CRÍTICAS

Hanna

Um interminável jogo do gato e do rato.

 

Título original: Hanna (EUA – 2019)
Criado por: David Farr
Argumento: David Farr (adaptado do filme “Hanna” (EUA – 2011))
Actores: Esme Creed-Miles, Mireille Enos, Joel Kinnaman
Canal: Amazon Prime

Com o primeiro teaser lançado em Fevereiro, está agora disponível desde o final de Março, na Amazon Prime, a adaptação para série do filme de 2011: Hanna. O filme original, protagonizado pela brilhante Saoirse Ronan, é uma obra de arte extra sensorial, com uma excelente cinematografia e hipnotizante música, composta em exclusivo para o filme por nada mais nada menos que a dupla The Chemical Brothers. O filme terá sido ofuscado pelo sucesso de The Hunger Games: Os Jogos da Fome em 2012 que, na verdade, o precede. Confesso que este filme passou-me completamente ao lado no início da década e que só recentemente o encontrei. Porém é agora um dos meus preferidos. Foi então com entusiasmo que abracei esta adaptação pela Amazon Prime. O filme sempre pediu mais, deixou muito por contar e é perfeitamente natural que se tenha sentido a necessidade de estender a história a uma série. A questão era se a série lhe faria justiça…

Hanna (Esme Creed-Miles) não é uma rapariga normal. Criada em completo isolamento pelo pai Erik (Joel Kinnaman) nas profundezas da floresta polaca, foi treinada desde cedo para sobreviver nas condições mais extremas, com um regime de elite militar. Com apenas 15 anos, Hanna é uma arma letal. No entanto, as circunstâncias misteriosas do seu passado começam a suscitar conflitos na mente da adolescente: o que aconteceu realmente à sua mãe, quem são esses outros que lhe querem fazer mal? Desobedecendo pela primeira vez ao pai, envereda para lá dos limites da floresta. Claro que este ato de rebeldia traz as suas consequências e o mundo de Hanna muda radicalmente de utopia idílica e pacífica a um interminável jogo do gato e do rato, tendo como palco o caos do mundo civilizado. No seu encalço está Marissa Wiegler (Mireille Enos), uma determinada agente da CIA que não olhará a meios para abafar um segredo obscuro do passado e fará de tudo para garantir que não venha a público. Hanna acaba por ficar cativa e é na sua fuga que depara com Sophie (Rhianne Barreto) e a sua família. que estão de férias em Marrocos. Sophie, fascinada pela desadaptação social e natureza temerária de Hanna, fará o papel de “moral compass” num mundo que Hanna não entende e onde deambula como um recém-nascido.

A série, tal como o original, consegue-nos transmitir um bom mix de acção e profundidade emocional. Tem a quantidade certa de drama e teenage-angst. Também é importante destacar a banda sonora que, conta com excelentes escolhas, destacando a música “Anti-Lullaby”de Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs. Apesar do tema de espionagem e teorias da conspiração governamentais normalmente serem perigosos no sentido de poder cair no repetitivo e no cliché, nenhuma personagem o é. Não existem completamente bons e maus da fita, todos têm os seus esqueletos no armário. Também de destacar os cenários europeus e todos os diferentes sotaques e idiomas, que só tornam a série ainda mais interessante.

Infelizmente fica um pouco aquém do original. Hanna podia perfeitamente estar no pódio das “badass girls” juntamente com KatnissEleven e Hit-Girla história é apelativa e Esme Creed-Miles já provou que aguenta o papel, basta que seja bem trabalhado. Talvez um novo realizador. Talvez numa segunda season.

Esta primeira season termina, como é óbvio, em aberto e ficamos na expectativa do desenrolar dos eventos. Hanna, confrontada com a realidade da própria existência, já não é um animal selvagem que ataca tudo o que a ameaça indiscriminadamente. Aprendeu agora o seu lugar no mundo e penso que será interessante ver até onde levam a história, já que uma continuação seria muito mais do que um remake do filme.

Já agora, fica obviamente a recomendação para darem um olhinho ao filme que inspirou esta série: é realmente 5 estrelas!

 

Não é Tão Romântico

Viver dentro de uma comédia romântica pode não ser tão divertido como pensávamos.

 

Título original: Isn’t It Romantic (USA – 2019)
Realizador: Todd Strauss-Schulson
Argumento:
Erin Cardillo, Dana Fox
Actores: 
Rebel Wilson, Liam Hemsworth, Adam Devine
Canal: Netflix

Todos conhecemos a típica premissa de uma comédia romântica: a protagonista, patinho feio da escola ou do escritório onde trabalha, passa por uma total make over e torna-se a mulher mais desejada lá do sítio; o rapaz mais giro e popular acaba por se apaixonar por ela, envolvem-se, e é tudo unicórnios e arco-íris até que ela descobre que, afinal, o seu verdadeiro amor é o tipo baixinho e um bocado nerd que passava a vida atrás dela. Ora, com maiores ou menores variações na história, este tipo de filmes preenchem os nossos domingos à tarde desde que nos conhecemos, e são uma das galinhas dos ovos de ouro preferidas de Hollywood. A razão é simples: são divertidos, alegres, as protagonistas costumam ser super fofinhas e distraídas e fazem-nos rir quando caem por tudo e por nada, os seus interesses amorosos são sempre giríssimos (mesmo os mais nerds), têm sempre finais felizes e deixam-nos bem dispostos. Por isso mesmo, não há mal nenhum em ver e gostar de comédias românticas – há que encará-las como um bom gelado de chocolate, que serve para nos esquecermos que a vida não é cor-de-rosa mas, durante o bocadinho em que dura o gelado ou o filme, parece mesmo ser.

Na vida de Natalie (Rebel Wilson) as comédias românticas não tinham lugar – nem mesmo como guilty pleasure. A protagonista de “Não é Tão Romântico” era apenas uma criança quando a mãe a desencantou totalmente desses filmes, avisando-a que o mundo encantado do amor, da sorte e das coisas bonitas não estava destinado a raparigas pobres e cheiinhas, como elas. Natalie tornou-se então uma mulher super terra-a-terra, desligada do amor e das relações, conformada com um emprego como arquiteta de parques de estacionamento, embora sempre tivesse sonhado em desenhar incríveis e imponentes edifícios. Até que, de repente, cai e bate com a cabeça – e o seu mundo torna-se uma autêntica comédia romântica, onde tudo corre bem e ela é uma mulher bonita, desejada e valorizada no trabalho. O que seria o sonho de quase toda a gente, mas não de Natalie, que fica enjoada irritada com todo o cor-de-rosa à sua volta.

“Não é Tão Romântico” é um filme engraçado e divertido, que desconstrói os mitos das comédias românticas pelo olhar da super espirituosa Rebel Wilson (uma das mais promissoras atrizes cómicas da sua geração), mesmo sendo, ironicamente, também uma comédia romântica – e talvez aí é que esteja toda a piada do filme. É que não deixam de acontecer peripécias dignas de uma “rom com” de domingo à tarde, mas a protagonista percebe, tal como nós, que afinal o raio dos clichés destes filmes acontecem mesmo na vida real, e podemos escolher ficar irritados com isso ou rir de todo o ridículo da situação.

Disponível na Netflix, “Não é Tão Romântico” é, lá está, uma ótima opção de filme para acabar o domingo a rir, e perceber que as comédias românticas não são assim tão más.

 

Captain Marvel

A primeira heroína a solo num filme da Marvel? Anos 90? Shapeshifters? Um gato? Que mais podemos possivelmente querer?! 

 

Título original:Captain Marvel (EUA – 2019)
Realizador:Anna Boden, Ryan Fleck
Argumento:Anna Boden, Ryan Fleck
Actores: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Jude Law

Vers (Brie Larson) é uma guerreira de elite que vive em Hala, capital dos Kree, uma raça alienígena governada por um entidade misteriosa e incontestável: a Supreme Intelligence. Tem como mentor Yon-Rogg (Jude Law) que a treina nas artes do combate e a controlar o extraordinário poder que possui: punhos que disparam energia tão poderosa que um só golpe deixa qualquer um por terra. Com a primeira missão oficial fora do planeta dá de caras com a raça inimiga dos Kree: os Skrull e o seu líder Talos (Ben Mendelsohn). Lagartos humanoides e exímios metamorfos que se infiltram nas sociedades e as destroem a partir de dentro (inspirados nas divertidas teorias da conspiração que correm pelo lado mais estranho do Youtube, Iluminati incluídos e etc, talvez?). Entre capturas, muita pancada e inúmeros flash-back de uma vida passada quenão recorda, acaba por se despenhar no planeta primitivo C-53. Descobre então que na verdade o seu nome é Carol Danvers e acaba de chegar ao planeta onde nasceu: o Planeta Terra.Corre o ano de 1995 e deparar-se-á com todas aquelas coisas dos anos 90 que recordamos com saudosa nostalgia: a Blockbuster, The Fresh Prince of Bel-Air, Space Invaders,camisas de flanela atadas à cintura e outras não tanto como modems por telefone e o Windows 95… Carol Danversterá de proteger os humanos da invasão dos Skrullcom a ajuda de algumas caras conhecidas como o rookie Agent Coulson (Clark Gregg), o carismático Nick Fury (Samuel L. Jackson) e um… gato?!

Brie Larson, apesar de toda a controvérsia gerada fora do ecrã,é uma perfeita escolha para representar a primeira heroína a solo da Marvel, contando já com um bom reportório comoa excelente atuação no filme Roomem 2015 que lhe rendeu um Oscar e um Globo de Ouro de Melhor Atriz.

É difícil evitar compará-la a outra heroína que fez a sua debut recentemente:Wonder Woman. Na verdade têm pouco em comum à parte do facto de serem mulheres. A heroína amazona foi criada nos anos 40 e chocou a sociedade profundamente patriarcal da altura acostumada a heróis ultra masculinos e os seus comics apesar de controversos sobreviveram muito tempo. Já a Captain Marvel é muito mais recente e espelha a sociedade mais moderna em que não necessitamos de role modelsfemininos que transpiram perfeição. É nisso que a DCfalha no seu típico exagero das cenas CGIcom cabelos longos ondulantes, planos de fatiotas que abraçam as curvas de Gal Gadot e uma perfeição inalcançável a meras mortais. A personagem perde profundidade e por consequência é inconsistente. Não me interpretem mal: a Wonder Womané uma excelente heroína mas o que me cativa mais com a Captain Marvelé que é da sua perseverança que extrai a força e francamente, como mulher moderna, identifico me muito mais com este modelo que algumas mentes fechadas acusam de propaganda feminista. Tentemos apreciar este filme pela sua excelente produção e interpretação, políticas à parte. Quem diria que a I’m Just a Girl dos No Doubtpoderia ser a música perfeita para uma cena épica de kick ass?

Numa nota à parte um aplauso à belíssima dedicação a Stan Lee nos primeiros segundos do filme com o logo da Marvel Studio imortalizando-o como um herói de carne e osso com a frase “Thank you Stan”. Excelsior!

 

Fevereiros

Maria Bethânia é o Brasil que é o Carnaval

 

Título original: Fevereiros (BRA – 2017)
Realizador: Marcio Debellian
Argumento: Marcio Debellian, Diana Vasconcellos
Actores:Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque de Hollanda, Leandro Vieira.

Em 2016, A Mangueira, uma das mais prestigiadas escolas de samba do Brasil, homenageou os 50 anos de carreira da cantora Maria Bethânia, convidando-a para ser a rainha do seu desfile de Carnaval. A consagração à ilustríssima baiana, arrebatou júris e público no Sambódromo do Marquês de Sapucaí e a Mangueira venceu mais um desfile de carnaval.

Fevereiros não propõe explicar esta expressão maior de Brasilidade que é o Carnaval ou mostrar como se concebe, desenha e põe em cena um desfile, o que por si seriam tarefas interessantíssimas. Marcos Debellian está mais interessado nas origens e na vida espiritual da cantora e nos paralelos entre a identidade da “Menina dos Olhos de Oyá” e a identidade/religiosidade do próprio Brasil.

Apesar de ser um documentário clássico, no sentido em que emprega sobretudo um modo expositivo, o filme evita a linearidade e a previsibilidade, recorrendo a imagens de arquivo, música, muita cor, movimento e grande enfoque na palavra, para criar sequências poéticas que permeiam entrevistas mais clássicas por partes de figuras como Caetano, Chico e mesmo Jorge Amado.

Os meros 75 minutos do filme dividem-se entre duas geografias distintas e também dois tempos, o do desfile e os muitos passados da cantora. Santo Amaro, na Bahia, onde Maria Bethânia nasceu e onde faz questão de estar a cada fevereiro para a festa da nossa senhora da Purificação, é o palco dominante, mas a cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, onde tem lugar o histórico desfile das escolas de samba, está sempre presente. Assim como estão também, de forma muito leve, uma contextualização histórica do aparecimento dos desfiles e a sua importância política – afinal, tanto o samba como o Candomblé foram proibidos e os seus intervenientes perseguidos.

Maria Bethânia e Caetano Veloso levam-nos até à sua “meninice”, para dentro da sua casa e o seio da sua família, para pensar sobre como a religião afro-brasileira foi incorporada nas suas vidas a um nível pessoal, profundo, político. Uma das forças do filme é partir do pessoal e mesmo íntimo, para ser uma ode a uma certa ideia de Brasil, onde o espiritismo e o catolicismo, o pré e o pós-modernismo, o sincretismo e o holismo, andam de mão em mão, sem que nenhum limite ou prevaleça sobre o outro.

Fevereiros é um documentário belo e precioso sobre a complexidade e a diversidade dum Brasil que se questiona, se reaprende e pode renascer a cada Carnaval.

 

Alita: Anjo de Combate

Um mundo cyberpunk pos apocalíptico recheado de acção e fiel ao manga original.

 

Título original: Alita: Battle Angel (EUA – 2019)
Realizador: Robert Rodriguez
Argumento: James Cameron, Laeta Kalogridis
Actores: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Jennifer Connelly

O ano é 2563. Das cidades flutuantes que precederam a terrível guerra apocalíptica conhecida como “The Fall”, apenas Zalem resistiu. Por debaixo desta está Iron City, uma cidade fabricada pelo lixo largado pela cidade do céu. O Doutor Dyson Ido (Christoph Waltz) é um cientista especialista em cyborgs. Numa das suas buscas por peças no ferro-velho, depara-se com o corpo despedaçado de um cyborg feminino, dando-lhe o corpo mecânico e nome da sua filha assassinada. Alita (Rosa Salazar) não tem qualquer memória da sua vida passada e vê o mundo pelos olhos inocentes de uma criança. Trava uma amizade especial com o rebelde Hugo (Keean Johnson) que a introduz ao perigoso e popular jogo de Motorball (um misto de basquetebol, Killer Derby e Battle Royale jogado por cyborgs destemidos). Nesta cidade de realidade cyberpunk onde a lei do mais forte predomina, o crime é controlado por Hunter-Warriors (caçadores de recompensas). É numa dessas caçadas que Alita descobre que é muito mais do que apenas um cyborg largado no lixo. A inocente criança é na verdade uma jovem adulta guerreira que descende de uma linhagem de heróis de Marte, e lutar é o que sabe fazer melhor.

Do mesmo homem por detrás de clássicos como Titanic, Exterminador Implacável, Aliens: o Recontro Final e Avatar, chega-nos agora esta adaptação para a grande tela do manga criado por Yukito Kishiro em 1990. James Cameron é um mestre contador de histórias e em conjunto com o realizador Robert Rodriguez, faz mais do que justiça a esta história que apesar de não ter sido um sucesso de bilheteira aquando da sua estreia no Dia de São Valentim, deixou todo o séquito de fãs dedicados a chorar por mais. Por aqui ficamos à espera de que o filme tenha mais sucesso nas próximas semanas, já que disso depende a já tão aguardada sequela. Ficou muita coisa por contar. Conseguirá Alita subir a Zalem e cumprir a sua missão interrompida? Quem é o misterioso vilão Nova (Edward Norton) que a observa desde lá do alto?

 

O Método Kominsky

Quem já tinha saudades de uma boa comédia negra, ponha as mãos no ar!

 

Título original: The Kominsky Method
Criado por: Chuck Lorre
Argumento: Al Higgins, David Javerbaum, Chuck Lorre
Actores: Michael Douglas, Alan Arkin, Sarah Baker
Canal: Netflix

Se há algo que, ultimamente, tenho sentido falta na televisão e no cinema, é do humor de figuras como Woody Allen e Larry David, sempre extremamente cáusticos e sem papas na língua. Mas, felizmente, a primeira temporada da série “O Método Kominsky”, lançada em 2018 nos Estados Unidos, chegou à nossa Netflix, para nos deixar de barriga cheia de delicioso humor negro.

A produção é de Chuck Lorre, responsável por alguns dos maiores sucessos televisivos dos nossos tempos, como “Dois Homens e Meio” e “Dharma & Greg”, e argumentista de tantos outros, como “A Teoria de Big Bang”. O nome do produtor é desde logo uma boa promessa – o que se vem a confirmar na série. De facto, episódio após episódio, notamos a assinatura de Chuck Lorre na fluidez da narrativa, nos diálogos, simples mas sempre muito bem escritos, e num humor tão refinado como certeiro. Para quem aprecia especialmente a arte da escrita de um bom diálogo, durante a série é difícil resistir a não anotar as deixas num caderninho, e sonhar um dia ser capaz de escrever pérolas semelhantes.

Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Série de Comédia de 2018, “O Método Kominsky” é bem capaz de ser uma das melhores séries de comédia agora disponíveis na Netflix. Um sucesso que, além da produção e do argumento, se deve, em muito, aos seus protagonistas: Michael Douglas, no papel do professor de representação Sandy Kominsky – pelo qual ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia –, e Alan Arkin, o seu melhor amigo e agente Norman Newlander. A dinâmica entre os dois não podia ser melhor: enquanto Sandy se recusa a crescer e admitir que caminha, a passos largos, para a velhice – continuando a ter namoradas excessivamente mais novas e recusando-se a visitar os amigos que vão padecendo das doenças típicas da idade –, Norman é clássico resmungão, frustrado com o mundo e as mudanças que não compreende. Norman tem sempre a punchline perfeita para rematar uma situação infeliz, especialmente quando se trata de gozar com as ilusões do amigo, Sandy. É sobretudo nas deixas dele que reside a genialidade da série, e do humor negro que já faltava nas nossas televisões. É uma personagem tão bem construída que nos deixa a desejar que, à semelhança de “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, a seguir possamos ter direito a um “O Método Newlander”.

Mas regressemos a Michael Douglas. É deveras agradável ver o ator, em tempos protagonista de tantos mega projetos de Hollywood, a dar largas ao seu talento novamente, num palco que só partilha com Alan Arkin. Michael Douglas é, por natureza, tão natural e simples que parece sempre que fala connosco através do ecrã – e isso não podia ser melhor, numa série que se quer real e intimista.

Ao “dynamic duo” Michael/Alan junta-se ainda Nancy Travis (conhecida, por exemplo, pelo seu papel como a esposa de Tim Allen em “Um Homem Entre as Mulheres”), que interpreta Lisa, o interesse amoroso de Sandy e também o seu novo desafio: já que Lisa não se deixa enganar facilmente pelo charme do professor como as suas ingénuas alunas. Os seus momentos de interação com Sandy, são, por isso, momentos altos da série.

E falta ainda falar de Sarah Baker, a paciente Mindy, filha de Sandy Kominsky, o seu braço direito no que toca a burocracias da sua famosa escola de representação. Conhecemos Sarah de vários pequenos papéis em filmes e séries de Hollywood, mas em “O Método Kominsky” a atriz norte-americana tem finalmente o tempo de antena que merece. Chuck Lorre deixa-a brilhar ao longo da série, e nós ficamos com vontade de a ver em mais séries como esta.

A lamentar em “O Método Kominsky“, só mesmo o reduzido número de episódios: são apenas oito, para tristeza de amantes do género como eu. À medida que se aproxima o final, é como se nos tirassem um rebuçado que custou imenso a encontrar. Mas a boa notícia é que a série vai ter segunda temporada – por isso não vamos ficar desprovidos de bom humor negro durante muito tempo.