AUTORES

A Balada de Adam Henry

Quando a Lei e a Fé se confrontam.

 

Título Original: The Children Act (GBR – 2018)
Realizador: Richard Eyre
Argumento: Ian McEwan, baseado no romance de Ian McEwan
Protagonistas:Emma Thompson, Stanley Tucci, Ben Chaplin

Foi com um misto de curiosidade e excitação que fui ver o filme “A Balada de Adam Henry”, uma adaptação cinematográfica do livro “The Children Act” do britânico Ian McEwan. O título do livro e, igualmente, do filme original, remete-nos à lei britânica de 1989, que visa proteger os menores no Reino Unido de quaisquer perigos que coloquem em causa a sua integridade física, emocional e psicológica. Pode chegar ao ponto das crianças serem retiradas aos seus progenitores de modo definitivo ou temporário, caso estes venham a falhar perante o Estado nas suas responsabilidades parentais.

O enredo centra-se exatamente num adolescente Testemunha de Jeová de 17 anos, prestes a atingir o estatuto de idade adulta perante a lei, que se encontra num estado avançado de leucemia e que necessita de transfusões de sangue para que a equipa médica lhe possa garantir, na medida do possível, a sua recuperação. De outro modo, o quadro clínico continuará a agravar-se e a morte será o desfecho inevitável em poucos dias. Perante a recusa dos pais em aceitar as transfusões de sangue, respeitando também a decisão do filho em manter a sua recusa, o caso é levado a tribunal pelo hospital.

É aqui que a Lei e a Fé se encontram num debate, não apenas de ordem jurídica, mas acima de tudo ético. Deve obrigar-se os pais e o jovem quase adulto a aceitar, contra a sua vontade, um tratamento médico, violando assim a sua consciência?

Estando o adolescente quase a atingir a maioridade, deve a sua vontade ser respeitada ou, seguindo o “Children Act”, impor o tratamento à força, de modo a dar a chance de o rapaz sobreviver a uma doença que se revelará fatal?

Como Testemunha de Jeová durante quase 40 anos e tendo acreditado piamente que qualquer transfusão de sangue seria um pecado grave contra a Lei de Deus, vi o filme com um sentido apurado de crítica e curiosidade. Posso afirmar que o filme retrata fielmente a mentalidade de alguém que procura viver a sua fé no seu mais sentido pleno, mesmo que isso possa resultar na sua morte.

Considero que o autor britânico Ian McEwan, que escreveu o livro e o argumento para o filme, procurou criar um quadro realista do que acontece nestes casos, onde Testemunhas de Jeová se veem confrontadas com a decisão de aceitar ou recusar um tratamento que consideram ser uma violação da Lei de Deus e a impotência das equipas hospitalares em lidar com tais casos.

Torna-se claro, concorde-se ou não com a crença, que tais pessoas têm uma fé sincera naquilo que acreditam ser mandamentos divinos, embora não passem de meras interpretações humanas e que procuram vivê-la no dia-a-dia. Mas quando tal fé coloca em causa a vida de um menor, de uma criança, cabe ao Estado, através dos tribunais garantir que a vida do menor seja salvaguardada. Mas neste caso, a situação não será tão simples assim.

No papel da juíza Fiona Maye, que irá decidir este caso, temos a atriz Emma Thompson. Ela é juíza do Supremo Tribunal de Menores e que tem de decidir se deixará Adam Henry (Fionn Whitehead) viver os poucos dias que lhe restam de acordo com as suas convicções religiosas ou, se porventura, apesar dos seus quase 18 anos, deverá impor-lhe o tratamento médico que lhe poderá salvar a vida.

Mas o enredo vai muito além deste drama jurídico e religioso, pois a juíza Fiona Maye enfrenta uma séria crise conjugal onde, num casamento de décadas, se vê confrontada com um pedido no mínimo sui generis por parte do marido Jack (Stanley Tucci): “Eu acho que quero ter um caso”.

Há muito que Fiona Maye deixou de ter uma vida conjugal com Jack, e ele ressente-se desse abandono ao qual foi votado. Por sua vez, Fiona sente-se assoberbada com o muito trabalho que o seu papel de juíza exige e recusa de forma taxativa fazer algo para mudar a situação. É neste clima pessoal instável que lhe chega às mãos o caso de Adam Henry, o jovem Testemunha de Jeová à beira da morte com um quadro de leucemia aguda.

Este drama mostra claramente como as vidas pessoais se entrelaçam nas suas idiossincrasias e como vidas aparentemente perfeitas escondem mágoas e projetos falhados. O autor Ian McEwan soube, de forma cuidada e meticulosa, construir um drama que vai para além do bem e do mal, do certo e do errado, levantando questões de ordem jurídica, religiosa e ética, ao mesmo tempo que nos apresenta personagens realistas, onde a vivência humana é aquilo que é, sem máscaras e artifícios.

Como ex-Testemunha de Jeová, é natural que este filme me tenha dito muito, num ano em que outro filme estreado no Reino Unido, “Apostasy”, de Daniel Kokotajlo, onde a temática religiosa centrada nas Testemunhas de Jeová é igualmente abordada de forma exemplar e que fez o seu caminho, sendo já considerado um dos filmes britânicos do ano.

Aconselho vivamente a verem este filme, que retrata de modo fiel milhares de casos que todos os anos acontecem em hospitais em todo o mundo. O filme tem representações irrepreensíveis, dando destaque especial a Emma Thompson que brilha na tela no seu papel de juíza e mulher.

 

Mundo Jurássico: Reino Caído

Há coisas que deviam ficar no passado.

 

Título Original: Jurassic World: Fallen Kingdom (EUA – 2018)
Realizador: Juan Antonio Bayona
Argumento: Derek Connoly, Colin Trevorrow
Protagonistas: Christ Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall

Depois de anos fora do circuito da grande tela, o retorno da franquia Jurassic Park, com o primeiro “Jurassic World”, foi maioritariamente positivo, mas não sem os seus percalços. Apesar de ter tido uma receção mista com as críticas, “Jurassic World” pareceu ter agradado os fãs, seja pela nostalgia dos antigos filmes, ou simplesmente por preencher um nicho. Não existem muitos filmes de grande orçamento que se foquem nos gigantes do passado, criaturas que sempre tiveram algo de fascinante, especialmente, mas não exclusivamente, no público mais jovem.

“Jurassic World: Fallen Kingdom” vem como a segunda parte de uma trilogia já planeada desde que o primeiro “Jurassic World” estava apenas em script, uma prática cada vez mais comum em Hollywood, quando se trata de filmes com alto orçamento. Com um trailer estendido que, ao que agora parece ser moda, conta essencialmente toda a história do filme e revela todas as surpresas para que o espectador saiba exatamente o que está assistindo, “Fallen Kingdom” tem uma premissa que beira o absurdo: Voltar para uma ilha onde centenas de pessoas morreram, enquanto um vulcão ativo pode destruí-la a qualquer momento, para resgatar os dinossauros e transportá-los em segurança para… Bem, talvez essa seja uma das poucas informações não fornecidas no trailer, então diremos apenas, outro lugar. Por motivos contritos, os dois protagonistas do primeiro “Jurassic World”, Owen e Claire, têm de voltar à ilha e oferecer-nos mais noventa minutos de um dos pares românticos menos dotados de química do cinema atual.

Sem entrar em mais detalhes, todo o script do filme assenta como um castelo de cartas numa série de decisões muito pouco lógicas, coincidências ou conveniências muito específicas que servem mesmo apenas para mover a trama. “Jurassic World: Fallen Kingdom” parece ser o tipo de situação em que o todo é menor que a soma das suas partes. Individualmente e isoladas de contexto, muitas das suas cenas talvez estejam entre as melhores de toda a saga. O contacto com os dinossauros nunca foi tão próximo. Mas o enredo que as conecta é frágil, e não se sustenta numa análise mais criteriosa. Além disso, existe um certo fator de repetição que parece completamente desnecessário dado as amplas opções criativas abertas pela história. Em cima disso, mais de cinquenta pequenos ‘acenos’ ao primeiro “Jurassic Park” começam a fazer tudo parecer um pouco repetitivo. Especialmente quando esses acenos ocupam, na segunda metade do filme, o que é o maior ponto positivo do filme até então, as suas set-pieces.

Outra decisão controversa na narrativa foi a ideia de representar dinossauros como os ‘bons’ ou ‘maus’ da fita, num estilo que cabe em filmes do passado, mas que, principalmente, não cabe na franquia do “Jurassic Park”. Dinossauros são animais, nem bons nem maus.

Mas, no final das contas, a maior fraqueza do “Fallen Kingdom” é ser um filme maioritariamente intermediário. Após um espetáculo pirotécnico com a explosão vulcânica no final do primeiro terço do filme, o filme perde energia. Tendo atingido um clímax prematuro, parece então apenas preocupado em fazer set up da terceira instância da trilogia, e os momentos que se seguem não são completamente sem mérito, mas levam a muito poucas resoluções satisfatórias. Não iria ao extremo de dizer que este filme deve ser evitado (como diria de qualquer filme dos “Transformers”), mas talvez seja melhor assisti-lo daqui a alguns anos, no conforto da sua casa, pelo seu serviço de streaming favorito, e como preparação para o terceiro (e último?) filme da franquia.