, Bradley Cooper
Actores: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott

Bradley Cooper estava a trabalhar no argumento de “Assim Nasce Uma Estrela” quando decidiu partir para Seattle e pedir ajuda a um peso pesado do rock norte-americano, Eddie Vedder. O vocalista dos Pearl Jam desencorajou-o a fazer o filme, um remake do clássico com Barbra Streisand e Kris Kristofferson, mas Bradley Cooper foi em frente com a realização daquele que, hoje, é um dos filmes mais falados do ano.

Bradley confessou, entretanto, que Eddie inspirou a sua personagem no filme (a estrela de rock Jackson Maine), e a verdade é que, mesmo que não o soubéssemos, a barba, os cabelos compridos, o olhar simples e sorriso humilde e tímido da personagem de Bradley Cooper grita “Eddie Vedder” por todos os poros. Era uma estrela rock vinda da América profunda que Bradley queria trazer para “Assim Nasceu uma Estrela” (como o filme original, de 1976), com a sua típica simplicidade e olhar de quem traz a dureza da vida naqueles lugares às costas, e foi através da mimetização da aparência e dos maneirismos de Eddie Vedder que o conseguiu. Há, também, muito das letras fortes e profundamente humanas de Pearl Jam nas músicas do filme – o que também contribui para construir a persona de Jackson Maine, um homem perdido, à procura de sentido numa vida de concertos e festas sem fim.

E é esta abordagem, verdadeiramente humana, que nos agarra desde os primeiros minutos do filme. Bradley Cooper quis trazer-nos para dentro do abismo de uma estrela em declínio (Jackson Maine) de forma nua e crua, como se de um documentário se tratasse. Por outro lado, também Lady Gaga interpreta a sua Ally, a empregada de cozinha de sonhos adiados, de modo simples e visceral, como se nos abrisse a porta para os seus segredos, inseguranças e medos mais profundos. É isso que tem vindo a apaixonar o público e a crítica de “Assim Nasce Uma Estrela”: a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

Lady Gaga evoca-nos Barbra Streisand, com a sua magistral presença em palco e voz – e claro, o nariz que, também no caso da diva dos anos 60 e 70, era apontado como ameaça ao seu futuro no mundo da música e afinal se tornou na sua imagem de marca. O nariz que, na personagem de Ally, era uma das suas principais inseguranças, e que Jackson, do alto da sua bondade e repentina paixão por aquela simples e genuína empregada de cozinha, ensinou Ally a amar, como a todos os seus defeitos – sem julgamentos ou juízos de valor, como aliás Bradley Cooper nos convida a ver e apreciar este filme.

“Assim Nasce Uma Estrela” é, assim, uma montanha-russa de emoções que nos atropelam e que nos deixam desconfortáveis bem depois do fim do filme, para nos lembrar que a imperfeição é, afinal, daquilo que somos todos feitos – e que de errar, ninguém pode fugir. Um tocante filme, com interpretações impressionantes, que certamente não irá escapar à mira dos Óscares de 2019.

a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.