TELEVISÃO

Não é Tão Romântico

Viver dentro de uma comédia romântica pode não ser tão divertido como pensávamos.

 

Título original: Isn’t It Romantic (USA – 2019)
Realizador: Todd Strauss-Schulson
Argumento:
Erin Cardillo, Dana Fox
Actores: 
Rebel Wilson, Liam Hemsworth, Adam Devine
Canal: Netflix

Todos conhecemos a típica premissa de uma comédia romântica: a protagonista, patinho feio da escola ou do escritório onde trabalha, passa por uma total make over e torna-se a mulher mais desejada lá do sítio; o rapaz mais giro e popular acaba por se apaixonar por ela, envolvem-se, e é tudo unicórnios e arco-íris até que ela descobre que, afinal, o seu verdadeiro amor é o tipo baixinho e um bocado nerd que passava a vida atrás dela. Ora, com maiores ou menores variações na história, este tipo de filmes preenchem os nossos domingos à tarde desde que nos conhecemos, e são uma das galinhas dos ovos de ouro preferidas de Hollywood. A razão é simples: são divertidos, alegres, as protagonistas costumam ser super fofinhas e distraídas e fazem-nos rir quando caem por tudo e por nada, os seus interesses amorosos são sempre giríssimos (mesmo os mais nerds), têm sempre finais felizes e deixam-nos bem dispostos. Por isso mesmo, não há mal nenhum em ver e gostar de comédias românticas – há que encará-las como um bom gelado de chocolate, que serve para nos esquecermos que a vida não é cor-de-rosa mas, durante o bocadinho em que dura o gelado ou o filme, parece mesmo ser.

Na vida de Natalie (Rebel Wilson) as comédias românticas não tinham lugar – nem mesmo como guilty pleasure. A protagonista de “Não é Tão Romântico” era apenas uma criança quando a mãe a desencantou totalmente desses filmes, avisando-a que o mundo encantado do amor, da sorte e das coisas bonitas não estava destinado a raparigas pobres e cheiinhas, como elas. Natalie tornou-se então uma mulher super terra-a-terra, desligada do amor e das relações, conformada com um emprego como arquiteta de parques de estacionamento, embora sempre tivesse sonhado em desenhar incríveis e imponentes edifícios. Até que, de repente, cai e bate com a cabeça – e o seu mundo torna-se uma autêntica comédia romântica, onde tudo corre bem e ela é uma mulher bonita, desejada e valorizada no trabalho. O que seria o sonho de quase toda a gente, mas não de Natalie, que fica enjoada irritada com todo o cor-de-rosa à sua volta.

“Não é Tão Romântico” é um filme engraçado e divertido, que desconstrói os mitos das comédias românticas pelo olhar da super espirituosa Rebel Wilson (uma das mais promissoras atrizes cómicas da sua geração), mesmo sendo, ironicamente, também uma comédia romântica – e talvez aí é que esteja toda a piada do filme. É que não deixam de acontecer peripécias dignas de uma “rom com” de domingo à tarde, mas a protagonista percebe, tal como nós, que afinal o raio dos clichés destes filmes acontecem mesmo na vida real, e podemos escolher ficar irritados com isso ou rir de todo o ridículo da situação.

Disponível na Netflix, “Não é Tão Romântico” é, lá está, uma ótima opção de filme para acabar o domingo a rir, e perceber que as comédias românticas não são assim tão más.

 

O Método Kominsky

Quem já tinha saudades de uma boa comédia negra, ponha as mãos no ar!

 

Título original: The Kominsky Method
Criado por: Chuck Lorre
Argumento: Al Higgins, David Javerbaum, Chuck Lorre
Actores: Michael Douglas, Alan Arkin, Sarah Baker
Canal: Netflix

Se há algo que, ultimamente, tenho sentido falta na televisão e no cinema, é do humor de figuras como Woody Allen e Larry David, sempre extremamente cáusticos e sem papas na língua. Mas, felizmente, a primeira temporada da série “O Método Kominsky”, lançada em 2018 nos Estados Unidos, chegou à nossa Netflix, para nos deixar de barriga cheia de delicioso humor negro.

A produção é de Chuck Lorre, responsável por alguns dos maiores sucessos televisivos dos nossos tempos, como “Dois Homens e Meio” e “Dharma & Greg”, e argumentista de tantos outros, como “A Teoria de Big Bang”. O nome do produtor é desde logo uma boa promessa – o que se vem a confirmar na série. De facto, episódio após episódio, notamos a assinatura de Chuck Lorre na fluidez da narrativa, nos diálogos, simples mas sempre muito bem escritos, e num humor tão refinado como certeiro. Para quem aprecia especialmente a arte da escrita de um bom diálogo, durante a série é difícil resistir a não anotar as deixas num caderninho, e sonhar um dia ser capaz de escrever pérolas semelhantes.

Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Série de Comédia de 2018, “O Método Kominsky” é bem capaz de ser uma das melhores séries de comédia agora disponíveis na Netflix. Um sucesso que, além da produção e do argumento, se deve, em muito, aos seus protagonistas: Michael Douglas, no papel do professor de representação Sandy Kominsky – pelo qual ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia –, e Alan Arkin, o seu melhor amigo e agente Norman Newlander. A dinâmica entre os dois não podia ser melhor: enquanto Sandy se recusa a crescer e admitir que caminha, a passos largos, para a velhice – continuando a ter namoradas excessivamente mais novas e recusando-se a visitar os amigos que vão padecendo das doenças típicas da idade –, Norman é clássico resmungão, frustrado com o mundo e as mudanças que não compreende. Norman tem sempre a punchline perfeita para rematar uma situação infeliz, especialmente quando se trata de gozar com as ilusões do amigo, Sandy. É sobretudo nas deixas dele que reside a genialidade da série, e do humor negro que já faltava nas nossas televisões. É uma personagem tão bem construída que nos deixa a desejar que, à semelhança de “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, a seguir possamos ter direito a um “O Método Newlander”.

Mas regressemos a Michael Douglas. É deveras agradável ver o ator, em tempos protagonista de tantos mega projetos de Hollywood, a dar largas ao seu talento novamente, num palco que só partilha com Alan Arkin. Michael Douglas é, por natureza, tão natural e simples que parece sempre que fala connosco através do ecrã – e isso não podia ser melhor, numa série que se quer real e intimista.

Ao “dynamic duo” Michael/Alan junta-se ainda Nancy Travis (conhecida, por exemplo, pelo seu papel como a esposa de Tim Allen em “Um Homem Entre as Mulheres”), que interpreta Lisa, o interesse amoroso de Sandy e também o seu novo desafio: já que Lisa não se deixa enganar facilmente pelo charme do professor como as suas ingénuas alunas. Os seus momentos de interação com Sandy, são, por isso, momentos altos da série.

E falta ainda falar de Sarah Baker, a paciente Mindy, filha de Sandy Kominsky, o seu braço direito no que toca a burocracias da sua famosa escola de representação. Conhecemos Sarah de vários pequenos papéis em filmes e séries de Hollywood, mas em “O Método Kominsky” a atriz norte-americana tem finalmente o tempo de antena que merece. Chuck Lorre deixa-a brilhar ao longo da série, e nós ficamos com vontade de a ver em mais séries como esta.

A lamentar em “O Método Kominsky“, só mesmo o reduzido número de episódios: são apenas oito, para tristeza de amantes do género como eu. À medida que se aproxima o final, é como se nos tirassem um rebuçado que custou imenso a encontrar. Mas a boa notícia é que a série vai ter segunda temporada – por isso não vamos ficar desprovidos de bom humor negro durante muito tempo.

 

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

A tão aguardada adaptação ao pequeno ecrã de um dos mais recentes fenómenos da literatura contemporânea.

 

Título original: The Truth About the Harry Quebert Affair (EUA – 2018)
Criado por: Jean-Jacques Annaud
Argumento: Joël Dicker (adaptado do livro “The Truth About the Harry Quebert Affair”)
Actores: Patrick Dempsey, Ben Schnetzer, Kristine Froseth
Canal: AMC (PT) Epix (US)

Ouvi falar de Joël Dicker há dois anos. Uma “devoradora” de livros como eu confessava-se “viciada” nas suas obras – e desesperada porque, à data, o jovem (33 anos) escritor suíço só tinha lançado três livros (e ela já tinha lido todos). O entusiasmo dela convenceu-me e dediquei-me à leitura de “O Último Dia dos Nossos Pais”, o primeiro livro de Joël Dicker a que consegui deitar a mão. Descobri que os elogios às obras do escritor suíço, por quem me tinha aconselhado, eram mais que merecidos – eu também já estava viciada. Li então “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e “O Livro dos Baltimore” num sopro (entretanto, saiu “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”, este ano), perguntando-me como é que ainda ninguém se tinha lembrado de fazer um filme ou uma série a partir das brilhantes histórias de Joël Dicker. Afinal, soube recentemente que o autor recusou 95 propostas de adaptação de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, até ter finalmente concordado com a ideia de Jean-Jacques Annaud, o realizador à frente da série em exibição desde dia 2 de dezembro no canal AMC.

Joël Dicker foi sensato em esperar e não ceder os direitos do seu livro à primeira proposta de Hollywood: afinal, Jean-Jacques Annaud é o realizador de êxitos como “O Nome da Rosa” (1986), “O Amante” (1992) ou “Sete Anos no Tibete” (1997). Assim, este promissor escritor suíço, já com alguns prémios no currículo, pode ver a sua história adaptada por um dos grandes nomes do cinema contemporâneo – e que se aventura pela primeira vez na televisão. Um privilégio reservado a poucos.

A verdade é que a intensidade da obra de Joël Dicker se perderia se não fosse bem contada, por um realizador experiente em thrillers e romances pesados e desafiantes. A escolha pelo formato série também foi acertada – quem conhece a escrita de Joël Dicker sabe que vive de de suspense e de pormenores, e perdia tanto em detalhes como em emoção num filme. Assim, de episódio em episódio, vamos entrando na história e conhecendo as várias personagens que compõem este intrincado e viciante thriller. É a melhor forma de descobrir e de nos apaixonarmos por “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”.

A série, que é exibida todos os domingos às 22h10, no AMC, segue de forma fiel a ordem cronológica dos eventos do livro. Começamos por conhecer Marcus Goldman (interpretado por Ben Schnetzer), um jovem escritor a desfrutar os prazeres da fama, depois do êxito do seu primeiro livro. Mas, à medida que se aproxima o deadline para a entrega da sua segunda obra, para a qual lhe foi oferecido um contrato milionário, Marcus não tem nem uma linha escrita. É então que se lembra do seu professor e mentor Harry Quebert (Patrick Dempsey), um aclamado escritor que, há anos, trocou a frenética Nova Iorque por uma tranquila localidade à beira-mar no Maine, perto de onde dá aulas numa universidade. Marcus parte para o interior norte-americano esperando que a sua quietude lhe devolva a inspiração. Passa um tranquilo fim de semana com o professor e regressa a casa – ainda sem nenhuma obra-prima no bolso. De repente, Harry liga-lhe para lhe dizer que encontraram, no seu quintal, os restos mortais de uma rapariga, Nola Kellergan (Kristine Froseth), desaparecida há 33 anos. Harry é acusado de a ter morto e enterrado. O crime ganha novos contornos quando Marcus descobre que o seu ídolo terá vivido um amor proibido com a vítima, quando ele tinha 34 e a rapariga apenas 15. Mas Harry nega o crime e Marcus, que conhece o professor há 10 anos, acredita na sua inocência.

Esta é a intriga que nos é apresentada no primeiro episódio da série, que, respeitando as pausas dramáticas da escrita de Joël Dicker, acaba em cliffhanger. A produção da AMC tem 10 episódios e, após assistir aos quatro que foram exibidos até à data, o balanço é positivo. Tal como no livro, é com o coração nas mãos que assistimos ao desenrolar da história – e ao desespero de Marcus, quando tudo aponta para a culpa de Harry Quebert.

Como no livro, a série leva-nos por analepses a conhecer o romance entre Harry e Nola. Tanto na versão jovem como mais velha de Harry, Patrick Dempsey interpreta de forma competente o escritor, primeiro feliz e apaixonado, e depois caído em desgraça, de semblante perdido e, de súbito, num novo luto pelo seu amor. Kristine Froseth é também a Nola que os leitores de Joël Dicker imaginaram: inocente, apaixonada pela vida, com uma alegria que a todos contagia. A química entre Patrick e Kristine é palpável – como era suposto.

Assim, as expectativas em relação a esta série – à qual temos de assistir “à maneira antiga”, semanalmente –, não podiam estar mais elevadas. As boas notícias é que, para o dia 25 de dezembro, o canal AMC promete uma maratona dos cinco primeiros episódios da série – o que, para os fãs de Joël Dicker, não podia ser melhor presente de Natal.

 

The Man In the High Castle

E se as Forças Aliadas tivessem perdido a 2ª Grande Guerra?

 

Título original: The Man In the High Castle (2015 – presente)
Criado por: Frank Spotniz
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Alexa Davalos, Luke Kleintank, Rufus Sewell
Canal: Amazon Prime (PT) Amazon Prime (US)

Estamos em 1962, numa América dominada e invadida pela Alemanha Nazi e pelo Império Japonês. As potencias do Eixo ganham a Segunda Grande Guerra e acordam dividir o território dos Estados Unidos da América. No Este, é criado o Greater Nazi Reich e, nos Estados de Oeste, os Japanese Pacific States, deixando no meio os Estados das Rocky Mountains, uma zona de ninguém onde se refugiam os indesejados dos invasores e onde cresce um movimento rebelde na esperança de voltar a ter um país livre. Esta é a assustadora premissa de The Man in the High Castle, baseada no livro de Philip K. Dick com o mesmo nome. Mais assustador ainda é como a intolerância fascista está presente no dia a dia dos americanos como se fosse natural, ou mesmo como, entre uma season e outra, essa realidade passou a ser tão próxima da actualidade.

Frank Spotnitz (X-Files) está ao leme desta série, que tem na produção uma das suas mais valias. É impressionante a transformação, principalmente de Nova Iorque e São Francisco. Os cenários, guarda-roupa, os veículos, tudo nos coloca imediatamente nos anos 60, com propaganda Nazi e ordem, presente em cada canto, ou, no caso do Oeste, o sol Californiano mistura-se com o tradicionalismo Oriental. Aliás, a atenção ao detalhe coloca esta série no topo das melhores produções na televisão. Até o genérico é brilhante e arrepiante ao mesmo tempo.

Juliana Crain (Alexa Davalos) vive em São Francisco, dominada pelo Império Japonês, onde estuda Aikido. Ela e o seu namorado Frank (Rupert Evans), um artista plástico, tentam manter-se debaixo dos radares, visto que a arte moderna não é aceite e é perseguida pelas autoridades.

As suas calmas rotinas são interrompidas quando a irmã de Juliana é assassinada por ter na sua posse uma bobine de filme que contém um filme proibido. “The Grasshopper Lies Heavy” é um filme que contem notícias da vitória das Forças Aliadas. A série segue a missão que Juliana acredita ser o seu destino, para levar aquele filme ao destino pretendido pela sua irmã. Não se sabe bem o que é aquilo realmente. Uma simulação? Uma realidade paralela? Como é que alguém conseguiu aquelas imagens? Quem será o “The Man in the High Castle”, suposto responsável pela existência do filme?

Na terra de ninguém, onde vivem as várias raças rejeitadas pelos Nazis e pouco aceites pelos Japoneses, Juliana conhece Joe Blake (Luke Kleintank) que tem também ele uma missão. Os dois seguem em direcção de Este, onde Joe se deve encontrar com John Smith (Rufus Sewell), um official Nazi americano que luta entre providenciar o melhor para a sua família e a pretenção de subir na escada do poder local. Este é o ponto de partida, de que não posso revelar muito mais, desta história de espionagem, ficção científica e suspense.

The Man in the High Castle peca, no princípio, por alguma falta de profundidade dos personagens e diálogos, mas vai melhorando de série em série, com entrada de novos personagens. Quem nos consegue agarrar logo de inicio é Davalos e Sewell que são o grande destaque da série no que ao elenco diz respeito. Também neste aspecto, à medida que viajamos da série 1 à 3, vão aparecendo mais personagens com mais interesse que vão alimentar o mistério.

The Man in the High Castle está disponível em Portugal através da Amazon Prime e vale a mensalidade que chega para ver, em modo binge, as três séries disponíveis até agora. Quem ainda não viu, não deixe de a ver.