PEDRO QUEDAS

Homem-Aranha: No Universo Aranha

Viagem ao centro da criatividade.

 

Título original: Spider-Man: Into the Spider-Verse (EUA – 2018)
Realizador: Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman
Argumento: Phil Lord, Rodney Rothman
Protagonistas: Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld

Quando este filme foi anunciado, eu estava já convencido à partida. O Homem-Aranha sempre foi o meu super-herói favorito e qualquer história que o envolva vai-me sempre chamar. Depois vi o trailer e fiquei completamente em pulgas com a promessa de imaginação que prometia. Entrei no cinema em grande antecipação. Sai da sala com um sorriso de orelha a orelha. Mais do que apenas mais um bom capítulo na recente história da Marvel no cinema, “Homem-Aranha: No Universo Aranha” é um dos filmes mais criativos que vi nos últimos tempos.

A história é complexa, mas é tão bem contada que nunca corre o risco de se tornar confusa. Essencialmente, acompanhamos a história de origem de Miles Morales (Shameik Moore), um adolescente nova-iorquino inteligente, criativo e completamente perdido no mundo que, após ser mordido por uma aranha radioativa, se transforma no novo Homem-Aranha. Um dia normal, portanto.

Ao mesmo tempo, uma experiência secreta promovida pelo vilão Kingpin (Liev Schreiber) causa uma disrupção no universo e cruza vários universos paralelos, trazendo, para o mundo de Miles Morales, uma panóplia de diferentes versões do Homem-Aranha.

Entre estes, contam-se uma versão trintona e desencantada de Peter Parker (Jake Johnson), a sempre cool Gwen Stacy, ou Spider-Woman (Hailee Steinfeld), Spider-Man Noir (Nicolas Cage), diretamente dos anos 30 e sempre a preto e branco, a futurística e deliciosamente anime Peni Parker (Kimiko Glenn), acompanhada do seu robot, e o inigualável Peter Porker, ou Spider-Ham (John Mulaney), uma versão do famoso super-herói em forma de… bem, de porco. Sim, é esse tipo de filme.

Todos os atores de vozes fazem um excelente trabalho, mas tem de ser dado o devido destaque aos dois protagonistas. Shameik Moore imbui camadas profundas de vulnerabilidade na sua caracterização de Miles Morales, em especial na complicada relação que mantém com o pai, o polícia Jefferson Davis (Brian Tyree Henry). Do outro lado da moeda, temos Jake Johnson como o Homem-Aranha “original”, numa profunda depressão depois de ter acabado com Mary Jane (no seu mundo) e que se vê forçado a encontrar de novo o seu heroísmo para impedir o plano alucinado e perigoso de Kingpin.

A grande estrela do filme é, no entanto, a animação. A Nova-Iorque de Morales é uma fusão entre a fluidez da animação perfeita em 3-D com rasgos de cor que fazem lembrar, a espaços, as tintas de um graffiti, o pontilismo típico das revistas de BD à antiga e o frenesim electrónico e distorcido de uma realidade a ser sufocada por outras dimensões. Juntamos a isto os diferentes estilos de animação de cada uma das versões do nosso herói e temos aqui o que devia ser uma enorme salganhada. Mas não é. Nunca é. Mesmo nos momentos mais caóticos de batalha, a incansável inventividade do estilo visual nunca afasta o espetador da narrativa. Apenas a realça. E melhora.

Vou parar por aqui antes de correr o risco de começar a revelar demasiado sobre o filme e estragar as várias (óptimas) surpresas que ele nos oferece, terminando com uma nota sobre outro dos pontos mais fortes de “Homem-Aranha: No Universo Aranha” – o seu sentido de humor. Um filme de super-heróis com piada é tudo menos uma novidade (principalmente no Universo Marvel) mas este é um pouco diferente. Mais do que apenas se apoiar em tiradas sarcásticas, o humor aqui é mais inocente e emocional. Cada riso que nos rouba está fundado nos laços que criamos com as personagens. Uma decisão tão ou mais arrojada que os seus fantásticos floreados visuais.

 

Roma

O génio na simplicidade.

 

Título original: Roma (MEX, EUA – 2018)
Realizador: Alfonso Cuarón
Argumento: Alfonso Cuarón
Protagonistas: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey

Durante um momento de convívio familiar durante o dia de Natal, a minha irmã começou a falar espontaneamente de como tinha adorado “Roma”. Partilhámos cenas favoritas, discorremos sobre a beleza da fotografia, concordámos sobre como a sua genialidade derivava da sua simplicidade. Mas algo muito específico aconteceu que me fez aperceber que este era, provavelmente, o filme do ano – mal a minha irmã mencionou o nome do filme, todo o meu corpo se arrepiou com a memória do mesmo. “Roma” é, muito simplesmente, uma obra-prima.

Inspirado parcialmente pela sua própria infância, Alfonso Cuarón conta aqui a história de uma família mexicana de classe média a viver nos anos 70, num período de grandes revoluções sociais e políticas. O foco é dado, no entanto, ao ponto de vista da empregada de casa, Cleo, interpretada de forma absolutamente brilhante pela estreante Yalitza Aparicio.

O modo subtil como Cuarón retrata a relação entre Cleo e a família para a qual trabalha é o coração que faz “Roma” bater. De cena em cena, vamos compreendendo que há um carinho genuíno entre todos os envolvidos, ainda que a relação não esteja necessariamente em pé de igualdade. Num momento, Cleo senta-se a ver televisão com a família e é acolhida com um abraço distraído mas empático, e, no segundo seguinte, é enviada embora para lhes ir buscar chá.

Este desnível social nunca é escondido mas, ao mesmo tempo, nunca é assumido com uma barreira intransponível. “Roma” oferece-nos um retrato de amor incondicional como poucos alguma vez vistos no cinema. Nas mãos de qualquer realizador mediano, estas cenas de interação familiar podiam soar intensamente falsas. Mas, em “Roma”, nunca são mais do que o espelho sem filtro da mais pura das verdades.

A ajudar ao contar desta história simples, temos uma cinematografia que nos faz, a tempos, suster a respiração, de tão bela. Cuarón assume aqui também as responsabilidades de diretor de fotografia e o resultado é impressionante. Para além da sublime estética dos contrastes de luz na fotografia a preto e branco, temos também vários momentos em que os movimentos deliberados da câmara nos transportam para o coração da cena. Ficou-me especialmente cravada na memória a cena em que o drama pessoal de Cleo se cruza com as revoltas estudantis que faziam tremer o México, nos anos 70.

“Roma” é o que acontece quando um dos realizadores mais visualmente brilhantes da atualidade usa todos os seus poderes para contar a mais simples das histórias. É uma carta de amor à sua família, à sua empregada, à memória de uma infância conturbada mas, em última instância, feliz. É o ponto alto da carreira de Cuarón. Tive dificuldades em encontrar as palavras para descrever adequadamente o que senti quando o vi. Fica o arrepio.

 

Viúvas

Uma grande história de crime… e muito, muito mais.

 

Título original: Widows (UK, EUA – 2017)
Realizador: Steve McQueen
Argumento: Gillian Flynn, Steve McQueen
Protagonistas: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki

Quando ouvi que Steve McQueen ia realizar uma história de crime, com várias cenas de ação pelo meio, a minha primeira reação foi de estranheza. Adorei todos os outros filmes do realizador britânico (“Fome”, “Vergonha” e “12 Anos Escravo”), mas este parecia estar tão longe da sua zona de conforto que não consegui evitar alguma sensação de desconfiança. Depois de ver “Viúvas”, a lição aprendida é que nunca se deve duvidar de talento.

Neste clássico moderno, um grupo de mulheres vê-se envolvida no mundo clandestino do crime, depois dos seus maridos criminosos morrerem durante um assalto. Confrontadas com a obrigação de pagar a dívida dos seus ex-parceiros, as mulheres decidem, relutantemente, planear outro grande assalto. Toda esta trama, já de si relativamente complexa, é contada no contexto de uma campanha política local que ameaça revelar vários segredos obscuros da vida nas ruas de Chicago.

Uma das principais razões para o sucesso deste filme passa pelo seu impossivelmente recheado elenco. Desde grandes estrelas a veteranos do teatro e do ecrã, não há um frame que seja que não esteja a transbordar de talento em cena. Entre estes destacam-se especialmente Viola Davis, Elizabeth Debicki e Daniel Kaluuya. Curiosamente, os três destacam-se por razões que não têm tanto a ver com habilidade técnica mas antes com pura presença em cena. Viola Davis está imperial como a líder do recém-formado grupo de assaltantes. Elizabeth Debicki, do alto dos seus 1,90m, consegue a proeza de parecer imponente e vulnerável ao mesmo tempo. E Daniel Kaluuya enche a tela nas cenas em que entra, dominando os seus adversários como um predador a brincar com a sua presa.

A ajudar estas performances temos o sempre original olhar de Steve McQueen atrás da câmara. “Viúvas” tem os elementos clássicos de uma história de crime e ação, sim, mas o realizador inglês acrescenta sempre algo mais na sua construção de planos, introduzindo vários close-ups apertados dos seus protagonistas e sequências quase lânguidas em que parece fascinado pelos movimentos dos corpos dos seus protagonistas – de uma forma curiosa em que transita entre o fascínio romântico (ou até mesmo sexual) e a pura curiosidade biológica, como se estivéssemos a ver um documentário sobre o corpo humano. O facto de isto ser feito sem nunca comprometer o ritmo da narrativa é apenas mais uma prova do talento de McQueen.

Por fim, não queria deixar de elogiar aquele que será um dos melhores argumentos deste ano de cinema. Escrito por Gillian Flynn (“Gone Girl”) e McQueen, este texto partiu de uma série britânica clássica, dos anos 80, e acrescentou-lhe toques de modernidade brilhantes. Desde uma mensagem sobre a luta das mulheres por um lugar no topo da “cadeia alimentar” ao mundo da corrupção na política urbana, passando por um comentário sobre o racismo omnipresente nas forças de autoridade, “Viúvas” consegue juntar camadas por cima de camadas de significado sem nunca se tornar num sermão.

Acima de tudo, é profunda e completamente cativante. A cada decisão dos protagonistas que nos fazem pensar que já sabemos para onde a narrativa vai caminhar, somos apanhados de surpresa com mais uma guinada brusca no guião. Este filme manteve a minha atenção durante cada segundo da sua duração. E é só isso que lhe posso pedir. Tudo o resto é um bónus.

 

A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha

Lisbeth Salander está de volta. Mas será mesmo ela?

 

Título original: The Girl In The Spider’s Web (UK, GER, SWE, CAN, EUA – 2018)
Realizador: Fede Alvarez
Argumento: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight
Protagonistas: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield

Depois de uma pequena saga nos bastidores de Hollywood para a continuação da saga Millenium, de Stieg Larsson, no grande ecrã, os detentores dos direitos de adaptação dos livros decidiram saltar os restantes capítulos da trilogia e saltar para o quarto volume, já escrito por David Lagercrantz. O resultado, “A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha”, é muito semelhante ao livro que o inspirou – interessante e executado de forma competente, mas estranhamente desligado da essência da saga que pretende continuar.

Começando pelo trabalho dos atores, a avaliação possível é, como quase todo o filme, mista. Lakeith Stanfield transpira carisma, mas interpreta um agente americano que parece relativamente desnecessário à narrativa, Sverrir Gudnason é competente como Mikael Blomqvist mas mal é utilizado e Sylvia Hoeks é interessante mas não espetacular no seu papel (que não vou revelar).

Mas o grande foco desta história é Claire Foy e, no que respeita ao seu trabalho como atriz, não há nada a apontar. Foy é uma estrela emergente e brilha no seu papel, como tem feito em basicamente todos os seus desempenhos recentes. O problema é mesmo o que lhe deram para fazer.

Não tenho nada contra personagens evoluirem – é um processo natural da criação de uma narrativa. Mas o que fizeram com Lisbeth Salander não faz grande sentido. Lisbeth fala mais neste filme que em qualquer outro, partilha emoções e assume-se cada vez mais como uma heroína. É construída à imagem das anti-heroínas modernas que têm vindo a popular tanta da cultura pop nos últimos anos. Mas isso não é a Lisbeth Salander. Se vão mudá-la tão radicalmente, tem de haver algum contexto para essa mudança. Devem ter saltado essas páginas do guião.

Adicionalmente, houve um esforço declarado para sexualizar a personagem de uma forma que nunca tinha acontecido, chegando ao ponto de várias vezes sugerirem nudez sem a mostrar com o claro intuito de criar titilação no espetador. A própria caracterização de Claire Foy deixa, à falta de melhor expressão, demasiada da sua beleza natural transparecer no ecrã. Lisbeth Salander é uma personagem muito complexa, com inúmeras facetas na sua personalidade – “sex symbol” nunca foi uma delas.

O realizador uruguaio, Fede Alvarez – que já tinha recebido elogios da crítica pelo seu trabalho em “Don’t Breathe” – mostra aqui ter boa mão na coreografia de cenas de ação. Ao longo de todo o filme, somos brindados com sequências de fina execução técnica – desde entusiasmantes perseguições automóveis a excitantes cenas de luta. A câmara ataca estas cenas com grande criatividade visual e ajuda a construir momentos memoráveis de ação.

O problema? Isso não tem nada a ver com esta saga… A obra de Stieg Larsson é caracterizada pela tensão que existe entre uma mulher rejeitada pela sociedade e as constantes ameaças à sua vida que a rodeiam. É um comentário sobre a podridão que se esconde por trás do brilho falso com que pintamos a nossa vida. Este reboot da saga parece estar mais interessado em torná-la a nova “Missão Impossível”. O resultado é um filme estranhamente desligado da sua fonte de inspiração. Mau? Não. Há uma boa dose de talento no ecrã. Mas podia ser tão, tão melhor.

 

O Primeiro Homem na Lua

Uma viagem intensa e visceral, ainda que um pouco fria.

 

Título original: First Man (EUA – 2018)
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Josh Singer
Protagonistas: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke

“O Primeiro Homem na Lua” é o tipo de filme que já não se faz. Numa era em que a indústria de Hollywood só parece ter espaço para fazer enormes blockbusters ou pequenas obras de cinema indie com um orçamento de uma ida à mercearia, Damien Chazelle usou a celebridade que conquistou com o seu Óscar de Melhor Realizador (por “La La Land”) para dar vida a este filme de orçamento robusto (mas não titânico) com uma história clássica para contar.

Para esse efeito rodeou-se de um grupo de atores talentosos, com destaque para o sempre sólido Jason Clarke, a impossivelmente cativante Claire Foy e, acima de tudo, Ryan Gosling, que despe toda a sua performance de qualquer espécie de artifício e encarna esse homem invulgar que foi Neil Armstrong: um cientista profissional e muito reservado – incapaz, por vezes, de lidar com a fama inescapável da mediática missão de chegar primeiro à Lua.

A decisão de concentrar tanto do filme na desconstrução interna de uma personagem conhecida por (quase) nunca revelar os seus sentimentos é bastante curiosa. Poucos teriam criticado Chazelle se ele tivesse amplificado os momentos dramáticos para dar mais “força” às cenas entre Neil e os que os rodeiam, mas a contenção que o jovem realizador mostrou em não cair nessa tentação prova a confiança suprema com que atacou este projeto.

Dito isso, é curioso que uma das melhores decisões criativas deste filme é também a que criou um “limite” ao seu potencial. Ou seja, admirável que é a escolha de mostrar Neil Armstrong como ele era – contido, estóico, sem paciência para opiniões sem fundamentação científica –, é inegável também que isso torna “O Primeiro Homem na Lua” um filme moldado à imagem do seu protagonista: interessante – importante até – mas, em última instância, um pouco frio.

Mas, se é legítimo dizer que este não é um filme genial, é importante apontar que não deixa de ser muito, muito bom. E uma das grandes razões para isso está na sua execução técnica. O design de produção, principalmente nas cenas dentro dos foguetões, é brilhante. A isso, junta-se uma técnica de filmagem muito “realista”, com a câmara dentro das cápsulas exíguas em que os astronautas eram enfiados, criando uma sensação palpável de claustrofobia. A cada chocalhar de um parafuso, a cada ensurdecedor ribombar das finas placas de metal que os protegiam do letal e gelado vazio do espaço, percebemos o quão improvável o sucesso desta missão foi.

Gostaria de terminar uma nota sobre o contexto histórico deste filme. Apesar de ser, em parte, uma celebração do feito inacreditável da NASA, Damien Chazelle nunca torna o seu filme um mero ato de auto-elogio patriótico – chegou até a ser criticado por isso mesmo antes do filme ser lançado. “O Primeiro Homem na Lua” guarda espaço para mostrar as críticas de ativistas sociais ao dinheiro gasto pelo programa espacial, as hesitações dos organismos políticos que o financiavam e até o quanto este feito foi motivado por pura mesquinhez geopolítica.

O que o filme nunca faz é dar voz ao contigente de “peritos” da Internet que tentam argumentar que nunca fomos à Lua e que isto foi tudo um embuste filmado pelo Stanley Kubrick. Para os cinéfilos que partilhem dessas ideias, recomendo a obra de Mike Judge inspirada nas suas vidas: “Terra de Idiotas”.