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Nada a Esconder

Um melodrama cómico à boa maneira do cinema europeu: nu e cru.

 

Título original: Le Jeu (FRA, BEL – 2018)
Realizador: Fred Cavayé
Argumento: Filippo Bologna, Fred Cavayé
Actores: Bérénice Bejo, Suzanne Clément, Stéphane De Groodt

Há, no serviço português da Netflix, cada vez mais e melhor oferta de filmes – nomeadamente, de produções europeias. “Nada a Esconder” é um desses exemplos: um original Netflix que encontramos pelo zapping, com a promessa de ser, segundo lemos na plataforma, um “filme espirituoso”. E, de facto, quem quer que tenha assim categorizado esta película francesa, tem toda a razão.

Comecemos pelo facto de ser uma produção francesa. As comédias realizadas neste país têm vindo a surpreender o público, seja pelas suas – lá está – espirituosas histórias, ou pelos seus excelentes atores, que trazendo para o grande ecrã os dotes para a ironia e sarcasmo do seu povo, tornam os filmes franceses incríveis experiências de gargalhadas sem parar.

Depois, há que salientar que este é um filme baseado numa produção italiana, “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte” (Perfetti Sconosciuti, 2016), outro país de onde nos chegam, também, obras-primas da comédia – do estilo que põe o dedo na ferida, desconfortável.

Assim, temos os ingredientes que tornaram “Nada a Esconder” num melodrama cómico que importa ver, onde acabamos a olhar para dentro de nós e confessar os nossos próprios pecados, engolindo em seco – como apenas um bom filme é capaz de fazer.

A história é muito simples: um grupo de amigos, com laços que recuam até à escola primária, junta-se mais uma vez na casa de Vincent (Stéphane De Groodt), o cozinheiro e anfitrião do costume. Estamos perante casais nos seus trinta ou quarenta anos, com décadas de relacionamento, mágoas e segredos. A tensão é visível em cada um dos pares – menos entre os joviais Thomas (Vincent Elbaz) e Léa (Doria Tilier), que acabaram de casar. Mas quando chegam a casa de Vincent, todos brincam e riem juntos, como se nada se passasse. Até que Marie (Bérénice Bejo), psicoterapeuta de profissão, lança o tema dos telemóveis como “as novas caixas negras dos casais” e convida os amigos a fazer um jogo: naquela noite, todos irão pousar os seus telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para cima e o som ativo, para que, sempre que um dos aparelhos tocar, todos possam ler as mensagens, ouvir os telefonemas e ver as fotos recebidas, confirmando se há, ou não, segredos entre os casais e amigos. E o resultado, que já se adivinhava desastroso, revela-se surpreendente. Especialmente, porque à medida que o jogo avança, e os segredos são postos a nu, aqueles que mais apontam o dedo acabam por ser obrigados a admitir a sua hipocrisia.

“Nada a Esconder” mostra-nos que, quando a narrativa é competente e envolvente, o cenário de 1h33 minutos de filme pode ser sempre o de uma pequena sala, sem mais nada. A força dos diálogos do filme prende-nos irremediavelmente, até ao seu intenso desenlace. Por uma noite, e durante um jogo, descobrimos, entre vícios, falhas e pudores, homens e mulheres que se revelam em toda a sua profunda imperfeição, e, como qualquer ser humano, erram e voltam a errar, porque amam e desejam ser amadas – não é o que queremos todos?

Um verdadeiro retrato da sociedade moderna, onde, com tantas formas de comunicar com quem não está, perdemos o contacto com quem está mesmo ao nosso lado.

 

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Viúvas

Uma grande história de crime… e muito, muito mais.

 

Título original: Widows (UK, EUA – 2017)
Realizador: Steve McQueen
Argumento: Gillian Flynn, Steve McQueen
Protagonistas: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki

Quando ouvi que Steve McQueen ia realizar uma história de crime, com várias cenas de ação pelo meio, a minha primeira reação foi de estranheza. Adorei todos os outros filmes do realizador britânico (“Fome”, “Vergonha” e “12 Anos Escravo”), mas este parecia estar tão longe da sua zona de conforto que não consegui evitar alguma sensação de desconfiança. Depois de ver “Viúvas”, a lição aprendida é que nunca se deve duvidar de talento.

Neste clássico moderno, um grupo de mulheres vê-se envolvida no mundo clandestino do crime, depois dos seus maridos criminosos morrerem durante um assalto. Confrontadas com a obrigação de pagar a dívida dos seus ex-parceiros, as mulheres decidem, relutantemente, planear outro grande assalto. Toda esta trama, já de si relativamente complexa, é contada no contexto de uma campanha política local que ameaça revelar vários segredos obscuros da vida nas ruas de Chicago.

Uma das principais razões para o sucesso deste filme passa pelo seu impossivelmente recheado elenco. Desde grandes estrelas a veteranos do teatro e do ecrã, não há um frame que seja que não esteja a transbordar de talento em cena. Entre estes destacam-se especialmente Viola Davis, Elizabeth Debicki e Daniel Kaluuya. Curiosamente, os três destacam-se por razões que não têm tanto a ver com habilidade técnica mas antes com pura presença em cena. Viola Davis está imperial como a líder do recém-formado grupo de assaltantes. Elizabeth Debicki, do alto dos seus 1,90m, consegue a proeza de parecer imponente e vulnerável ao mesmo tempo. E Daniel Kaluuya enche a tela nas cenas em que entra, dominando os seus adversários como um predador a brincar com a sua presa.

A ajudar estas performances temos o sempre original olhar de Steve McQueen atrás da câmara. “Viúvas” tem os elementos clássicos de uma história de crime e ação, sim, mas o realizador inglês acrescenta sempre algo mais na sua construção de planos, introduzindo vários close-ups apertados dos seus protagonistas e sequências quase lânguidas em que parece fascinado pelos movimentos dos corpos dos seus protagonistas – de uma forma curiosa em que transita entre o fascínio romântico (ou até mesmo sexual) e a pura curiosidade biológica, como se estivéssemos a ver um documentário sobre o corpo humano. O facto de isto ser feito sem nunca comprometer o ritmo da narrativa é apenas mais uma prova do talento de McQueen.

Por fim, não queria deixar de elogiar aquele que será um dos melhores argumentos deste ano de cinema. Escrito por Gillian Flynn (“Gone Girl”) e McQueen, este texto partiu de uma série britânica clássica, dos anos 80, e acrescentou-lhe toques de modernidade brilhantes. Desde uma mensagem sobre a luta das mulheres por um lugar no topo da “cadeia alimentar” ao mundo da corrupção na política urbana, passando por um comentário sobre o racismo omnipresente nas forças de autoridade, “Viúvas” consegue juntar camadas por cima de camadas de significado sem nunca se tornar num sermão.

Acima de tudo, é profunda e completamente cativante. A cada decisão dos protagonistas que nos fazem pensar que já sabemos para onde a narrativa vai caminhar, somos apanhados de surpresa com mais uma guinada brusca no guião. Este filme manteve a minha atenção durante cada segundo da sua duração. E é só isso que lhe posso pedir. Tudo o resto é um bónus.

 

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Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Regressar ao mundo mágico criado por J.K. Rowling é como voltar a casa.

 

Título original: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald (GBR, EUA – 2018)
Realizador: David Yates
Argumento: J.K. Rowling
Actores: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler

Quem cresceu a ler as aventuras de Harry Potter – como eu –, sabe que há mais para além das histórias dos sete livros da saga. Compreendendo que, para criar um mundo fantástico, verosímil e possível, é necessário que este tenha um passado e uma previsão de futuro, J.K. Rowling foi sempre deixando, pelos romances d'”O Rapaz que Sobreviveu”, referências a outros acontecimentos marcantes para a História dos feiticeiros. Assim, J.K. Rowling não encerrou o mundo mágico de Harry Potter no final da saga – pelo contrário, deixou sementes para muitas, muitas novas histórias.

É o caso do filme “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, que chegou este ano aos cinemas. Esta nova aventura apresenta-se como a sequela de “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” (2016), o primeiro filme depois do fim da saga dos cinemas, “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2”, em 2011. Mas esta sequela representa uma autêntica revolução para os fãs da saga. É que, se “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” ainda se baseava num pequeno (e quase passado despercebido) livro de J.K. Rowling, sobre as criaturas mágicas do mundo dos feiticeiros e um homem completamente fascinado por elas, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não tem qualquer livro de base. Podia ser completamente desvirtuado da ideia original, como com muitas sagas continuadas por nomes que não os seus criadores (veja-se o caso do último filme da saga Millenium, com crítica no nosso site) – mas, felizmente, J.K. Rowling é uma verdadeira mãe galinha da sua mais preciosa criação e encarregou-se ela própria do argumento do filme, para felicidade e alívio de todos os “Potterheads” do nosso mundo muggle. Talvez graças a isso, e ao realizador não ser outro que David Yates, o nome mais frequente na cadeira de realização dos filmes de Harry Potter, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” regressa com o look & feel, a típica ação e emoção da saga do miúdo da cicatriz em forma de relâmpago.

A narrativa deste novo filme é bem construída, de emoção ascendente e, muitas vezes, de cortar a respiração, como J.K. Rowling nos habituou nos livros, e tão bem tem sido transposto para os filmes. Descobrimos versões mais jovens das personagens das aventuras de Harry Potter, como Albus Dumbledore (Jude Law), e neles é mantida a personalidade e características que marcaram as películas anteriores. Havia, entre os fãs da série, uma imensa curiosidade em conhecer um jovem Albus, especialmente depois de saber que o carismático Jude Law o iria interpretar – e acredito que o público não se pode sentir defraudado, já que o ator britânico consegue trazer para a sua versão de Albus até aquele brilhozinho nos olhos que Michael Gambon (o ator que interpretou Dumbledore na saga original) emprestava à sua personagem sempre que falava com o seu mais promissor aluno, Harry Potter. Neste filme, a menina dos olhos de Albus é, como não podia deixar de ser, o singular Newt Scamander, fã de criaturas mágicas que só lhe dão problemas.

O vilão desta história, que se passa antes da II Guerra Mundial e antes de Voldemort ou Harry Potter terem nascido, é Grindelwald (Johnny Depp, que dispensa apresentações), um fanático que sonha com o domínio dos feiticeiros sobre o mundo muggle. O paralelismo com o ditador que a nossa História viria a conhecer é inevitável – e a história constrói-se exatamente nesse sentido, lembrando-nos que, de tempos a tempos, surge um extremista que defende a superioridade de uma raça sobre as outras. Na nossa sociedade, já sabemos que o impacto destas figuras é sempre catastrófico, mas no mundo mágico ficamos sem saber – já que (tentando evitar os spoilers), o filme termina deixando antever que teremos mais “Monstros Fantásticos” nos cinemas nos próximos anos.

E é mesmo a desejar que o tempo passe depressa até ao próximo filme de “Monstros Fantásticos” que deixamos a sala de cinema depois de ver esta película, sabendo que, tal como no final de cada livro, J.K. Rowling fica a rir-se da quantidade de fãs que todas as noites deita a cabeça na almofada criando mil e um cenários e plot twists para a próxima aventura de Newt Scamander – “Potterheads” felizes porque, afinal, há mais para além do último “the end” do capítulo final de Harry Potter.

 

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The Man In the High Castle

E se as Forças Aliadas tivessem perdido a 2ª Grande Guerra?

 

Título original: The Man In the High Castle (2015 – presente)
Criado por: Frank Spotniz
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Alexa Davalos, Luke Kleintank, Rufus Sewell
Canal: Amazon Prime (PT) Amazon Prime (US)

Estamos em 1962, numa América dominada e invadida pela Alemanha Nazi e pelo Império Japonês. As potencias do Eixo ganham a Segunda Grande Guerra e acordam dividir o território dos Estados Unidos da América. No Este, é criado o Greater Nazi Reich e, nos Estados de Oeste, os Japanese Pacific States, deixando no meio os Estados das Rocky Mountains, uma zona de ninguém onde se refugiam os indesejados dos invasores e onde cresce um movimento rebelde na esperança de voltar a ter um país livre. Esta é a assustadora premissa de The Man in the High Castle, baseada no livro de Philip K. Dick com o mesmo nome. Mais assustador ainda é como a intolerância fascista está presente no dia a dia dos americanos como se fosse natural, ou mesmo como, entre uma season e outra, essa realidade passou a ser tão próxima da actualidade.

Frank Spotnitz (X-Files) está ao leme desta série, que tem na produção uma das suas mais valias. É impressionante a transformação, principalmente de Nova Iorque e São Francisco. Os cenários, guarda-roupa, os veículos, tudo nos coloca imediatamente nos anos 60, com propaganda Nazi e ordem, presente em cada canto, ou, no caso do Oeste, o sol Californiano mistura-se com o tradicionalismo Oriental. Aliás, a atenção ao detalhe coloca esta série no topo das melhores produções na televisão. Até o genérico é brilhante e arrepiante ao mesmo tempo.

Juliana Crain (Alexa Davalos) vive em São Francisco, dominada pelo Império Japonês, onde estuda Aikido. Ela e o seu namorado Frank (Rupert Evans), um artista plástico, tentam manter-se debaixo dos radares, visto que a arte moderna não é aceite e é perseguida pelas autoridades.

As suas calmas rotinas são interrompidas quando a irmã de Juliana é assassinada por ter na sua posse uma bobine de filme que contém um filme proibido. “The Grasshopper Lies Heavy” é um filme que contem notícias da vitória das Forças Aliadas. A série segue a missão que Juliana acredita ser o seu destino, para levar aquele filme ao destino pretendido pela sua irmã. Não se sabe bem o que é aquilo realmente. Uma simulação? Uma realidade paralela? Como é que alguém conseguiu aquelas imagens? Quem será o “The Man in the High Castle”, suposto responsável pela existência do filme?

Na terra de ninguém, onde vivem as várias raças rejeitadas pelos Nazis e pouco aceites pelos Japoneses, Juliana conhece Joe Blake (Luke Kleintank) que tem também ele uma missão. Os dois seguem em direcção de Este, onde Joe se deve encontrar com John Smith (Rufus Sewell), um official Nazi americano que luta entre providenciar o melhor para a sua família e a pretenção de subir na escada do poder local. Este é o ponto de partida, de que não posso revelar muito mais, desta história de espionagem, ficção científica e suspense.

The Man in the High Castle peca, no princípio, por alguma falta de profundidade dos personagens e diálogos, mas vai melhorando de série em série, com entrada de novos personagens. Quem nos consegue agarrar logo de inicio é Davalos e Sewell que são o grande destaque da série no que ao elenco diz respeito. Também neste aspecto, à medida que viajamos da série 1 à 3, vão aparecendo mais personagens com mais interesse que vão alimentar o mistério.

The Man in the High Castle está disponível em Portugal através da Amazon Prime e vale a mensalidade que chega para ver, em modo binge, as três séries disponíveis até agora. Quem ainda não viu, não deixe de a ver.

 

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A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha

Lisbeth Salander está de volta. Mas será mesmo ela?

 

Título original: The Girl In The Spider’s Web (UK, GER, SWE, CAN, EUA – 2018)
Realizador: Fede Alvarez
Argumento: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight
Protagonistas: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield

Depois de uma pequena saga nos bastidores de Hollywood para a continuação da saga Millenium, de Stieg Larsson, no grande ecrã, os detentores dos direitos de adaptação dos livros decidiram saltar os restantes capítulos da trilogia e saltar para o quarto volume, já escrito por David Lagercrantz. O resultado, “A Rapariga Apanhada Na Teia De Aranha”, é muito semelhante ao livro que o inspirou – interessante e executado de forma competente, mas estranhamente desligado da essência da saga que pretende continuar.

Começando pelo trabalho dos atores, a avaliação possível é, como quase todo o filme, mista. Lakeith Stanfield transpira carisma, mas interpreta um agente americano que parece relativamente desnecessário à narrativa, Sverrir Gudnason é competente como Mikael Blomqvist mas mal é utilizado e Sylvia Hoeks é interessante mas não espetacular no seu papel (que não vou revelar).

Mas o grande foco desta história é Claire Foy e, no que respeita ao seu trabalho como atriz, não há nada a apontar. Foy é uma estrela emergente e brilha no seu papel, como tem feito em basicamente todos os seus desempenhos recentes. O problema é mesmo o que lhe deram para fazer.

Não tenho nada contra personagens evoluirem – é um processo natural da criação de uma narrativa. Mas o que fizeram com Lisbeth Salander não faz grande sentido. Lisbeth fala mais neste filme que em qualquer outro, partilha emoções e assume-se cada vez mais como uma heroína. É construída à imagem das anti-heroínas modernas que têm vindo a popular tanta da cultura pop nos últimos anos. Mas isso não é a Lisbeth Salander. Se vão mudá-la tão radicalmente, tem de haver algum contexto para essa mudança. Devem ter saltado essas páginas do guião.

Adicionalmente, houve um esforço declarado para sexualizar a personagem de uma forma que nunca tinha acontecido, chegando ao ponto de várias vezes sugerirem nudez sem a mostrar com o claro intuito de criar titilação no espetador. A própria caracterização de Claire Foy deixa, à falta de melhor expressão, demasiada da sua beleza natural transparecer no ecrã. Lisbeth Salander é uma personagem muito complexa, com inúmeras facetas na sua personalidade – “sex symbol” nunca foi uma delas.

O realizador uruguaio, Fede Alvarez – que já tinha recebido elogios da crítica pelo seu trabalho em “Don’t Breathe” – mostra aqui ter boa mão na coreografia de cenas de ação. Ao longo de todo o filme, somos brindados com sequências de fina execução técnica – desde entusiasmantes perseguições automóveis a excitantes cenas de luta. A câmara ataca estas cenas com grande criatividade visual e ajuda a construir momentos memoráveis de ação.

O problema? Isso não tem nada a ver com esta saga… A obra de Stieg Larsson é caracterizada pela tensão que existe entre uma mulher rejeitada pela sociedade e as constantes ameaças à sua vida que a rodeiam. É um comentário sobre a podridão que se esconde por trás do brilho falso com que pintamos a nossa vida. Este reboot da saga parece estar mais interessado em torná-la a nova “Missão Impossível”. O resultado é um filme estranhamente desligado da sua fonte de inspiração. Mau? Não. Há uma boa dose de talento no ecrã. Mas podia ser tão, tão melhor.

 

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Assim Nasce Uma Estrela

Eddie Vedder desencorajou Bradley Cooper a realizar “Assim Nasce Uma Estrela”. Mas ainda bem que ele não lhe deu ouvidos.

 

Título original: A Star Is Born (EUA – 2018)
Realizador: Bradley Cooper
Argumento: Eric Roth, Bradley Cooper
Actores: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott

Bradley Cooper estava a trabalhar no argumento de “Assim Nasce Uma Estrela” quando decidiu partir para Seattle e pedir ajuda a um peso pesado do rock norte-americano, Eddie Vedder. O vocalista dos Pearl Jam desencorajou-o a fazer o filme, um remake do clássico com Barbra Streisand e Kris Kristofferson, mas Bradley Cooper foi em frente com a realização daquele que, hoje, é um dos filmes mais falados do ano.

Bradley confessou, entretanto, que Eddie inspirou a sua personagem no filme (a estrela de rock Jackson Maine), e a verdade é que, mesmo que não o soubéssemos, a barba, os cabelos compridos, o olhar simples e sorriso humilde e tímido da personagem de Bradley Cooper grita “Eddie Vedder” por todos os poros. Era uma estrela rock vinda da América profunda que Bradley queria trazer para “Assim Nasceu uma Estrela” (como o filme original, de 1976), com a sua típica simplicidade e olhar de quem traz a dureza da vida naqueles lugares às costas, e foi através da mimetização da aparência e dos maneirismos de Eddie Vedder que o conseguiu. Há, também, muito das letras fortes e profundamente humanas de Pearl Jam nas músicas do filme – o que também contribui para construir a persona de Jackson Maine, um homem perdido, à procura de sentido numa vida de concertos e festas sem fim.

E é esta abordagem, verdadeiramente humana, que nos agarra desde os primeiros minutos do filme. Bradley Cooper quis trazer-nos para dentro do abismo de uma estrela em declínio (Jackson Maine) de forma nua e crua, como se de um documentário se tratasse. Por outro lado, também Lady Gaga interpreta a sua Ally, a empregada de cozinha de sonhos adiados, de modo simples e visceral, como se nos abrisse a porta para os seus segredos, inseguranças e medos mais profundos. É isso que tem vindo a apaixonar o público e a crítica de “Assim Nasce Uma Estrela”: a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

Lady Gaga evoca-nos Barbra Streisand, com a sua magistral presença em palco e voz – e claro, o nariz que, também no caso da diva dos anos 60 e 70, era apontado como ameaça ao seu futuro no mundo da música e afinal se tornou na sua imagem de marca. O nariz que, na personagem de Ally, era uma das suas principais inseguranças, e que Jackson, do alto da sua bondade e repentina paixão por aquela simples e genuína empregada de cozinha, ensinou Ally a amar, como a todos os seus defeitos – sem julgamentos ou juízos de valor, como aliás Bradley Cooper nos convida a ver e apreciar este filme.

“Assim Nasce Uma Estrela” é, assim, uma montanha-russa de emoções que nos atropelam e que nos deixam desconfortáveis bem depois do fim do filme, para nos lembrar que a imperfeição é, afinal, daquilo que somos todos feitos – e que de errar, ninguém pode fugir. Um tocante filme, com interpretações impressionantes, que certamente não irá escapar à mira dos Óscares de 2019.

a profundidade e entrega com que Lady Gaga e Bradley Cooper dão vida a uma história tão simples e já muitas vezes vista, mas com o tom de quem conta a sua história a um amigo num bar.

 

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Bohemian Rhapsody

Is this the real life? Is this just fantasy?

 

Título original: Bohemian Rhapsody (2018)
Realizador: Bryan Singer
Argumento: Anthony McCarten
Actores: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee

Começo por esclarecer que sou grande fã de Queen. Como muitos outros fãs, o entusiasmo teve o seu auge quando apareceram as primeiras imagens da transformação de Rami Malek (Mr. Robot) no icónico papel de Freddie Mercury e o primeiro teaser que pega na batida de “Another One Bites The Dust” e a liga magistralmente a várias das mais perfeitas músicas da banda.

A primeira reação a este filme foi totalmente como fanboy. Maravilhado por durante pouco mais duas horas ter assistido ao reanimar do incrível performer que era Mercury. Mas para fazer esta crítica achei que me devia afastar da experiência para conseguir avaliar Bohemian Rhapsody como filme.

O filme esteve envolto em problemas do início ao fim. Desde o anúncio de intenção de o fazer por parte de Brian May (que fez parte da produção, juntamente com Roger Taylor, como consultores e produtores executivos), até ao finalizar das produções. Foi conhecido que Sasha Baron Cohen seria a primeira escolha para dar corpo a Mercury, mas que acabou por abandonar por não concordar com como Mercury iria ser representado. Também o realizador Bryan Singer (Os Suspeitos do Costume, X-Men) abandonou a produção a 2/3 das filmagens, sendo substituído por Dexter Fletcher. Talvez por isso, estamos perante um filme que não sendo mau, podia ter sido muito melhor.

Não é a primeira vez que um biopic tem alguma liberdade criativa alterando o tempo em que os factos ocorrem e até criando alguns que não são factuais, para o tornar mais adequado ao grande ecrã. Por isso algumas das escolhas são aceitáveis, mas há algumas incoerências que são claramente desnecessárias e algumas que mostram alguma falta de coragem para expor um pouco mais Mercury e os Queen, quando na realidade, o que não faltou à banda e ao seu frontman foi a coragem de fazer diferente e assim ficar na história. Faltou um pouco dessa irreverência ao argumento que optou por fazer quase um “Behind The Music” e quase exclusivamente centrar-se no protagonista.

Nesse aspecto não podia ter sido mais certeiro. A escolha de Rami Malek é surpreendente, mas revelou-se perfeita. Freddie Mercury esteve vivo por momentos. A transformação física de Malek e a linguagem corporal, principalmente em palco, é absolutamente incrível. Não surpreenderá ninguém se o seu nome estiver na lista anunciada no início do ano pela Academia. Aliás, se há algo que neste filme é irrepreensível é o casting. A escolha dos actores que representam Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) é incrível de parecidos que são. Lee levou-me mesmo a questionar se seria eventualmente filho de May. Mas ao nível da representação o mérito não se esgota no protagonista. Lucy Boynton (que se destacou em Sing Street) é perfeita no papel de Mary Austin, a companheira e musa de Mercury, que mesmo quando assume a sua homossexualidade, se mantém como um pilar na estabilidade de Freddie.

Depois entra a música. Aqui seria difícil falhar. Um dos grandes méritos deste filme é conseguir colocar-nos no palco com a banda. Consegue passar a experiência sensorial que é tão característica do rock. Isso é conseguido com mestria pelo realizador e pela a sua equipa. Tem momentos em que aquela batida entra e te arrepia. Tem momentos em que não sabes se estás a cantar juntamente com o público, ou se ele está a cantar contigo. Tem a força das letras que, conhecendo a vivência de Mercury, nos emociona.

Aceitando que este filme é mais centrado em Mercury e menos nos outros membros da banda, ainda assim, a espaços os outros três elementos parecem apenas espectadores. Por outro lado, parece não haver a coragem de ir mais fundo no percurso conturbado de Mercury. Das origens humildes, da mudança de nome e divergências com a família, até à dificuldade de Mercury lidar com a exposição e importância que o facto de ser homossexual lhe iria trazer, parece que estes tópicos são quase só notas de rodapé. O filme centra-se muito na relação com Mary e acaba por deixar pouco espaço para o que realmente tornou a sua curta passagem pelo nosso planeta problemática e a espaços asfixiante.

Representar a luta interna para que a sua vida pessoal e escolhas sexuais fossem privadas e separadas da música apenas com uma conferência de imprensa que tenta criar uma tensão através de truques visuais e sonoros é quase erro de principiante de tão fraca que está. É neste tipo de pormenores e erros de timeline, como tocarem músicas em espetáculos vários anos antes de estas serem compostas, que o filme se torna displicente. O que é uma pena, porque a irreverência e singularidade da banda, merecia um filme mais irreverente e singular. O nome de David Fincher chegou a estar ligado à produção, o que poderia ter sido magnifico-o-o-o.

 

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O Primeiro Homem na Lua

Uma viagem intensa e visceral, ainda que um pouco fria.

 

Título original: First Man (EUA – 2018)
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Josh Singer
Protagonistas: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke

“O Primeiro Homem na Lua” é o tipo de filme que já não se faz. Numa era em que a indústria de Hollywood só parece ter espaço para fazer enormes blockbusters ou pequenas obras de cinema indie com um orçamento de uma ida à mercearia, Damien Chazelle usou a celebridade que conquistou com o seu Óscar de Melhor Realizador (por “La La Land”) para dar vida a este filme de orçamento robusto (mas não titânico) com uma história clássica para contar.

Para esse efeito rodeou-se de um grupo de atores talentosos, com destaque para o sempre sólido Jason Clarke, a impossivelmente cativante Claire Foy e, acima de tudo, Ryan Gosling, que despe toda a sua performance de qualquer espécie de artifício e encarna esse homem invulgar que foi Neil Armstrong: um cientista profissional e muito reservado – incapaz, por vezes, de lidar com a fama inescapável da mediática missão de chegar primeiro à Lua.

A decisão de concentrar tanto do filme na desconstrução interna de uma personagem conhecida por (quase) nunca revelar os seus sentimentos é bastante curiosa. Poucos teriam criticado Chazelle se ele tivesse amplificado os momentos dramáticos para dar mais “força” às cenas entre Neil e os que os rodeiam, mas a contenção que o jovem realizador mostrou em não cair nessa tentação prova a confiança suprema com que atacou este projeto.

Dito isso, é curioso que uma das melhores decisões criativas deste filme é também a que criou um “limite” ao seu potencial. Ou seja, admirável que é a escolha de mostrar Neil Armstrong como ele era – contido, estóico, sem paciência para opiniões sem fundamentação científica –, é inegável também que isso torna “O Primeiro Homem na Lua” um filme moldado à imagem do seu protagonista: interessante – importante até – mas, em última instância, um pouco frio.

Mas, se é legítimo dizer que este não é um filme genial, é importante apontar que não deixa de ser muito, muito bom. E uma das grandes razões para isso está na sua execução técnica. O design de produção, principalmente nas cenas dentro dos foguetões, é brilhante. A isso, junta-se uma técnica de filmagem muito “realista”, com a câmara dentro das cápsulas exíguas em que os astronautas eram enfiados, criando uma sensação palpável de claustrofobia. A cada chocalhar de um parafuso, a cada ensurdecedor ribombar das finas placas de metal que os protegiam do letal e gelado vazio do espaço, percebemos o quão improvável o sucesso desta missão foi.

Gostaria de terminar uma nota sobre o contexto histórico deste filme. Apesar de ser, em parte, uma celebração do feito inacreditável da NASA, Damien Chazelle nunca torna o seu filme um mero ato de auto-elogio patriótico – chegou até a ser criticado por isso mesmo antes do filme ser lançado. “O Primeiro Homem na Lua” guarda espaço para mostrar as críticas de ativistas sociais ao dinheiro gasto pelo programa espacial, as hesitações dos organismos políticos que o financiavam e até o quanto este feito foi motivado por pura mesquinhez geopolítica.

O que o filme nunca faz é dar voz ao contigente de “peritos” da Internet que tentam argumentar que nunca fomos à Lua e que isto foi tudo um embuste filmado pelo Stanley Kubrick. Para os cinéfilos que partilhem dessas ideias, recomendo a obra de Mike Judge inspirada nas suas vidas: “Terra de Idiotas”.

 

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