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Fevereiros

Maria Bethânia é o Brasil que é o Carnaval

 

Título original: Fevereiros (BRA – 2017)
Realizador: Marcio Debellian
Argumento: Marcio Debellian, Diana Vasconcellos
Actores:Maria Bethânia, Caetano Veloso, Chico Buarque de Hollanda, Leandro Vieira.

Em 2016, A Mangueira, uma das mais prestigiadas escolas de samba do Brasil, homenageou os 50 anos de carreira da cantora Maria Bethânia, convidando-a para ser a rainha do seu desfile de Carnaval. A consagração à ilustríssima baiana, arrebatou júris e público no Sambódromo do Marquês de Sapucaí e a Mangueira venceu mais um desfile de carnaval.

Fevereiros não propõe explicar esta expressão maior de Brasilidade que é o Carnaval ou mostrar como se concebe, desenha e põe em cena um desfile, o que por si seriam tarefas interessantíssimas. Marcos Debellian está mais interessado nas origens e na vida espiritual da cantora e nos paralelos entre a identidade da “Menina dos Olhos de Oyá” e a identidade/religiosidade do próprio Brasil.

Apesar de ser um documentário clássico, no sentido em que emprega sobretudo um modo expositivo, o filme evita a linearidade e a previsibilidade, recorrendo a imagens de arquivo, música, muita cor, movimento e grande enfoque na palavra, para criar sequências poéticas que permeiam entrevistas mais clássicas por partes de figuras como Caetano, Chico e mesmo Jorge Amado.

Os meros 75 minutos do filme dividem-se entre duas geografias distintas e também dois tempos, o do desfile e os muitos passados da cantora. Santo Amaro, na Bahia, onde Maria Bethânia nasceu e onde faz questão de estar a cada fevereiro para a festa da nossa senhora da Purificação, é o palco dominante, mas a cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, onde tem lugar o histórico desfile das escolas de samba, está sempre presente. Assim como estão também, de forma muito leve, uma contextualização histórica do aparecimento dos desfiles e a sua importância política – afinal, tanto o samba como o Candomblé foram proibidos e os seus intervenientes perseguidos.

Maria Bethânia e Caetano Veloso levam-nos até à sua “meninice”, para dentro da sua casa e o seio da sua família, para pensar sobre como a religião afro-brasileira foi incorporada nas suas vidas a um nível pessoal, profundo, político. Uma das forças do filme é partir do pessoal e mesmo íntimo, para ser uma ode a uma certa ideia de Brasil, onde o espiritismo e o catolicismo, o pré e o pós-modernismo, o sincretismo e o holismo, andam de mão em mão, sem que nenhum limite ou prevaleça sobre o outro.

Fevereiros é um documentário belo e precioso sobre a complexidade e a diversidade dum Brasil que se questiona, se reaprende e pode renascer a cada Carnaval.

 

Alita: Anjo de Combate

Um mundo cyberpunk pos apocalíptico recheado de acção e fiel ao manga original.

 

Título original: Alita: Battle Angel (EUA – 2019)
Realizador: Robert Rodriguez
Argumento: James Cameron, Laeta Kalogridis
Actores: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Jennifer Connelly

O ano é 2563. Das cidades flutuantes que precederam a terrível guerra apocalíptica conhecida como “The Fall”, apenas Zalem resistiu. Por debaixo desta está Iron City, uma cidade fabricada pelo lixo largado pela cidade do céu. O Doutor Dyson Ido (Christoph Waltz) é um cientista especialista em cyborgs. Numa das suas buscas por peças no ferro-velho, depara-se com o corpo despedaçado de um cyborg feminino, dando-lhe o corpo mecânico e nome da sua filha assassinada. Alita (Rosa Salazar) não tem qualquer memória da sua vida passada e vê o mundo pelos olhos inocentes de uma criança. Trava uma amizade especial com o rebelde Hugo (Keean Johnson) que a introduz ao perigoso e popular jogo de Motorball (um misto de basquetebol, Killer Derby e Battle Royale jogado por cyborgs destemidos). Nesta cidade de realidade cyberpunk onde a lei do mais forte predomina, o crime é controlado por Hunter-Warriors (caçadores de recompensas). É numa dessas caçadas que Alita descobre que é muito mais do que apenas um cyborg largado no lixo. A inocente criança é na verdade uma jovem adulta guerreira que descende de uma linhagem de heróis de Marte, e lutar é o que sabe fazer melhor.

Do mesmo homem por detrás de clássicos como Titanic, Exterminador Implacável, Aliens: o Recontro Final e Avatar, chega-nos agora esta adaptação para a grande tela do manga criado por Yukito Kishiro em 1990. James Cameron é um mestre contador de histórias e em conjunto com o realizador Robert Rodriguez, faz mais do que justiça a esta história que apesar de não ter sido um sucesso de bilheteira aquando da sua estreia no Dia de São Valentim, deixou todo o séquito de fãs dedicados a chorar por mais. Por aqui ficamos à espera de que o filme tenha mais sucesso nas próximas semanas, já que disso depende a já tão aguardada sequela. Ficou muita coisa por contar. Conseguirá Alita subir a Zalem e cumprir a sua missão interrompida? Quem é o misterioso vilão Nova (Edward Norton) que a observa desde lá do alto?

 

O Método Kominsky

Quem já tinha saudades de uma boa comédia negra, ponha as mãos no ar!

 

Título original: The Kominsky Method
Criado por: Chuck Lorre
Argumento: Al Higgins, David Javerbaum, Chuck Lorre
Actores: Michael Douglas, Alan Arkin, Sarah Baker
Canal: Netflix

Se há algo que, ultimamente, tenho sentido falta na televisão e no cinema, é do humor de figuras como Woody Allen e Larry David, sempre extremamente cáusticos e sem papas na língua. Mas, felizmente, a primeira temporada da série “O Método Kominsky”, lançada em 2018 nos Estados Unidos, chegou à nossa Netflix, para nos deixar de barriga cheia de delicioso humor negro.

A produção é de Chuck Lorre, responsável por alguns dos maiores sucessos televisivos dos nossos tempos, como “Dois Homens e Meio” e “Dharma & Greg”, e argumentista de tantos outros, como “A Teoria de Big Bang”. O nome do produtor é desde logo uma boa promessa – o que se vem a confirmar na série. De facto, episódio após episódio, notamos a assinatura de Chuck Lorre na fluidez da narrativa, nos diálogos, simples mas sempre muito bem escritos, e num humor tão refinado como certeiro. Para quem aprecia especialmente a arte da escrita de um bom diálogo, durante a série é difícil resistir a não anotar as deixas num caderninho, e sonhar um dia ser capaz de escrever pérolas semelhantes.

Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Série de Comédia de 2018, “O Método Kominsky” é bem capaz de ser uma das melhores séries de comédia agora disponíveis na Netflix. Um sucesso que, além da produção e do argumento, se deve, em muito, aos seus protagonistas: Michael Douglas, no papel do professor de representação Sandy Kominsky – pelo qual ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia –, e Alan Arkin, o seu melhor amigo e agente Norman Newlander. A dinâmica entre os dois não podia ser melhor: enquanto Sandy se recusa a crescer e admitir que caminha, a passos largos, para a velhice – continuando a ter namoradas excessivamente mais novas e recusando-se a visitar os amigos que vão padecendo das doenças típicas da idade –, Norman é clássico resmungão, frustrado com o mundo e as mudanças que não compreende. Norman tem sempre a punchline perfeita para rematar uma situação infeliz, especialmente quando se trata de gozar com as ilusões do amigo, Sandy. É sobretudo nas deixas dele que reside a genialidade da série, e do humor negro que já faltava nas nossas televisões. É uma personagem tão bem construída que nos deixa a desejar que, à semelhança de “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, a seguir possamos ter direito a um “O Método Newlander”.

Mas regressemos a Michael Douglas. É deveras agradável ver o ator, em tempos protagonista de tantos mega projetos de Hollywood, a dar largas ao seu talento novamente, num palco que só partilha com Alan Arkin. Michael Douglas é, por natureza, tão natural e simples que parece sempre que fala connosco através do ecrã – e isso não podia ser melhor, numa série que se quer real e intimista.

Ao “dynamic duo” Michael/Alan junta-se ainda Nancy Travis (conhecida, por exemplo, pelo seu papel como a esposa de Tim Allen em “Um Homem Entre as Mulheres”), que interpreta Lisa, o interesse amoroso de Sandy e também o seu novo desafio: já que Lisa não se deixa enganar facilmente pelo charme do professor como as suas ingénuas alunas. Os seus momentos de interação com Sandy, são, por isso, momentos altos da série.

E falta ainda falar de Sarah Baker, a paciente Mindy, filha de Sandy Kominsky, o seu braço direito no que toca a burocracias da sua famosa escola de representação. Conhecemos Sarah de vários pequenos papéis em filmes e séries de Hollywood, mas em “O Método Kominsky” a atriz norte-americana tem finalmente o tempo de antena que merece. Chuck Lorre deixa-a brilhar ao longo da série, e nós ficamos com vontade de a ver em mais séries como esta.

A lamentar em “O Método Kominsky“, só mesmo o reduzido número de episódios: são apenas oito, para tristeza de amantes do género como eu. À medida que se aproxima o final, é como se nos tirassem um rebuçado que custou imenso a encontrar. Mas a boa notícia é que a série vai ter segunda temporada – por isso não vamos ficar desprovidos de bom humor negro durante muito tempo.