CRÍTICAS

O Método Kominsky

Quem já tinha saudades de uma boa comédia negra, ponha as mãos no ar!

 

Título original: The Kominsky Method
Criado por: Chuck Lorre
Argumento: Al Higgins, David Javerbaum, Chuck Lorre
Actores: Michael Douglas, Alan Arkin, Sarah Baker
Canal: Netflix

Se há algo que, ultimamente, tenho sentido falta na televisão e no cinema, é do humor de figuras como Woody Allen e Larry David, sempre extremamente cáusticos e sem papas na língua. Mas, felizmente, a primeira temporada da série “O Método Kominsky”, lançada em 2018 nos Estados Unidos, chegou à nossa Netflix, para nos deixar de barriga cheia de delicioso humor negro.

A produção é de Chuck Lorre, responsável por alguns dos maiores sucessos televisivos dos nossos tempos, como “Dois Homens e Meio” e “Dharma & Greg”, e argumentista de tantos outros, como “A Teoria de Big Bang”. O nome do produtor é desde logo uma boa promessa – o que se vem a confirmar na série. De facto, episódio após episódio, notamos a assinatura de Chuck Lorre na fluidez da narrativa, nos diálogos, simples mas sempre muito bem escritos, e num humor tão refinado como certeiro. Para quem aprecia especialmente a arte da escrita de um bom diálogo, durante a série é difícil resistir a não anotar as deixas num caderninho, e sonhar um dia ser capaz de escrever pérolas semelhantes.

Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Série de Comédia de 2018, “O Método Kominsky” é bem capaz de ser uma das melhores séries de comédia agora disponíveis na Netflix. Um sucesso que, além da produção e do argumento, se deve, em muito, aos seus protagonistas: Michael Douglas, no papel do professor de representação Sandy Kominsky – pelo qual ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia –, e Alan Arkin, o seu melhor amigo e agente Norman Newlander. A dinâmica entre os dois não podia ser melhor: enquanto Sandy se recusa a crescer e admitir que caminha, a passos largos, para a velhice – continuando a ter namoradas excessivamente mais novas e recusando-se a visitar os amigos que vão padecendo das doenças típicas da idade –, Norman é clássico resmungão, frustrado com o mundo e as mudanças que não compreende. Norman tem sempre a punchline perfeita para rematar uma situação infeliz, especialmente quando se trata de gozar com as ilusões do amigo, Sandy. É sobretudo nas deixas dele que reside a genialidade da série, e do humor negro que já faltava nas nossas televisões. É uma personagem tão bem construída que nos deixa a desejar que, à semelhança de “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, a seguir possamos ter direito a um “O Método Newlander”.

Mas regressemos a Michael Douglas. É deveras agradável ver o ator, em tempos protagonista de tantos mega projetos de Hollywood, a dar largas ao seu talento novamente, num palco que só partilha com Alan Arkin. Michael Douglas é, por natureza, tão natural e simples que parece sempre que fala connosco através do ecrã – e isso não podia ser melhor, numa série que se quer real e intimista.

Ao “dynamic duo” Michael/Alan junta-se ainda Nancy Travis (conhecida, por exemplo, pelo seu papel como a esposa de Tim Allen em “Um Homem Entre as Mulheres”), que interpreta Lisa, o interesse amoroso de Sandy e também o seu novo desafio: já que Lisa não se deixa enganar facilmente pelo charme do professor como as suas ingénuas alunas. Os seus momentos de interação com Sandy, são, por isso, momentos altos da série.

E falta ainda falar de Sarah Baker, a paciente Mindy, filha de Sandy Kominsky, o seu braço direito no que toca a burocracias da sua famosa escola de representação. Conhecemos Sarah de vários pequenos papéis em filmes e séries de Hollywood, mas em “O Método Kominsky” a atriz norte-americana tem finalmente o tempo de antena que merece. Chuck Lorre deixa-a brilhar ao longo da série, e nós ficamos com vontade de a ver em mais séries como esta.

A lamentar em “O Método Kominsky“, só mesmo o reduzido número de episódios: são apenas oito, para tristeza de amantes do género como eu. À medida que se aproxima o final, é como se nos tirassem um rebuçado que custou imenso a encontrar. Mas a boa notícia é que a série vai ter segunda temporada – por isso não vamos ficar desprovidos de bom humor negro durante muito tempo.

 

Glass

A conclusão de uma trilogia com quase duas décadas de espera.

 

Título original: Glass (EUA – 2019)
Realizador: M. Night Shyamalan
Argumento: M. Night Shyamalan
Actores: James McAvoy, Bruce Willis, Samuel L. Jackson

Night Shyamalan sempre foi um homem controverso. Ou é completamente ridicularizado e mal entendido ou considerado um génio contador de histórias. Seja qual for a opinião que tenhamos, numa coisa temos de concordar: Shyamalan surpreende sempre. Surpreende sempre na medida em que por muito confuso ou estranho tudo pareça, no fim do filme as peças encaixam, seja para um final feliz ou não, mas sempre encaixam e nunca da maneira que tentamos adivinhar.

A conclusão da história que começou em 2000 com O Protegido e continuada em 2016 com Fragmentado, chega-nos quase duas décadas depois, da maneira mais improvável. A película começa como uma típica história de super heróis. O enredo começa com David Dunne (Bruce Willis) já mais velho e confortável no seu papel de justiceiro. Com a ajuda de Joseph, o seu filho, representado curiosamente pelo mesmo ator do primeiro filme da trilogia: Spencer Treat Clark, agora 19 anos mais velho. Juntos tentam descobrir o paradeiro de The Horde, nome pelo qual é conhecido nos meios noticiosos Kevin Crumb (James McAvoy). Esta personagem que foi protagonista no filme Fragmentado continua a sua missão de mostrar ao mundo de forma, digamos, pouco “convencional” que as suas 24 personalidades são reais. O encontro entre os dois, tão cedo no filme, deixa-nos logo com uma desconfiança no peito de que afinal a história não será tão linear como herói encontra vilão e vilão é derrotado… E! Lá está! O confronto de super humanos é interrompido pela chegada da Psicóloga Dr Ellie Staple (Sarah Paulson) que os captura e encarcera num hospício. Aqui encontra David o velho conhecido Elijah Price, Mr Glass (Samuel L. Jackson) mas reduzido a uma cadeira de rodas e em estado vegetativo.

Debaixo do mesmo tecto!  Os três protagonistas, os três super humanos: vilões e heróis. O justiceiro, o animalesco, o cérebro. Começa então o suspense, a dúvida, a incerteza. Temos agora a certeza absoluta de que estamos a ver um filme de Shyamalan: aquele nó no estômago tão familiar de A Vila, de A Visita ou de O Sexto Sentido. Sabem do que falo, certo? Será que tudo não passa de uma ilusão, uma doença do foro mental? Serão mesmo heróis ou apenas ilusionistas acidentais?

Uma personagem secundária, a qual tenho também de destacar é Casey Cooke (Anya Taylor-Joy). O desempenho neste filme é sublime e não fica atrás do anterior. Antes vítima é agora a única ligação emotiva de Kevin Crumb ao mundo real, sem o apoio das muitas personalidades onde se refugia. Tal como Joseph e David, ou Elijah e a sua mãe, representa a única família que lhe resta e que o entende verdadeiramente.

Shyamalan é mestre no timing das cenas: algumas guardadas durante 20 anos! Aprendemos que não são apenas heróis ou vilões, são excepcionais sim, mas com defeitos, dúvidas e fraquezas: são humanos acima de tudo e terão de aprender a acreditar em si mesmos, der o que der.

O culminar desta trilogia não desilude e apesar de talvez não ser o final mais preferido do público. Confesso até que o achei um pouco lento e estranhamente cómico. É o final mais realista e o que faz, na minha modesta opinião de ser humano comum, mais sentido.

 

Colette

Keira Knightley num filme de época. O típico, tal como a história do filme.

 

Título original: Colette (UK, EUA – 2018)
Realizador: Wash Westmoreland
Argumento: Richard Glatzer, Wash Westmoreland, Rebecca Lenkiewicz
Actores: Keira Knightley, Fiona Shaw, Dominic West

Numa época de intensas discussões sobre o tema do feminismo, não podia deixar de vir à baila a figura de Sidonie Grabrielle Colette, uma ousada e polémica escritora francesa do início do século XX. É que Colette – como assinava – teve tudo menos uma vida pacífica, num tempo em que o talento no feminino não era reconhecido e vigorava uma mentalidade machista e castradora. Importa por isso falar de Colette e da sua luta pessoal e profissional – que continua a ser a luta com que muitas mulheres, nos dias de hoje, se debatem -, e é isso que este filme, “Colette”, nos traz.

É Keira Knightley que surge como Colette, em mais uma interpretação num filme de época – nada de novo na sua carreira, depois de a termos visto em “Orgulho e Preconceito”, “Expiação” e na saga de ação e aventuras “Piratas das Caraíbas”. A atriz britânica já provou que é capaz de nos levar em viagens ao passado como ninguém, mas chega a ser algo cansativo ter sempre Keira Knightley como a protagonista deste tipo de filmes. Há mais atrizes em Hollywood, certo? Talvez não se sintam tão confortáveis em corpetes como a eternamente elegante Keira, mas alguém tem de dizer às produtoras norte-americanas e britânicas que há mais carinhas bonitas e talentosas por aí. Questões de casting à parte, o desempenho de Keira é de facto muito competente. A atriz britânica consegue interpretar Colette em toda a sua complexidade, desde o seu lado mais doce e ingénuo ao feroz e determinado olhar que vai ganhando, ao longo da sua (nada fácil) vida. É essa transformação que acompanhamos no filme, que procura ser fiel à biografia da escritora francesa.

Quando Colette casa com um charmoso e carismático “empreendedor literário” – como o próprio se autodenomia -, Willy (Dominic West), ainda não tinha consciência do seu incrível talento para a escrita. É só mais tarde, quando o casal começa a ter problemas de dinheiro, que Colette tenta escrever para ajudar o marido, e o ganancioso empresário percebe que a mulher é uma mina de ouro. Convence-a, depois, que ninguém a levaria a sério se assinasse com o seu próprio nome, por ser mulher, e assume a autoria de uma série de livros inspirados na adolescência e juventude de Colette, e as suas aventuras na descoberta da sexualidade. As histórias de “Claudine”, o nome da protagonista dos livros, tornam-se rapidamente um sucesso em França, mas quem tem a fama e o proveito é Willy.

O filme faz-nos lembrar “Olhos Grandes” (2014), de Tim Burton, outra história verídica de um homem que rouba à mulher a autoria da sua arte – neste caso de incríveis quadros de mulheres, crianças e animais com olhos gigantes – mas “Colette” não consegue transmitir o mesmo fogo e intensidade, e torna-se um ensaio de algo já muito visto no cinema. A narrativa desenvolve-se sem grande suspense e força, num tema que merecia muito mais vida e emoção.

O filme, de Wash Westmoreland, realizador do fantástico “O Meu Nome é Alice” (2014), vale por recuperar uma história que merece ser contada, embora sem o fulgor que merecia.