AUTORES

O Regresso de Mary Poppins

Quantas vezes terá Emily Blunt visto a “Mary Poppins” de Julie Andrews, para conseguir tão fantástica mimese?

 

Título original: Mary Poppins Returns (EUA – 2018)
Realizador: Rob Marshall
Argumento: David Magee, Rob Marshall, John DeLuca, P.L. Travers
Protagonistas: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw

Quando a Disney anunciou um novo filme de Mary Poppins, percebemos que não seria um remake nem uma reinterpretação de um dos seus mais bem sucedidos e premiados clássicos, mas sim a continuação das aventuras da ama que voa pelos céus de Londres com a ajuda de um guarda-chuva que fala. A escolhida para interpretar uma das mais inesquecíveis personagens do cinema foi Emily Blunt, uma das mais versáteis atrizes dos nossos tempos: tão depressa está a protagonizar filmes de terror (“Um Lugar Silencioso”, 2018), ou dramas, como “A Rapariga no Comboio” (2016), como a contracenar com Tom Cruise em filmes super exigentes fisicamente (“No Limite do Amanhã”, 2014). E como se não fosse suficiente, tem ainda talento para a comédia, como pudemos comprovar em “Espera Aí… Que Já Casamos” (2012), onde contracenou com o impagável Jason Segel.

E Emily Blunt não podia ter correspondido melhor às expectativas: como o que se pretendia era uma sequela das aventuras de Mary Poppins, a atriz britânica foi buscar todos os maneirismos e sorrisos misteriosos da personagem que nos apaixonou no filme de 1964, e tornou a sua Mary Poppins numa magnífica homenagem a Julie Andrews. O resultado é um filme carregado de nostalgia e bons momentos, especialmente para quem ainda canta “Supercalifragilisticexpialidocious” quando não tem nada para dizer.

Mas desengane-se quem pensar que o papel de Emily é apenas imitar o trabalho da diva Julie Andrews: a atriz britânica consegue deixar o seu cunho pessoal na personagem. Talvez porque a história se passe muitos anos depois do original, a Mary Poppins de Emily Blunt parece agora menos ingénua, e muito mais segura de si e dos seus mil e um talentos. Há, também, no olhar da Mary Poppins de Emily Blunt, uma confiança e magnetismo que não encontrávamos – ou pelo menos, não na mesma medida –, na bondosa e simples Mary Poppins de Julie Andrews.

Além da fantástica prestação de Emily Blunt, “O Regresso de Mary Poppins” merece a nossa visita ao cinema pela incrível experiência que nos oferece enquanto musical. É sem dúvida um “feel good movie” (como o original), onde ninguém resiste ao encantamento dos mundos mágicos de Mary Poppins, assim como às suas coreografias e músicas – que ficam no ouvido durante horas e horas depois do fim do filme.  Com realização de Rob Marshall, talentoso realizador de filmes do género – como o premiado “Chicago” (2002) ou “Nove” (2009) –, enquanto musical “O Regresso de Mary Poppins” é um espetáculo imperdível, especialmente para amantes deste estilo. O facto de terem ido buscar uma das mais incríveis descobertas da Broadway, Lin-Manuel Miranda (protagonista da tão falada peça “Hamilton”), terá certamente ajudado.

Lin-Manuel Miranda é Jack, um acendedor de candeeiros de rua, que vem preencher o papel de companheiro de aventuras de Mary Poppins – que no primeiro filme era Bert (Dick Van Dyke). Tal como a personagem do filme original, Jack vem para dançar e cantar com Mary Poppins, o que não podia sair de forma mais natural para um ator da Broadway. Contudo, sentimos falta dos gag moments e caretas que celebrizaram Dick Van Dyke como Bert, que faziam rir miúdos e graúdos. Lin-Manuel Miranda é um “animal” de palco e a sua prestação é ótima, mas não tão cómica como nos habituámos que fosse o parceiro de loucuras de Mary Poppins. Por outro lado, muitas vezes o talento de Lin-Manuel Miranda parece ofuscar Emily Blunt, sendo-lhe concedido até mais tempo de protagonismo do que seria esperado de uma personagem secundária. De facto, após várias músicas e danças interpretadas por Jack, sentimos vontade de espreitar o bilhete de cinema para confirmar se o título do filme não será “O Regresso de Mary Poppins e a estreia de Lin-Manuel Miranda num musical da Disney”. Mas tudo bem.

Com uma narrativa escorreita e divertida, este filme é mais um projeto sucedido para a gigante criada por Walt Disney. Uma forma de recuperar a magia dos clássicos, oferecendo aos mais pequenos a sua primeira aventura pelos mundos de Mary Poppins, e aos mais velhos, uma imensa nostalgia dos tempos de infância. O desafio, depois de ver “O Regresso de Mary Poppins”, é resistir a rever “Mary Poppins” logo de seguida. Posso confessar que não consegui (e diverti-me como da primeira vez, com as aventuras de Julie Andrews e Dick Van Dyke).

 

Homem-Aranha: No Universo Aranha

Viagem ao centro da criatividade.

 

Título original: Spider-Man: Into the Spider-Verse (EUA – 2018)
Realizador: Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman
Argumento: Phil Lord, Rodney Rothman
Protagonistas: Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld

Quando este filme foi anunciado, eu estava já convencido à partida. O Homem-Aranha sempre foi o meu super-herói favorito e qualquer história que o envolva vai-me sempre chamar. Depois vi o trailer e fiquei completamente em pulgas com a promessa de imaginação que prometia. Entrei no cinema em grande antecipação. Sai da sala com um sorriso de orelha a orelha. Mais do que apenas mais um bom capítulo na recente história da Marvel no cinema, “Homem-Aranha: No Universo Aranha” é um dos filmes mais criativos que vi nos últimos tempos.

A história é complexa, mas é tão bem contada que nunca corre o risco de se tornar confusa. Essencialmente, acompanhamos a história de origem de Miles Morales (Shameik Moore), um adolescente nova-iorquino inteligente, criativo e completamente perdido no mundo que, após ser mordido por uma aranha radioativa, se transforma no novo Homem-Aranha. Um dia normal, portanto.

Ao mesmo tempo, uma experiência secreta promovida pelo vilão Kingpin (Liev Schreiber) causa uma disrupção no universo e cruza vários universos paralelos, trazendo, para o mundo de Miles Morales, uma panóplia de diferentes versões do Homem-Aranha.

Entre estes, contam-se uma versão trintona e desencantada de Peter Parker (Jake Johnson), a sempre cool Gwen Stacy, ou Spider-Woman (Hailee Steinfeld), Spider-Man Noir (Nicolas Cage), diretamente dos anos 30 e sempre a preto e branco, a futurística e deliciosamente anime Peni Parker (Kimiko Glenn), acompanhada do seu robot, e o inigualável Peter Porker, ou Spider-Ham (John Mulaney), uma versão do famoso super-herói em forma de… bem, de porco. Sim, é esse tipo de filme.

Todos os atores de vozes fazem um excelente trabalho, mas tem de ser dado o devido destaque aos dois protagonistas. Shameik Moore imbui camadas profundas de vulnerabilidade na sua caracterização de Miles Morales, em especial na complicada relação que mantém com o pai, o polícia Jefferson Davis (Brian Tyree Henry). Do outro lado da moeda, temos Jake Johnson como o Homem-Aranha “original”, numa profunda depressão depois de ter acabado com Mary Jane (no seu mundo) e que se vê forçado a encontrar de novo o seu heroísmo para impedir o plano alucinado e perigoso de Kingpin.

A grande estrela do filme é, no entanto, a animação. A Nova-Iorque de Morales é uma fusão entre a fluidez da animação perfeita em 3-D com rasgos de cor que fazem lembrar, a espaços, as tintas de um graffiti, o pontilismo típico das revistas de BD à antiga e o frenesim electrónico e distorcido de uma realidade a ser sufocada por outras dimensões. Juntamos a isto os diferentes estilos de animação de cada uma das versões do nosso herói e temos aqui o que devia ser uma enorme salganhada. Mas não é. Nunca é. Mesmo nos momentos mais caóticos de batalha, a incansável inventividade do estilo visual nunca afasta o espetador da narrativa. Apenas a realça. E melhora.

Vou parar por aqui antes de correr o risco de começar a revelar demasiado sobre o filme e estragar as várias (óptimas) surpresas que ele nos oferece, terminando com uma nota sobre outro dos pontos mais fortes de “Homem-Aranha: No Universo Aranha” – o seu sentido de humor. Um filme de super-heróis com piada é tudo menos uma novidade (principalmente no Universo Marvel) mas este é um pouco diferente. Mais do que apenas se apoiar em tiradas sarcásticas, o humor aqui é mais inocente e emocional. Cada riso que nos rouba está fundado nos laços que criamos com as personagens. Uma decisão tão ou mais arrojada que os seus fantásticos floreados visuais.

 

Às Cegas

“Na vida, há os cretinos, e os mortos” – de que lado queremos estar?

 

Título original: Bird Box (EUA, 2018)
Realizador: Susanne Bier
Argumento: Eric Heisserer, Josh Malerman
Protagonistas: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich

Não podia deixar de começar esta crítica sem a deixa mais forte do filme – e que só podia ter sido proferida pela personagem de John Malkovich, o eterno “cretino” dos filmes de Hollywood. A verdade é que, ao longo de anos de filmes de terror norte-americanos, já percebemos que os bons da fita são sempre tramados pelos outros – mas não conseguimos deixar de torcer por eles.

Sandra Bullock, a protagonista de “Bird Box” (mais uma grande produção da Netflix), não é a típica heroína destes filmes. Aqui, a estrela de “Gravity” interpreta Malorie, uma mulher fria e distante, tão focada na sua arte que passa os dias fechada em casa, a pintar quadros (que nunca acaba), e cujo único contacto com o mundo é Jessica (Sarah Paulson), a irmã, que, apesar da falta de afetos da outra, continua a visitá-la e a encher-lhe o frigorífico (e a lembrar-lhe de telefonar à mãe). A passar pelo fim de uma relação, e com uma gravidez indesejada, Malorie prefere fugir do mundo a enfrentar os seus problemas – portanto, nada o estereótipo de heroína.

Mas quando, de súbito, uma inexplicável vaga de suicídios chega aos Estados Unidos (depois de ter começado na Europa e na Ásia), Malorie não tem escolha senão agir. Refugia-se em casa de desconhecidos, quando se começa a perceber que o mundo foi invadido por “criaturas” misteriosas, que levam a pensamentos e atos psicóticos a quem as observa. Tapam-se todas as janelas e recolhem-se os sobreviventes em casa – até não haver mais mantimentos.

E é aqui que regressamos à deixa com que comecei a crítica. John Malkovich é Douglas, um advogado cínico e sem escrúpulos, que se dedica a processar os vizinhos por tudo e por nada, e que prefere salvar-se a si mesmo antes de salvar os outros. Tal como a personagem principal deste filme, pensamos nós. Mas, e tentando evitar os spoilers, a ameaça que paira nos céus é afinal o impulso de que Malorie precisava para sair da sua clausura emocional auto-imposta e começar a ligar-se aos outros. É nesta altura que percebemos que, mais do que um filme de terror e sci-fi, “Bird Box” é também um poderoso ensaio sobre o comportamento humano, que só uma situação-limite pode testar – e muitas vezes levar à mais necessária e imperativa transformação de si mesmo.

Talvez para compreender a mudança de Malorie, Susanne Bier, realizadora de filmes como “Serena” (2014) ou “Tudo o que perdemos” (2007), tenha optado por uma lógica narrativa não-linear, contando esta história através de analepses e prolepses constantes, de modo a que possamos comparar o passado e o futuro destas personagens. Embora às vezes possa ser confuso, é quase sempre uma forma eficaz de colocar em prática a velha máxima “Show, don’t tell”, já que, como vamos tendo vislumbres dos próximos passos das personagens, as nossas perguntas são respondidas praticamente no momento em que as colocamos.

Por isso, e pela brilhante construção das personagens no filme (sendo Malorie o exemplo mais expressivo), “Bird Box” não deve escapar dos radares dos Óscares este ano, provando mais uma vez que a Netflix está decidida a mudar o paradigma do cinema, pois os grandes filmes também já estreiam no sofá lá de casa.

Aquaman

O mundo necessita de um herói, outra vez… Who you gonna call? Fish-boy!

 

Título original: Aquaman (USA – 2018)
Realizador: James Wan
Argumento: David Leslie Johnson-McGoldrick, Will Beall
Actores: Jason Mamoa, Amber Heard, Willem Dafoe

De criança queria ser muitas coisas e cada vez que jogávamos ao “o que queres ser quando fores grande”, as respostas eram várias: bailarina, Indiana Jones, bibliotecária, Macgyver, Lois Lane ou correr ao lado de Mitch Buchannon em câmara lenta. Mas quando o jogo era “se pudesses escolher um super poder” já a resposta era constante: respirar debaixo d’água e poder falar com os peixinhos, como a Menina do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen ou a Pequena Sereia do autor curiosamente de apelido parecido, Hans Christian Andersen, mas a versão menos dramática da Disney, claro. Foi então com entusiasmo que abracei os primeiros trailers deste herói subaquático. Porém o filme, propriamente dito, deixou um pouco a desejar.

Depois dos acontecimentos do filme de 2017, Justice League, volta Arthur Curry (Jason Momoa) à sua vida de comum mortal by day e herói dos mares by night. Temos um vislumbre da história dos seus pais, o simples faroleiro Tom Curry (Temuera Morrison) e a rainha Atlanna (Nicole Kidman) e uma curta backstory de como veio a descobrir os seus poderes em criança.

O vilão toma forma no seu meio-irmão, o King Orm (Patrick Wilson) que planeja comandar um exército dos sete mares contra o mundo da superfície. O Reino da Atlântida está cansado de como tratam os oceanos e o astuto rei decide usar isso a seu favor, com o verdadeiro intuito de se tornar Ocean Master.

A injeção de um mau-da-fita secundário, o Black Manta (Yahya Abdul-Mateen II), considero como um bónus para os fãs da DC, já que a fatiota é 100% fiel aos comics, mas irrelevante para a trama. Os seus atos parecem mais próprios de um spin off do Aquaman e se calhar merecia um filme à parte. O pirata desaparece da história tão confusamente como entrou.

O filme está recheado de pontas soltas e uns quantos plot-holes que são difíceis de ignorar. As personagens principais são tão fantasiosas e praticamente invencíveis que não nos estimulam a parte emocional do cérebro. Nem com dinossauros do mundo cinematográfico como William Dafoe ou mesmo Nicole Kidman. Perde a atriz o seu encanto original com tanta caracterização e se havia alguma dúvida antes… Nicole Kidman não combina com filmes de ação. Jason Momoa, com o seu charme de brutamontes que resolve tudo à pancada, abraça o cliché de herói viril  e proporciona-nos um bom ratio de momentos shirtless e man-buns. É contrastado pela feminilidade graciosa da sua companheira e princesa estilo Disney, Mera (Amber Heard), que neste filme nos dá uma prestação quase robótica…

O enredo fraquinho é salvo por épicas batalhas de CGI, com destaque para as belas cidades inundadas e animais marinhos formidáveis, sem esquecer a melhor versão de monstro gigante das profundezas que alguma vez vi: Karathen (a quem Julie Andrews, curiosamente, dá voz). Mas apesar de tudo fica a recomendação para quem aprecia esvaziar um bom balde de pipocas e esquecer as monotonias do seu dia-a-dia por pouco mais de duas horas.

 

Roma

O génio na simplicidade.

 

Título original: Roma (MEX, EUA – 2018)
Realizador: Alfonso Cuarón
Argumento: Alfonso Cuarón
Protagonistas: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey

Durante um momento de convívio familiar durante o dia de Natal, a minha irmã começou a falar espontaneamente de como tinha adorado “Roma”. Partilhámos cenas favoritas, discorremos sobre a beleza da fotografia, concordámos sobre como a sua genialidade derivava da sua simplicidade. Mas algo muito específico aconteceu que me fez aperceber que este era, provavelmente, o filme do ano – mal a minha irmã mencionou o nome do filme, todo o meu corpo se arrepiou com a memória do mesmo. “Roma” é, muito simplesmente, uma obra-prima.

Inspirado parcialmente pela sua própria infância, Alfonso Cuarón conta aqui a história de uma família mexicana de classe média a viver nos anos 70, num período de grandes revoluções sociais e políticas. O foco é dado, no entanto, ao ponto de vista da empregada de casa, Cleo, interpretada de forma absolutamente brilhante pela estreante Yalitza Aparicio.

O modo subtil como Cuarón retrata a relação entre Cleo e a família para a qual trabalha é o coração que faz “Roma” bater. De cena em cena, vamos compreendendo que há um carinho genuíno entre todos os envolvidos, ainda que a relação não esteja necessariamente em pé de igualdade. Num momento, Cleo senta-se a ver televisão com a família e é acolhida com um abraço distraído mas empático, e, no segundo seguinte, é enviada embora para lhes ir buscar chá.

Este desnível social nunca é escondido mas, ao mesmo tempo, nunca é assumido com uma barreira intransponível. “Roma” oferece-nos um retrato de amor incondicional como poucos alguma vez vistos no cinema. Nas mãos de qualquer realizador mediano, estas cenas de interação familiar podiam soar intensamente falsas. Mas, em “Roma”, nunca são mais do que o espelho sem filtro da mais pura das verdades.

A ajudar ao contar desta história simples, temos uma cinematografia que nos faz, a tempos, suster a respiração, de tão bela. Cuarón assume aqui também as responsabilidades de diretor de fotografia e o resultado é impressionante. Para além da sublime estética dos contrastes de luz na fotografia a preto e branco, temos também vários momentos em que os movimentos deliberados da câmara nos transportam para o coração da cena. Ficou-me especialmente cravada na memória a cena em que o drama pessoal de Cleo se cruza com as revoltas estudantis que faziam tremer o México, nos anos 70.

“Roma” é o que acontece quando um dos realizadores mais visualmente brilhantes da atualidade usa todos os seus poderes para contar a mais simples das histórias. É uma carta de amor à sua família, à sua empregada, à memória de uma infância conturbada mas, em última instância, feliz. É o ponto alto da carreira de Cuarón. Tive dificuldades em encontrar as palavras para descrever adequadamente o que senti quando o vi. Fica o arrepio.

 

Tudo a Nu na Normandia

Uma comédia dramática que se despe literalmente de preconceitos.

 

Título original: Normandie nue (FRA – 2018)
Realizador: Philippe Le Guay
Argumento: Victoria Bedos, Olivier Dazat
Actores: François Cluzet, François-Xavier Demaison, Julie-Anne Roth

Mêle-sur-Sarthe é uma comuna esquecida na Normandia. Apesar de apenas a duas horas da capital francesa, é lugar que pouca gente conhece. Alí a maior parte dos seus habitantes, que não são muito mais que seis centenas, dedicam-se à pastorícia. Contemporâneos de uma sociedade que cada vez mais diminui o consumo da carne e do leite ou procuram o mais barato e conveniente. Tentam a todo o custo sobreviver com o ofício herdado dos seus antepassados.

Assim começa esta pitoresca comédia dramática francesa, realizada entre os prados verdejantes a perder de vista com as suas vacas que pastam em silêncio envolvidas pela neblina matinal. O novo mundo ameaça o velho e esta comunidade sente-se traída. É terra de gente dura de roer, que não tem medo ao trabalho árduo do campo e com costumes e moral tradicionais profundamente intrínsecas no seu modo de vida. Acreditam que quem se dedica com esmero como eles, merece o fruto do seu trabalho.

Na tentativa de chamar a atenção de uma França que os ignora, decidem bloquear a estrada principal com tratores e molhes de feno. Entram então em cena três americanos que vão a caminho de Paris. Entre eles está Newman, fotógrafo famoso por despir multidões para as suas fotografias não convencionais. Barrados pelos manifestantes, acaba por desviar por estradas secundárias onde encontra finalmente, depois de tanto procurar, o lugar ideal para a sua próxima milionária obra de arte. O local é Champ Chollet, precisamente em Mêle-sur-Sarthe. Comunica então ao mayor da pequena localidade a sua intenção de despir os seus habitantes. O mayor é Georges Balbuzard, interpretado por François Cluzet que por si só já é um veterano da cinematografia francesa. Numa atuação que se destaca entre outros nomes mais desconhecidos, representa na perfeição este homem que faria qualquer coisa pela sua aldeia. Encontra nesta estranha proposta uma oportunidade de ouro para colocá-los no mapa e chamar a atenção do governo francês. Porém depara-se com o maior desafio da sua vida ao tentar convencer os seus conterrâneos de se despir de preconceitos e ficar a nu por uma boa causa.

A quem esteja habituado a filmes hollywoodescos em que toda a ação gira em redor de heróis altos e espadaúdos que embarcam em aventuras tão fantásticas como irrealistas, poderá não conseguir ver a beleza de um filme que conta o quotidiano de uma típica aldeia rural na Normandia. Deparamo-nos com um leque formidável de todo o tipo de pitorescas personagens que decoram a trama, dando-nos aquele gostinho delicioso das vidas simples mas ricas das gentes que vivem da terra. Temos Eugène (Philippe Rebbot), agricultor constantemente despenteado e temperamento volátil, que está a ponto de perder tudo e Maurice (Patrick d’Assumçao) o seu arqui inimigo com o qual tem uma disputa de terras tão antiga quanto a Segunda Guerra Mundial. Ou Gìsele (Lucie Muratet), ex Miss Calvados e agora mulher do talhante Roger (Grégory Gadebois) que ciumento, não consegue aceitar o facto da sua bela mulher se despir em frente dos vizinhos. Também temos a família parisiense, os Levasseur (François-Xavier Demaison e Julie-Anne Roth) que fugindo da confusão da cidade, tentam recomeçar uma vida mais sossegada no campo, apesar da sua filha adolescente Chloé (Pili Groyne) não estar muito satisfeita com a mudança repentina. Ou Vincente (Arthur Dupont), filho do antigo fotógrafo local, que apenas regressa à terra onde nasceu para vender a loja de seu pai e acaba por encontrar bons motivos para ficar.

Numa sociedade mediática como aquela em que vivemos hoje, sabe bem parar o ritmo acelerado dos dias e deixar-nos comover umas vezes, rir outras, com este singelo filme. Deixamos para outra altura os super heróis, os desastres naturais sempre em Nova Iorque e as batalhas épicas de deuses contra titãs. Tentamos agora absorver o simbolismo deste povo de normandos a quem já tiraram tanto que apenas lhes sobra a roupa que levam posta, e mesmo essa despem-na humildemente num último grito desesperado por um modo de vida que poderá ter os dias contados.

 

“Ils ne savent plus le nom des fontaines
Ils ne savent plus la saveur de l’eau
Ils ne savent plus le cri de la chaine
Aux portes des puits à la mérienne

Sauront-ils encore
Un jour nos enfants
Parler aux chevaux
Compter les étoiles”

Ils ne savent plus, François Budet, 1976

 

Eles não sabem já o nome das fontes
Eles não conhecem já o sabor da água
Eles não sabem já o grito da cadeia
Nas portas dos poços da Mérienne

Saberão eles ainda
Um dia nossos filhos
Falar com os cavalos
Contar as estrelas

 

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

A tão aguardada adaptação ao pequeno ecrã de um dos mais recentes fenómenos da literatura contemporânea.

 

Título original: The Truth About the Harry Quebert Affair (EUA – 2018)
Criado por: Jean-Jacques Annaud
Argumento: Joël Dicker (adaptado do livro “The Truth About the Harry Quebert Affair”)
Actores: Patrick Dempsey, Ben Schnetzer, Kristine Froseth
Canal: AMC (PT) Epix (US)

Ouvi falar de Joël Dicker há dois anos. Uma “devoradora” de livros como eu confessava-se “viciada” nas suas obras – e desesperada porque, à data, o jovem (33 anos) escritor suíço só tinha lançado três livros (e ela já tinha lido todos). O entusiasmo dela convenceu-me e dediquei-me à leitura de “O Último Dia dos Nossos Pais”, o primeiro livro de Joël Dicker a que consegui deitar a mão. Descobri que os elogios às obras do escritor suíço, por quem me tinha aconselhado, eram mais que merecidos – eu também já estava viciada. Li então “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e “O Livro dos Baltimore” num sopro (entretanto, saiu “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”, este ano), perguntando-me como é que ainda ninguém se tinha lembrado de fazer um filme ou uma série a partir das brilhantes histórias de Joël Dicker. Afinal, soube recentemente que o autor recusou 95 propostas de adaptação de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, até ter finalmente concordado com a ideia de Jean-Jacques Annaud, o realizador à frente da série em exibição desde dia 2 de dezembro no canal AMC.

Joël Dicker foi sensato em esperar e não ceder os direitos do seu livro à primeira proposta de Hollywood: afinal, Jean-Jacques Annaud é o realizador de êxitos como “O Nome da Rosa” (1986), “O Amante” (1992) ou “Sete Anos no Tibete” (1997). Assim, este promissor escritor suíço, já com alguns prémios no currículo, pode ver a sua história adaptada por um dos grandes nomes do cinema contemporâneo – e que se aventura pela primeira vez na televisão. Um privilégio reservado a poucos.

A verdade é que a intensidade da obra de Joël Dicker se perderia se não fosse bem contada, por um realizador experiente em thrillers e romances pesados e desafiantes. A escolha pelo formato série também foi acertada – quem conhece a escrita de Joël Dicker sabe que vive de de suspense e de pormenores, e perdia tanto em detalhes como em emoção num filme. Assim, de episódio em episódio, vamos entrando na história e conhecendo as várias personagens que compõem este intrincado e viciante thriller. É a melhor forma de descobrir e de nos apaixonarmos por “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”.

A série, que é exibida todos os domingos às 22h10, no AMC, segue de forma fiel a ordem cronológica dos eventos do livro. Começamos por conhecer Marcus Goldman (interpretado por Ben Schnetzer), um jovem escritor a desfrutar os prazeres da fama, depois do êxito do seu primeiro livro. Mas, à medida que se aproxima o deadline para a entrega da sua segunda obra, para a qual lhe foi oferecido um contrato milionário, Marcus não tem nem uma linha escrita. É então que se lembra do seu professor e mentor Harry Quebert (Patrick Dempsey), um aclamado escritor que, há anos, trocou a frenética Nova Iorque por uma tranquila localidade à beira-mar no Maine, perto de onde dá aulas numa universidade. Marcus parte para o interior norte-americano esperando que a sua quietude lhe devolva a inspiração. Passa um tranquilo fim de semana com o professor e regressa a casa – ainda sem nenhuma obra-prima no bolso. De repente, Harry liga-lhe para lhe dizer que encontraram, no seu quintal, os restos mortais de uma rapariga, Nola Kellergan (Kristine Froseth), desaparecida há 33 anos. Harry é acusado de a ter morto e enterrado. O crime ganha novos contornos quando Marcus descobre que o seu ídolo terá vivido um amor proibido com a vítima, quando ele tinha 34 e a rapariga apenas 15. Mas Harry nega o crime e Marcus, que conhece o professor há 10 anos, acredita na sua inocência.

Esta é a intriga que nos é apresentada no primeiro episódio da série, que, respeitando as pausas dramáticas da escrita de Joël Dicker, acaba em cliffhanger. A produção da AMC tem 10 episódios e, após assistir aos quatro que foram exibidos até à data, o balanço é positivo. Tal como no livro, é com o coração nas mãos que assistimos ao desenrolar da história – e ao desespero de Marcus, quando tudo aponta para a culpa de Harry Quebert.

Como no livro, a série leva-nos por analepses a conhecer o romance entre Harry e Nola. Tanto na versão jovem como mais velha de Harry, Patrick Dempsey interpreta de forma competente o escritor, primeiro feliz e apaixonado, e depois caído em desgraça, de semblante perdido e, de súbito, num novo luto pelo seu amor. Kristine Froseth é também a Nola que os leitores de Joël Dicker imaginaram: inocente, apaixonada pela vida, com uma alegria que a todos contagia. A química entre Patrick e Kristine é palpável – como era suposto.

Assim, as expectativas em relação a esta série – à qual temos de assistir “à maneira antiga”, semanalmente –, não podiam estar mais elevadas. As boas notícias é que, para o dia 25 de dezembro, o canal AMC promete uma maratona dos cinco primeiros episódios da série – o que, para os fãs de Joël Dicker, não podia ser melhor presente de Natal.

 

22 de julho

Um (muito bem dado) murro no estômago.

 

Título original: 22 July (NOR, ISL, EUA – 2018)
Realizador: Paul Greengrass
Argumento: Paul Greengrass, Åsne Seierstad
Protagonistas: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden

Paul Greengrass. Ver o nome de um dos mais brilhantes realizadores de Hollywood associado a um original da Netflix já era razão suficiente para assistir a “22 de julho” – mais ainda se nos lembrarmos que o cineasta foi o realizador de alguns dos mais intensos thrillers dos últimos tempos, como “Capitão Philips” (2013), “Voo 93” (2006) ou “Domingo Sangrento” (2002). Paul Greengrass parece ter uma queda por argumentos baseados em histórias verídicas – e ainda bem, pois o seu talento para contá-las, mantendo sempre a narrativa num limbo entre o suspense e o drama, é indiscutível.

22 de julho de 2011. A Noruega acorda para o seu pior pesadelo. Ao início da tarde, um carro-bomba explode junto aos prédios onde se situa o gabinete do primeiro-ministro, em Oslo, resultando na morte de 8 pessoas. Horas depois, 69 pessoas são mortas num tiroteio na ilha de Utøya, onde se realizava um campo de verão para jovens do Partido Trabalhista Norueguês. É um dia negro para a História da Noruega, especialmente porque a maioria das vítimas são crianças.

“22 de julho” leva-nos pelo antes, durante e depois dos acontecimentos do dia que marcou os noruegueses. Conhecemos os jovens que, no dia anterior, chegam entusiasmados ao campo de férias – crianças fascinadas pela ideia de deixar a sua marca no mundo, muitas delas filhas de dirigentes e figuras influentes da Noruega –, e conhecemos Anders Behring Breivik, enquanto escreve ao computador o manifesto que, como diria mais tarde, “explica a necessidade daquele atentado”.

Mestre em filmes sobre tragédias humanas, Paul Greengrass garante que nos envolvemos tanto com as vítimas como com o terrorista, antes dos momentos-chave. No discurso de Anders Breivik há ideias que, infelizmente, nos são familiares: a oposição em relação à imigração, aos refugiados e ao multiculturalismo – que o terrorista classifica como “forçado”. Sabemos que não param de nascer, pela Europa, frentes que apoiam ideias extremistas de direita, e este filme vem precisamente lembrar-nos disso. Vem lembrar-nos que o que construímos como ideal – uma Europa de braços abertos, onde todos podem trabalhar e sonhar ter uma vida melhor – está a ser ameaçado por quem preferia fechar portas a tudo o que é diferente e novo.

“22 de julho” é, também, brilhante a mostrar aquilo que não vemos, quando os bombeiros limpam os destroços e nasce um novo dia num palco de guerra: os longos meses de recuperação das vítimas dos atentados, as marcas que deixam nas suas famílias e o medo que se apodera, para sempre, dos seus corações. E é através de pequenos detalhes que o filme nos mostra como tudo muda, enquanto nós continuamos a fazer zapping, esquecendo aos poucos o último cenário sangrento que vimos na TV. Sentimo-nos, às vezes, a invadir momentos demasiado privados, quando Paul Greengrass nos leva pelas difíceis sessões de fisioterapia das vítimas, a imensa vitória que é descer umas escadas ou, simplesmente, tentar adormecer todos os dias sem pensar, outra vez, naquele dia fatídico.

No papel do infame Anders Breivik, o norueguês Anders Danielsen Lie não podia ter melhor prestação. Tudo na sua linguagem corporal e olhar transmite ódio e uma convicção cega nos ideais que defende. Mas a construção da personagem de Anders Breivik em “22 de julho” não cede ao facilitismo de retratar o terrorista norueguês como um “monstro”, como a imprensa daquele país começou por chamar-lhe. Descobrimos a sua infância e o que levou àquele tipo de pensamento, para percebemos que afinal, o “mau da fita moderno” não é apenas um lobo mau com sede de sangue: é fruto de más experiências e problemas que, infelizmente, o socialismo europeu levou para dentro das casas de adolescentes incompreendidos, que viram, injustamente, nos imigrantes e refugiados a culpa para a perda do poder de compra das suas famílias.

É por isso que “22 de julho” é um autêntico murro no estômago – porque põe a nu as fragilidades de um ideal à beira do colapso, e porque nos lembra da insignificância das nossas queixas de todos os dias, face à luta diária que se torna a vida de uma vítima de atentado.