CRÍTICAS

Roma

O génio na simplicidade.

 

Título original: Roma (MEX, EUA – 2018)
Realizador: Alfonso Cuarón
Argumento: Alfonso Cuarón
Protagonistas: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey

Durante um momento de convívio familiar durante o dia de Natal, a minha irmã começou a falar espontaneamente de como tinha adorado “Roma”. Partilhámos cenas favoritas, discorremos sobre a beleza da fotografia, concordámos sobre como a sua genialidade derivava da sua simplicidade. Mas algo muito específico aconteceu que me fez aperceber que este era, provavelmente, o filme do ano – mal a minha irmã mencionou o nome do filme, todo o meu corpo se arrepiou com a memória do mesmo. “Roma” é, muito simplesmente, uma obra-prima.

Inspirado parcialmente pela sua própria infância, Alfonso Cuarón conta aqui a história de uma família mexicana de classe média a viver nos anos 70, num período de grandes revoluções sociais e políticas. O foco é dado, no entanto, ao ponto de vista da empregada de casa, Cleo, interpretada de forma absolutamente brilhante pela estreante Yalitza Aparicio.

O modo subtil como Cuarón retrata a relação entre Cleo e a família para a qual trabalha é o coração que faz “Roma” bater. De cena em cena, vamos compreendendo que há um carinho genuíno entre todos os envolvidos, ainda que a relação não esteja necessariamente em pé de igualdade. Num momento, Cleo senta-se a ver televisão com a família e é acolhida com um abraço distraído mas empático, e, no segundo seguinte, é enviada embora para lhes ir buscar chá.

Este desnível social nunca é escondido mas, ao mesmo tempo, nunca é assumido com uma barreira intransponível. “Roma” oferece-nos um retrato de amor incondicional como poucos alguma vez vistos no cinema. Nas mãos de qualquer realizador mediano, estas cenas de interação familiar podiam soar intensamente falsas. Mas, em “Roma”, nunca são mais do que o espelho sem filtro da mais pura das verdades.

A ajudar ao contar desta história simples, temos uma cinematografia que nos faz, a tempos, suster a respiração, de tão bela. Cuarón assume aqui também as responsabilidades de diretor de fotografia e o resultado é impressionante. Para além da sublime estética dos contrastes de luz na fotografia a preto e branco, temos também vários momentos em que os movimentos deliberados da câmara nos transportam para o coração da cena. Ficou-me especialmente cravada na memória a cena em que o drama pessoal de Cleo se cruza com as revoltas estudantis que faziam tremer o México, nos anos 70.

“Roma” é o que acontece quando um dos realizadores mais visualmente brilhantes da atualidade usa todos os seus poderes para contar a mais simples das histórias. É uma carta de amor à sua família, à sua empregada, à memória de uma infância conturbada mas, em última instância, feliz. É o ponto alto da carreira de Cuarón. Tive dificuldades em encontrar as palavras para descrever adequadamente o que senti quando o vi. Fica o arrepio.

 

Tudo a Nu na Normandia

Uma comédia dramática que se despe literalmente de preconceitos.

 

Título original: Normandie nue (FRA – 2018)
Realizador: Philippe Le Guay
Argumento: Victoria Bedos, Olivier Dazat
Actores: François Cluzet, François-Xavier Demaison, Julie-Anne Roth

Mêle-sur-Sarthe é uma comuna esquecida na Normandia. Apesar de apenas a duas horas da capital francesa, é lugar que pouca gente conhece. Alí a maior parte dos seus habitantes, que não são muito mais que seis centenas, dedicam-se à pastorícia. Contemporâneos de uma sociedade que cada vez mais diminui o consumo da carne e do leite ou procuram o mais barato e conveniente. Tentam a todo o custo sobreviver com o ofício herdado dos seus antepassados.

Assim começa esta pitoresca comédia dramática francesa, realizada entre os prados verdejantes a perder de vista com as suas vacas que pastam em silêncio envolvidas pela neblina matinal. O novo mundo ameaça o velho e esta comunidade sente-se traída. É terra de gente dura de roer, que não tem medo ao trabalho árduo do campo e com costumes e moral tradicionais profundamente intrínsecas no seu modo de vida. Acreditam que quem se dedica com esmero como eles, merece o fruto do seu trabalho.

Na tentativa de chamar a atenção de uma França que os ignora, decidem bloquear a estrada principal com tratores e molhes de feno. Entram então em cena três americanos que vão a caminho de Paris. Entre eles está Newman, fotógrafo famoso por despir multidões para as suas fotografias não convencionais. Barrados pelos manifestantes, acaba por desviar por estradas secundárias onde encontra finalmente, depois de tanto procurar, o lugar ideal para a sua próxima milionária obra de arte. O local é Champ Chollet, precisamente em Mêle-sur-Sarthe. Comunica então ao mayor da pequena localidade a sua intenção de despir os seus habitantes. O mayor é Georges Balbuzard, interpretado por François Cluzet que por si só já é um veterano da cinematografia francesa. Numa atuação que se destaca entre outros nomes mais desconhecidos, representa na perfeição este homem que faria qualquer coisa pela sua aldeia. Encontra nesta estranha proposta uma oportunidade de ouro para colocá-los no mapa e chamar a atenção do governo francês. Porém depara-se com o maior desafio da sua vida ao tentar convencer os seus conterrâneos de se despir de preconceitos e ficar a nu por uma boa causa.

A quem esteja habituado a filmes hollywoodescos em que toda a ação gira em redor de heróis altos e espadaúdos que embarcam em aventuras tão fantásticas como irrealistas, poderá não conseguir ver a beleza de um filme que conta o quotidiano de uma típica aldeia rural na Normandia. Deparamo-nos com um leque formidável de todo o tipo de pitorescas personagens que decoram a trama, dando-nos aquele gostinho delicioso das vidas simples mas ricas das gentes que vivem da terra. Temos Eugène (Philippe Rebbot), agricultor constantemente despenteado e temperamento volátil, que está a ponto de perder tudo e Maurice (Patrick d’Assumçao) o seu arqui inimigo com o qual tem uma disputa de terras tão antiga quanto a Segunda Guerra Mundial. Ou Gìsele (Lucie Muratet), ex Miss Calvados e agora mulher do talhante Roger (Grégory Gadebois) que ciumento, não consegue aceitar o facto da sua bela mulher se despir em frente dos vizinhos. Também temos a família parisiense, os Levasseur (François-Xavier Demaison e Julie-Anne Roth) que fugindo da confusão da cidade, tentam recomeçar uma vida mais sossegada no campo, apesar da sua filha adolescente Chloé (Pili Groyne) não estar muito satisfeita com a mudança repentina. Ou Vincente (Arthur Dupont), filho do antigo fotógrafo local, que apenas regressa à terra onde nasceu para vender a loja de seu pai e acaba por encontrar bons motivos para ficar.

Numa sociedade mediática como aquela em que vivemos hoje, sabe bem parar o ritmo acelerado dos dias e deixar-nos comover umas vezes, rir outras, com este singelo filme. Deixamos para outra altura os super heróis, os desastres naturais sempre em Nova Iorque e as batalhas épicas de deuses contra titãs. Tentamos agora absorver o simbolismo deste povo de normandos a quem já tiraram tanto que apenas lhes sobra a roupa que levam posta, e mesmo essa despem-na humildemente num último grito desesperado por um modo de vida que poderá ter os dias contados.

 

“Ils ne savent plus le nom des fontaines
Ils ne savent plus la saveur de l’eau
Ils ne savent plus le cri de la chaine
Aux portes des puits à la mérienne

Sauront-ils encore
Un jour nos enfants
Parler aux chevaux
Compter les étoiles”

Ils ne savent plus, François Budet, 1976

 

Eles não sabem já o nome das fontes
Eles não conhecem já o sabor da água
Eles não sabem já o grito da cadeia
Nas portas dos poços da Mérienne

Saberão eles ainda
Um dia nossos filhos
Falar com os cavalos
Contar as estrelas

 

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

A tão aguardada adaptação ao pequeno ecrã de um dos mais recentes fenómenos da literatura contemporânea.

 

Título original: The Truth About the Harry Quebert Affair (EUA – 2018)
Criado por: Jean-Jacques Annaud
Argumento: Joël Dicker (adaptado do livro “The Truth About the Harry Quebert Affair”)
Actores: Patrick Dempsey, Ben Schnetzer, Kristine Froseth
Canal: AMC (PT) Epix (US)

Ouvi falar de Joël Dicker há dois anos. Uma “devoradora” de livros como eu confessava-se “viciada” nas suas obras – e desesperada porque, à data, o jovem (33 anos) escritor suíço só tinha lançado três livros (e ela já tinha lido todos). O entusiasmo dela convenceu-me e dediquei-me à leitura de “O Último Dia dos Nossos Pais”, o primeiro livro de Joël Dicker a que consegui deitar a mão. Descobri que os elogios às obras do escritor suíço, por quem me tinha aconselhado, eram mais que merecidos – eu também já estava viciada. Li então “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e “O Livro dos Baltimore” num sopro (entretanto, saiu “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”, este ano), perguntando-me como é que ainda ninguém se tinha lembrado de fazer um filme ou uma série a partir das brilhantes histórias de Joël Dicker. Afinal, soube recentemente que o autor recusou 95 propostas de adaptação de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, até ter finalmente concordado com a ideia de Jean-Jacques Annaud, o realizador à frente da série em exibição desde dia 2 de dezembro no canal AMC.

Joël Dicker foi sensato em esperar e não ceder os direitos do seu livro à primeira proposta de Hollywood: afinal, Jean-Jacques Annaud é o realizador de êxitos como “O Nome da Rosa” (1986), “O Amante” (1992) ou “Sete Anos no Tibete” (1997). Assim, este promissor escritor suíço, já com alguns prémios no currículo, pode ver a sua história adaptada por um dos grandes nomes do cinema contemporâneo – e que se aventura pela primeira vez na televisão. Um privilégio reservado a poucos.

A verdade é que a intensidade da obra de Joël Dicker se perderia se não fosse bem contada, por um realizador experiente em thrillers e romances pesados e desafiantes. A escolha pelo formato série também foi acertada – quem conhece a escrita de Joël Dicker sabe que vive de de suspense e de pormenores, e perdia tanto em detalhes como em emoção num filme. Assim, de episódio em episódio, vamos entrando na história e conhecendo as várias personagens que compõem este intrincado e viciante thriller. É a melhor forma de descobrir e de nos apaixonarmos por “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”.

A série, que é exibida todos os domingos às 22h10, no AMC, segue de forma fiel a ordem cronológica dos eventos do livro. Começamos por conhecer Marcus Goldman (interpretado por Ben Schnetzer), um jovem escritor a desfrutar os prazeres da fama, depois do êxito do seu primeiro livro. Mas, à medida que se aproxima o deadline para a entrega da sua segunda obra, para a qual lhe foi oferecido um contrato milionário, Marcus não tem nem uma linha escrita. É então que se lembra do seu professor e mentor Harry Quebert (Patrick Dempsey), um aclamado escritor que, há anos, trocou a frenética Nova Iorque por uma tranquila localidade à beira-mar no Maine, perto de onde dá aulas numa universidade. Marcus parte para o interior norte-americano esperando que a sua quietude lhe devolva a inspiração. Passa um tranquilo fim de semana com o professor e regressa a casa – ainda sem nenhuma obra-prima no bolso. De repente, Harry liga-lhe para lhe dizer que encontraram, no seu quintal, os restos mortais de uma rapariga, Nola Kellergan (Kristine Froseth), desaparecida há 33 anos. Harry é acusado de a ter morto e enterrado. O crime ganha novos contornos quando Marcus descobre que o seu ídolo terá vivido um amor proibido com a vítima, quando ele tinha 34 e a rapariga apenas 15. Mas Harry nega o crime e Marcus, que conhece o professor há 10 anos, acredita na sua inocência.

Esta é a intriga que nos é apresentada no primeiro episódio da série, que, respeitando as pausas dramáticas da escrita de Joël Dicker, acaba em cliffhanger. A produção da AMC tem 10 episódios e, após assistir aos quatro que foram exibidos até à data, o balanço é positivo. Tal como no livro, é com o coração nas mãos que assistimos ao desenrolar da história – e ao desespero de Marcus, quando tudo aponta para a culpa de Harry Quebert.

Como no livro, a série leva-nos por analepses a conhecer o romance entre Harry e Nola. Tanto na versão jovem como mais velha de Harry, Patrick Dempsey interpreta de forma competente o escritor, primeiro feliz e apaixonado, e depois caído em desgraça, de semblante perdido e, de súbito, num novo luto pelo seu amor. Kristine Froseth é também a Nola que os leitores de Joël Dicker imaginaram: inocente, apaixonada pela vida, com uma alegria que a todos contagia. A química entre Patrick e Kristine é palpável – como era suposto.

Assim, as expectativas em relação a esta série – à qual temos de assistir “à maneira antiga”, semanalmente –, não podiam estar mais elevadas. As boas notícias é que, para o dia 25 de dezembro, o canal AMC promete uma maratona dos cinco primeiros episódios da série – o que, para os fãs de Joël Dicker, não podia ser melhor presente de Natal.

 

22 de julho

Um (muito bem dado) murro no estômago.

 

Título original: 22 July (NOR, ISL, EUA – 2018)
Realizador: Paul Greengrass
Argumento: Paul Greengrass, Åsne Seierstad
Protagonistas: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden

Paul Greengrass. Ver o nome de um dos mais brilhantes realizadores de Hollywood associado a um original da Netflix já era razão suficiente para assistir a “22 de julho” – mais ainda se nos lembrarmos que o cineasta foi o realizador de alguns dos mais intensos thrillers dos últimos tempos, como “Capitão Philips” (2013), “Voo 93” (2006) ou “Domingo Sangrento” (2002). Paul Greengrass parece ter uma queda por argumentos baseados em histórias verídicas – e ainda bem, pois o seu talento para contá-las, mantendo sempre a narrativa num limbo entre o suspense e o drama, é indiscutível.

22 de julho de 2011. A Noruega acorda para o seu pior pesadelo. Ao início da tarde, um carro-bomba explode junto aos prédios onde se situa o gabinete do primeiro-ministro, em Oslo, resultando na morte de 8 pessoas. Horas depois, 69 pessoas são mortas num tiroteio na ilha de Utøya, onde se realizava um campo de verão para jovens do Partido Trabalhista Norueguês. É um dia negro para a História da Noruega, especialmente porque a maioria das vítimas são crianças.

“22 de julho” leva-nos pelo antes, durante e depois dos acontecimentos do dia que marcou os noruegueses. Conhecemos os jovens que, no dia anterior, chegam entusiasmados ao campo de férias – crianças fascinadas pela ideia de deixar a sua marca no mundo, muitas delas filhas de dirigentes e figuras influentes da Noruega –, e conhecemos Anders Behring Breivik, enquanto escreve ao computador o manifesto que, como diria mais tarde, “explica a necessidade daquele atentado”.

Mestre em filmes sobre tragédias humanas, Paul Greengrass garante que nos envolvemos tanto com as vítimas como com o terrorista, antes dos momentos-chave. No discurso de Anders Breivik há ideias que, infelizmente, nos são familiares: a oposição em relação à imigração, aos refugiados e ao multiculturalismo – que o terrorista classifica como “forçado”. Sabemos que não param de nascer, pela Europa, frentes que apoiam ideias extremistas de direita, e este filme vem precisamente lembrar-nos disso. Vem lembrar-nos que o que construímos como ideal – uma Europa de braços abertos, onde todos podem trabalhar e sonhar ter uma vida melhor – está a ser ameaçado por quem preferia fechar portas a tudo o que é diferente e novo.

“22 de julho” é, também, brilhante a mostrar aquilo que não vemos, quando os bombeiros limpam os destroços e nasce um novo dia num palco de guerra: os longos meses de recuperação das vítimas dos atentados, as marcas que deixam nas suas famílias e o medo que se apodera, para sempre, dos seus corações. E é através de pequenos detalhes que o filme nos mostra como tudo muda, enquanto nós continuamos a fazer zapping, esquecendo aos poucos o último cenário sangrento que vimos na TV. Sentimo-nos, às vezes, a invadir momentos demasiado privados, quando Paul Greengrass nos leva pelas difíceis sessões de fisioterapia das vítimas, a imensa vitória que é descer umas escadas ou, simplesmente, tentar adormecer todos os dias sem pensar, outra vez, naquele dia fatídico.

No papel do infame Anders Breivik, o norueguês Anders Danielsen Lie não podia ter melhor prestação. Tudo na sua linguagem corporal e olhar transmite ódio e uma convicção cega nos ideais que defende. Mas a construção da personagem de Anders Breivik em “22 de julho” não cede ao facilitismo de retratar o terrorista norueguês como um “monstro”, como a imprensa daquele país começou por chamar-lhe. Descobrimos a sua infância e o que levou àquele tipo de pensamento, para percebemos que afinal, o “mau da fita moderno” não é apenas um lobo mau com sede de sangue: é fruto de más experiências e problemas que, infelizmente, o socialismo europeu levou para dentro das casas de adolescentes incompreendidos, que viram, injustamente, nos imigrantes e refugiados a culpa para a perda do poder de compra das suas famílias.

É por isso que “22 de julho” é um autêntico murro no estômago – porque põe a nu as fragilidades de um ideal à beira do colapso, e porque nos lembra da insignificância das nossas queixas de todos os dias, face à luta diária que se torna a vida de uma vítima de atentado.

 

Nada a Esconder

Um melodrama cómico à boa maneira do cinema europeu: nu e cru.

 

Título original: Le Jeu (FRA, BEL – 2018)
Realizador: Fred Cavayé
Argumento: Filippo Bologna, Fred Cavayé
Actores: Bérénice Bejo, Suzanne Clément, Stéphane De Groodt

Há, no serviço português da Netflix, cada vez mais e melhor oferta de filmes – nomeadamente, de produções europeias. “Nada a Esconder” é um desses exemplos: um original Netflix que encontramos pelo zapping, com a promessa de ser, segundo lemos na plataforma, um “filme espirituoso”. E, de facto, quem quer que tenha assim categorizado esta película francesa, tem toda a razão.

Comecemos pelo facto de ser uma produção francesa. As comédias realizadas neste país têm vindo a surpreender o público, seja pelas suas – lá está – espirituosas histórias, ou pelos seus excelentes atores, que trazendo para o grande ecrã os dotes para a ironia e sarcasmo do seu povo, tornam os filmes franceses incríveis experiências de gargalhadas sem parar.

Depois, há que salientar que este é um filme baseado numa produção italiana, “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte” (Perfetti Sconosciuti, 2016), outro país de onde nos chegam, também, obras-primas da comédia – do estilo que põe o dedo na ferida, desconfortável.

Assim, temos os ingredientes que tornaram “Nada a Esconder” num melodrama cómico que importa ver, onde acabamos a olhar para dentro de nós e confessar os nossos próprios pecados, engolindo em seco – como apenas um bom filme é capaz de fazer.

A história é muito simples: um grupo de amigos, com laços que recuam até à escola primária, junta-se mais uma vez na casa de Vincent (Stéphane De Groodt), o cozinheiro e anfitrião do costume. Estamos perante casais nos seus trinta ou quarenta anos, com décadas de relacionamento, mágoas e segredos. A tensão é visível em cada um dos pares – menos entre os joviais Thomas (Vincent Elbaz) e Léa (Doria Tilier), que acabaram de casar. Mas quando chegam a casa de Vincent, todos brincam e riem juntos, como se nada se passasse. Até que Marie (Bérénice Bejo), psicoterapeuta de profissão, lança o tema dos telemóveis como “as novas caixas negras dos casais” e convida os amigos a fazer um jogo: naquela noite, todos irão pousar os seus telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para cima e o som ativo, para que, sempre que um dos aparelhos tocar, todos possam ler as mensagens, ouvir os telefonemas e ver as fotos recebidas, confirmando se há, ou não, segredos entre os casais e amigos. E o resultado, que já se adivinhava desastroso, revela-se surpreendente. Especialmente, porque à medida que o jogo avança, e os segredos são postos a nu, aqueles que mais apontam o dedo acabam por ser obrigados a admitir a sua hipocrisia.

“Nada a Esconder” mostra-nos que, quando a narrativa é competente e envolvente, o cenário de 1h33 minutos de filme pode ser sempre o de uma pequena sala, sem mais nada. A força dos diálogos do filme prende-nos irremediavelmente, até ao seu intenso desenlace. Por uma noite, e durante um jogo, descobrimos, entre vícios, falhas e pudores, homens e mulheres que se revelam em toda a sua profunda imperfeição, e, como qualquer ser humano, erram e voltam a errar, porque amam e desejam ser amadas – não é o que queremos todos?

Um verdadeiro retrato da sociedade moderna, onde, com tantas formas de comunicar com quem não está, perdemos o contacto com quem está mesmo ao nosso lado.

 

Viúvas

Uma grande história de crime… e muito, muito mais.

 

Título original: Widows (UK, EUA – 2017)
Realizador: Steve McQueen
Argumento: Gillian Flynn, Steve McQueen
Protagonistas: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki

Quando ouvi que Steve McQueen ia realizar uma história de crime, com várias cenas de ação pelo meio, a minha primeira reação foi de estranheza. Adorei todos os outros filmes do realizador britânico (“Fome”, “Vergonha” e “12 Anos Escravo”), mas este parecia estar tão longe da sua zona de conforto que não consegui evitar alguma sensação de desconfiança. Depois de ver “Viúvas”, a lição aprendida é que nunca se deve duvidar de talento.

Neste clássico moderno, um grupo de mulheres vê-se envolvida no mundo clandestino do crime, depois dos seus maridos criminosos morrerem durante um assalto. Confrontadas com a obrigação de pagar a dívida dos seus ex-parceiros, as mulheres decidem, relutantemente, planear outro grande assalto. Toda esta trama, já de si relativamente complexa, é contada no contexto de uma campanha política local que ameaça revelar vários segredos obscuros da vida nas ruas de Chicago.

Uma das principais razões para o sucesso deste filme passa pelo seu impossivelmente recheado elenco. Desde grandes estrelas a veteranos do teatro e do ecrã, não há um frame que seja que não esteja a transbordar de talento em cena. Entre estes destacam-se especialmente Viola Davis, Elizabeth Debicki e Daniel Kaluuya. Curiosamente, os três destacam-se por razões que não têm tanto a ver com habilidade técnica mas antes com pura presença em cena. Viola Davis está imperial como a líder do recém-formado grupo de assaltantes. Elizabeth Debicki, do alto dos seus 1,90m, consegue a proeza de parecer imponente e vulnerável ao mesmo tempo. E Daniel Kaluuya enche a tela nas cenas em que entra, dominando os seus adversários como um predador a brincar com a sua presa.

A ajudar estas performances temos o sempre original olhar de Steve McQueen atrás da câmara. “Viúvas” tem os elementos clássicos de uma história de crime e ação, sim, mas o realizador inglês acrescenta sempre algo mais na sua construção de planos, introduzindo vários close-ups apertados dos seus protagonistas e sequências quase lânguidas em que parece fascinado pelos movimentos dos corpos dos seus protagonistas – de uma forma curiosa em que transita entre o fascínio romântico (ou até mesmo sexual) e a pura curiosidade biológica, como se estivéssemos a ver um documentário sobre o corpo humano. O facto de isto ser feito sem nunca comprometer o ritmo da narrativa é apenas mais uma prova do talento de McQueen.

Por fim, não queria deixar de elogiar aquele que será um dos melhores argumentos deste ano de cinema. Escrito por Gillian Flynn (“Gone Girl”) e McQueen, este texto partiu de uma série britânica clássica, dos anos 80, e acrescentou-lhe toques de modernidade brilhantes. Desde uma mensagem sobre a luta das mulheres por um lugar no topo da “cadeia alimentar” ao mundo da corrupção na política urbana, passando por um comentário sobre o racismo omnipresente nas forças de autoridade, “Viúvas” consegue juntar camadas por cima de camadas de significado sem nunca se tornar num sermão.

Acima de tudo, é profunda e completamente cativante. A cada decisão dos protagonistas que nos fazem pensar que já sabemos para onde a narrativa vai caminhar, somos apanhados de surpresa com mais uma guinada brusca no guião. Este filme manteve a minha atenção durante cada segundo da sua duração. E é só isso que lhe posso pedir. Tudo o resto é um bónus.

 

Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Regressar ao mundo mágico criado por J.K. Rowling é como voltar a casa.

 

Título original: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald (GBR, EUA – 2018)
Realizador: David Yates
Argumento: J.K. Rowling
Actores: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler

Quem cresceu a ler as aventuras de Harry Potter – como eu –, sabe que há mais para além das histórias dos sete livros da saga. Compreendendo que, para criar um mundo fantástico, verosímil e possível, é necessário que este tenha um passado e uma previsão de futuro, J.K. Rowling foi sempre deixando, pelos romances d'”O Rapaz que Sobreviveu”, referências a outros acontecimentos marcantes para a História dos feiticeiros. Assim, J.K. Rowling não encerrou o mundo mágico de Harry Potter no final da saga – pelo contrário, deixou sementes para muitas, muitas novas histórias.

É o caso do filme “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, que chegou este ano aos cinemas. Esta nova aventura apresenta-se como a sequela de “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” (2016), o primeiro filme depois do fim da saga dos cinemas, “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2”, em 2011. Mas esta sequela representa uma autêntica revolução para os fãs da saga. É que, se “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” ainda se baseava num pequeno (e quase passado despercebido) livro de J.K. Rowling, sobre as criaturas mágicas do mundo dos feiticeiros e um homem completamente fascinado por elas, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não tem qualquer livro de base. Podia ser completamente desvirtuado da ideia original, como com muitas sagas continuadas por nomes que não os seus criadores (veja-se o caso do último filme da saga Millenium, com crítica no nosso site) – mas, felizmente, J.K. Rowling é uma verdadeira mãe galinha da sua mais preciosa criação e encarregou-se ela própria do argumento do filme, para felicidade e alívio de todos os “Potterheads” do nosso mundo muggle. Talvez graças a isso, e ao realizador não ser outro que David Yates, o nome mais frequente na cadeira de realização dos filmes de Harry Potter, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” regressa com o look & feel, a típica ação e emoção da saga do miúdo da cicatriz em forma de relâmpago.

A narrativa deste novo filme é bem construída, de emoção ascendente e, muitas vezes, de cortar a respiração, como J.K. Rowling nos habituou nos livros, e tão bem tem sido transposto para os filmes. Descobrimos versões mais jovens das personagens das aventuras de Harry Potter, como Albus Dumbledore (Jude Law), e neles é mantida a personalidade e características que marcaram as películas anteriores. Havia, entre os fãs da série, uma imensa curiosidade em conhecer um jovem Albus, especialmente depois de saber que o carismático Jude Law o iria interpretar – e acredito que o público não se pode sentir defraudado, já que o ator britânico consegue trazer para a sua versão de Albus até aquele brilhozinho nos olhos que Michael Gambon (o ator que interpretou Dumbledore na saga original) emprestava à sua personagem sempre que falava com o seu mais promissor aluno, Harry Potter. Neste filme, a menina dos olhos de Albus é, como não podia deixar de ser, o singular Newt Scamander, fã de criaturas mágicas que só lhe dão problemas.

O vilão desta história, que se passa antes da II Guerra Mundial e antes de Voldemort ou Harry Potter terem nascido, é Grindelwald (Johnny Depp, que dispensa apresentações), um fanático que sonha com o domínio dos feiticeiros sobre o mundo muggle. O paralelismo com o ditador que a nossa História viria a conhecer é inevitável – e a história constrói-se exatamente nesse sentido, lembrando-nos que, de tempos a tempos, surge um extremista que defende a superioridade de uma raça sobre as outras. Na nossa sociedade, já sabemos que o impacto destas figuras é sempre catastrófico, mas no mundo mágico ficamos sem saber – já que (tentando evitar os spoilers), o filme termina deixando antever que teremos mais “Monstros Fantásticos” nos cinemas nos próximos anos.

E é mesmo a desejar que o tempo passe depressa até ao próximo filme de “Monstros Fantásticos” que deixamos a sala de cinema depois de ver esta película, sabendo que, tal como no final de cada livro, J.K. Rowling fica a rir-se da quantidade de fãs que todas as noites deita a cabeça na almofada criando mil e um cenários e plot twists para a próxima aventura de Newt Scamander – “Potterheads” felizes porque, afinal, há mais para além do último “the end” do capítulo final de Harry Potter.

 

A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha

Lisbeth Salander está de volta. Mas será mesmo ela?

 

Título original: The Girl In The Spider’s Web (UK, GER, SWE, CAN, EUA – 2018)
Realizador: Fede Alvarez
Argumento: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight
Protagonistas: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield

Depois de uma pequena saga nos bastidores de Hollywood para a continuação da saga Millenium, de Stieg Larsson, no grande ecrã, os detentores dos direitos de adaptação dos livros decidiram saltar os restantes capítulos da trilogia e saltar para o quarto volume, já escrito por David Lagercrantz. O resultado, “A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha”, é muito semelhante ao livro que o inspirou – interessante e executado de forma competente, mas estranhamente desligado da essência da saga que pretende continuar.

Começando pelo trabalho dos atores, a avaliação possível é, como quase todo o filme, mista. Lakeith Stanfield transpira carisma, mas interpreta um agente americano que parece relativamente desnecessário à narrativa, Sverrir Gudnason é competente como Mikael Blomqvist mas mal é utilizado e Sylvia Hoeks é interessante mas não espetacular no seu papel (que não vou revelar).

Mas o grande foco desta história é Claire Foy e, no que respeita ao seu trabalho como atriz, não há nada a apontar. Foy é uma estrela emergente e brilha no seu papel, como tem feito em basicamente todos os seus desempenhos recentes. O problema é mesmo o que lhe deram para fazer.

Não tenho nada contra personagens evoluirem – é um processo natural da criação de uma narrativa. Mas o que fizeram com Lisbeth Salander não faz grande sentido. Lisbeth fala mais neste filme que em qualquer outro, partilha emoções e assume-se cada vez mais como uma heroína. É construída à imagem das anti-heroínas modernas que têm vindo a popular tanta da cultura pop nos últimos anos. Mas isso não é a Lisbeth Salander. Se vão mudá-la tão radicalmente, tem de haver algum contexto para essa mudança. Devem ter saltado essas páginas do guião.

Adicionalmente, houve um esforço declarado para sexualizar a personagem de uma forma que nunca tinha acontecido, chegando ao ponto de várias vezes sugerirem nudez sem a mostrar com o claro intuito de criar titilação no espetador. A própria caracterização de Claire Foy deixa, à falta de melhor expressão, demasiada da sua beleza natural transparecer no ecrã. Lisbeth Salander é uma personagem muito complexa, com inúmeras facetas na sua personalidade – “sex symbol” nunca foi uma delas.

O realizador uruguaio, Fede Alvarez – que já tinha recebido elogios da crítica pelo seu trabalho em “Don’t Breathe” – mostra aqui ter boa mão na coreografia de cenas de ação. Ao longo de todo o filme, somos brindados com sequências de fina execução técnica – desde entusiasmantes perseguições automóveis a excitantes cenas de luta. A câmara ataca estas cenas com grande criatividade visual e ajuda a construir momentos memoráveis de ação.

O problema? Isso não tem nada a ver com esta saga… A obra de Stieg Larsson é caracterizada pela tensão que existe entre uma mulher rejeitada pela sociedade e as constantes ameaças à sua vida que a rodeiam. É um comentário sobre a podridão que se esconde por trás do brilho falso com que pintamos a nossa vida. Este reboot da saga parece estar mais interessado em torná-la a nova “Missão Impossível”. O resultado é um filme estranhamente desligado da sua fonte de inspiração. Mau? Não. Há uma boa dose de talento no ecrã. Mas podia ser tão, tão melhor.

 

Assim Nasce Uma Estrela

Eddie Vedder desencorajou Bradley Cooper a realizar “Assim Nasce Uma Estrela”. Mas ainda bem que ele não lhe deu ouvidos.

 

Título original: A Star Is Born (EUA – 2018)
Realizador: Bradley Cooper
Argumento: Eric Roth, Bradley Cooper
Actores: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott

Bradley Cooper estava a trabalhar no argumento de “Assim Nasce Uma Estrela” quando decidiu partir para Seattle e pedir ajuda a um peso pesado do rock norte-americano, Eddie Vedder. O vocalista dos Pearl Jam desencorajou-o a fazer o filme, um remake do clássico com Barbra Streisand e Kris Kristofferson, mas Bradley Cooper foi em frente com a realização daquele que, hoje, é um dos filmes mais falados do ano.

Bradley confessou, entretanto, que Eddie inspirou a sua personagem no filme (a estrela de rock Jackson Maine), e a verdade é que, mesmo que não o soubéssemos, a barba, os cabelos compridos, o olhar simples e sorriso humilde e tímido da personagem de Bradley Cooper grita “Eddie Vedder” por todos os poros. Era uma estrela rock vinda da América profunda que Bradley queria trazer para “Assim Nasceu uma Estrela” (como o filme original, de 1976), com a sua típica simplicidade e olhar de quem traz a dureza da vida naqueles lugares às costas, e foi através da mimetização da aparência e dos maneirismos de Eddie Vedder que o conseguiu. Há, também, muito das letras fortes e profundamente humanas de Pearl Jam nas músicas do filme – o que também contribui para construir a persona de Jackson Maine, um homem perdido, à procura de sentido numa vida de concertos e festas sem fim.

E é esta abordagem, verdadeiramente humana, que nos agarra desde os primeiros minutos do filme. Bradley Cooper quis trazer-nos para dentro do abismo de uma estrela em declínio (Jackson Maine) de forma nua e crua, como se de um documentário se tratasse. Por outro lado, também Lady Gaga interpreta a sua Ally, a empregada de cozinha de sonhos adiados, de modo simples e visceral, como se nos abrisse a porta para os seus segredos, inseguranças e medos mais profundos. É isso que tem vindo a apaixonar o público e a crítica de “Assim Nasce Uma Estrela”: a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

Lady Gaga evoca-nos Barbra Streisand, com a sua magistral presença em palco e voz – e claro, o nariz que, também no caso da diva dos anos 60 e 70, era apontado como ameaça ao seu futuro no mundo da música e afinal se tornou na sua imagem de marca. O nariz que, na personagem de Ally, era uma das suas principais inseguranças, e que Jackson, do alto da sua bondade e repentina paixão por aquela simples e genuína empregada de cozinha, ensinou Ally a amar, como a todos os seus defeitos – sem julgamentos ou juízos de valor, como aliás Bradley Cooper nos convida a ver e apreciar este filme.

“Assim Nasce Uma Estrela” é, assim, uma montanha-russa de emoções que nos atropelam e que nos deixam desconfortáveis bem depois do fim do filme, para nos lembrar que a imperfeição é, afinal, daquilo que somos todos feitos – e que de errar, ninguém pode fugir. Um tocante filme, com interpretações impressionantes, que certamente não irá escapar à mira dos Óscares de 2019.

a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

 

Bohemian Rhapsody

Is this the real life? Is this just fantasy?

 

Título original: Bohemian Rhapsody (2018)
Realizador: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee

Começo por esclarecer que sou grande fã de Queen. Como muitos outros fãs, o entusiasmo teve o seu auge quando apareceram as primeiras imagens da transformação de Rami Malek (Mr. Robot) no icónico papel de Freddie Mercury e o primeiro teaser que pega na batida de “Another One Bites The Dust” e a liga magistralmente a várias das mais perfeitas músicas da banda.

A primeira reação a este filme foi totalmente como fanboy. Maravilhado por durante pouco mais duas horas ter assistido ao reanimar do incrível performer que era Mercury. Mas para fazer esta crítica achei que me devia afastar da experiência para conseguir avaliar Bohemian Rhapsody como filme.

O filme esteve envolto em problemas do início ao fim. Desde o anúncio de intenção de o fazer por parte de Brian May (que fez parte da produção, juntamente com Roger Taylor, como consultores e produtores executivos), até ao finalizar das produções. Foi conhecido que Sasha Baron Cohen seria a primeira escolha para dar corpo a Mercury, mas que acabou por abandonar por não concordar com como Mercury iria ser representado. Também o realizador Bryan Singer (Os Suspeitos do Costume, X-Men) abandonou a produção a 2/3 das filmagens, sendo substituído por Dexter Fletcher. Talvez por isso, estamos perante um filme que não sendo mau, podia ter sido muito melhor.

Não é a primeira vez que um biopic tem alguma liberdade criativa alterando o tempo em que os factos ocorrem e até criando alguns que não são factuais, para o tornar mais adequado ao grande ecrã. Por isso algumas das escolhas são aceitáveis, mas há algumas incoerências que são claramente desnecessárias e algumas que mostram alguma falta de coragem para expor um pouco mais Mercury e os Queen, quando na realidade, o que não faltou à banda e ao seu frontman foi a coragem de fazer diferente e assim ficar na história. Faltou um pouco dessa irreverência ao argumento que optou por fazer quase um “Behind The Music” e quase exclusivamente centrar-se no protagonista.

Nesse aspecto não podia ter sido mais certeiro. A escolha de Rami Malek é surpreendente, mas revelou-se perfeita. Freddie Mercury esteve vivo por momentos. A transformação física de Malek e a linguagem corporal, principalmente em palco, é absolutamente incrível. Não surpreenderá ninguém se o seu nome estiver na lista anunciada no início do ano pela Academia. Aliás, se há algo que neste filme é irrepreensível é o casting. A escolha dos actores que representam Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) é incrível de parecidos que são. Lee levou-me mesmo a questionar se seria eventualmente filho de May. Mas ao nível da representação o mérito não se esgota no protagonista. Lucy Boynton (que se destacou em Sing Street) é perfeita no papel de Mary Austin, a companheira e musa de Mercury, que mesmo quando assume a sua homossexualidade, se mantém como um pilar na estabilidade de Freddie.

Depois entra a música. Aqui seria difícil falhar. Um dos grandes méritos deste filme é conseguir colocar-nos no palco com a banda. Consegue passar a experiência sensorial que é tão característica do rock. Isso é conseguido com mestria pelo realizador e pela a sua equipa. Tem momentos em que aquela batida entra e te arrepia. Tem momentos em que não sabes se estás a cantar juntamente com o público, ou se ele está a cantar contigo. Tem a força das letras que, conhecendo a vivência de Mercury, nos emociona.

Aceitando que este filme é mais centrado em Mercury e menos nos outros membros da banda, ainda assim, a espaços os outros três elementos parecem apenas espectadores. Por outro lado, parece não haver a coragem de ir mais fundo no percurso conturbado de Mercury. Das origens humildes, da mudança de nome e divergências com a família, até à dificuldade de Mercury lidar com a exposição e importância que o facto de ser homossexual lhe iria trazer, parece que estes tópicos são quase só notas de rodapé. O filme centra-se muito na relação com Mary e acaba por deixar pouco espaço para o que realmente tornou a sua curta passagem pelo nosso planeta problemática e a espaços asfixiante.

Representar a luta interna para que a sua vida pessoal e escolhas sexuais fossem privadas e separadas da música apenas com uma conferência de imprensa que tenta criar uma tensão através de truques visuais e sonoros é quase erro de principiante de tão fraca que está. É neste tipo de pormenores e erros de timeline, como tocarem músicas em espetáculos vários anos antes de estas serem compostas, que o filme se torna displicente. O que é uma pena, porque a irreverência e singularidade da banda, merecia um filme mais irreverente e singular. O nome de David Fincher chegou a estar ligado à produção, o que poderia ter sido magnifico-o-o-o.