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Às Cegas

“Na vida, há os cretinos, e os mortos” – de que lado queremos estar?

 

Título original: Bird Box (EUA, 2018)
Realizador: Susanne Bier
Argumento: Eric Heisserer, Josh Malerman
Protagonistas: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, John Malkovich

Não podia deixar de começar esta crítica sem a deixa mais forte do filme – e que só podia ter sido proferida pela personagem de John Malkovich, o eterno “cretino” dos filmes de Hollywood. A verdade é que, ao longo de anos de filmes de terror norte-americanos, já percebemos que os bons da fita são sempre tramados pelos outros – mas não conseguimos deixar de torcer por eles.

Sandra Bullock, a protagonista de “Bird Box” (mais uma grande produção da Netflix), não é a típica heroína destes filmes. Aqui, a estrela de “Gravity” interpreta Malorie, uma mulher fria e distante, tão focada na sua arte que passa os dias fechada em casa, a pintar quadros (que nunca acaba), e cujo único contacto com o mundo é Jessica (Sarah Paulson), a irmã, que, apesar da falta de afetos da outra, continua a visitá-la e a encher-lhe o frigorífico (e a lembrar-lhe de telefonar à mãe). A passar pelo fim de uma relação, e com uma gravidez indesejada, Malorie prefere fugir do mundo a enfrentar os seus problemas – portanto, nada o estereótipo de heroína.

Mas quando, de súbito, uma inexplicável vaga de suicídios chega aos Estados Unidos (depois de ter começado na Europa e na Ásia), Malorie não tem escolha senão agir. Refugia-se em casa de desconhecidos, quando se começa a perceber que o mundo foi invadido por “criaturas” misteriosas, que levam a pensamentos e atos psicóticos a quem as observa. Tapam-se todas as janelas e recolhem-se os sobreviventes em casa – até não haver mais mantimentos.

E é aqui que regressamos à deixa com que comecei a crítica. John Malkovich é Douglas, um advogado cínico e sem escrúpulos, que se dedica a processar os vizinhos por tudo e por nada, e que prefere salvar-se a si mesmo antes de salvar os outros. Tal como a personagem principal deste filme, pensamos nós. Mas, e tentando evitar os spoilers, a ameaça que paira nos céus é afinal o impulso de que Malorie precisava para sair da sua clausura emocional auto-imposta e começar a ligar-se aos outros. É nesta altura que percebemos que, mais do que um filme de terror e sci-fi, “Bird Box” é também um poderoso ensaio sobre o comportamento humano, que só uma situação-limite pode testar – e muitas vezes levar à mais necessária e imperativa transformação de si mesmo.

Talvez para compreender a mudança de Malorie, Susanne Bier, realizadora de filmes como “Serena” (2014) ou “Tudo o que perdemos” (2007), tenha optado por uma lógica narrativa não-linear, contando esta história através de analepses e prolepses constantes, de modo a que possamos comparar o passado e o futuro destas personagens. Embora às vezes possa ser confuso, é quase sempre uma forma eficaz de colocar em prática a velha máxima “Show, don’t tell”, já que, como vamos tendo vislumbres dos próximos passos das personagens, as nossas perguntas são respondidas praticamente no momento em que as colocamos.

Por isso, e pela brilhante construção das personagens no filme (sendo Malorie o exemplo mais expressivo), “Bird Box” não deve escapar dos radares dos Óscares este ano, provando mais uma vez que a Netflix está decidida a mudar o paradigma do cinema, pois os grandes filmes também já estreiam no sofá lá de casa.

Roma

O génio na simplicidade.

 

Título original: Roma (MEX, EUA – 2018)
Realizador: Alfonso Cuarón
Argumento: Alfonso Cuarón
Protagonistas: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey

Durante um momento de convívio familiar durante o dia de Natal, a minha irmã começou a falar espontaneamente de como tinha adorado “Roma”. Partilhámos cenas favoritas, discorremos sobre a beleza da fotografia, concordámos sobre como a sua genialidade derivava da sua simplicidade. Mas algo muito específico aconteceu que me fez aperceber que este era, provavelmente, o filme do ano – mal a minha irmã mencionou o nome do filme, todo o meu corpo se arrepiou com a memória do mesmo. “Roma” é, muito simplesmente, uma obra-prima.

Inspirado parcialmente pela sua própria infância, Alfonso Cuarón conta aqui a história de uma família mexicana de classe média a viver nos anos 70, num período de grandes revoluções sociais e políticas. O foco é dado, no entanto, ao ponto de vista da empregada de casa, Cleo, interpretada de forma absolutamente brilhante pela estreante Yalitza Aparicio.

O modo subtil como Cuarón retrata a relação entre Cleo e a família para a qual trabalha é o coração que faz “Roma” bater. De cena em cena, vamos compreendendo que há um carinho genuíno entre todos os envolvidos, ainda que a relação não esteja necessariamente em pé de igualdade. Num momento, Cleo senta-se a ver televisão com a família e é acolhida com um abraço distraído mas empático, e, no segundo seguinte, é enviada embora para lhes ir buscar chá.

Este desnível social nunca é escondido mas, ao mesmo tempo, nunca é assumido com uma barreira intransponível. “Roma” oferece-nos um retrato de amor incondicional como poucos alguma vez vistos no cinema. Nas mãos de qualquer realizador mediano, estas cenas de interação familiar podiam soar intensamente falsas. Mas, em “Roma”, nunca são mais do que o espelho sem filtro da mais pura das verdades.

A ajudar ao contar desta história simples, temos uma cinematografia que nos faz, a tempos, suster a respiração, de tão bela. Cuarón assume aqui também as responsabilidades de diretor de fotografia e o resultado é impressionante. Para além da sublime estética dos contrastes de luz na fotografia a preto e branco, temos também vários momentos em que os movimentos deliberados da câmara nos transportam para o coração da cena. Ficou-me especialmente cravada na memória a cena em que o drama pessoal de Cleo se cruza com as revoltas estudantis que faziam tremer o México, nos anos 70.

“Roma” é o que acontece quando um dos realizadores mais visualmente brilhantes da atualidade usa todos os seus poderes para contar a mais simples das histórias. É uma carta de amor à sua família, à sua empregada, à memória de uma infância conturbada mas, em última instância, feliz. É o ponto alto da carreira de Cuarón. Tive dificuldades em encontrar as palavras para descrever adequadamente o que senti quando o vi. Fica o arrepio.

 

22 de julho

Um (muito bem dado) murro no estômago.

 

Título original: 22 July (NOR, ISL, EUA – 2018)
Realizador: Paul Greengrass
Argumento: Paul Greengrass, Åsne Seierstad
Protagonistas: Anders Danielsen Lie, Jonas Strand Gravli, Jon Øigarden

Paul Greengrass. Ver o nome de um dos mais brilhantes realizadores de Hollywood associado a um original da Netflix já era razão suficiente para assistir a “22 de julho” – mais ainda se nos lembrarmos que o cineasta foi o realizador de alguns dos mais intensos thrillers dos últimos tempos, como “Capitão Philips” (2013), “Voo 93” (2006) ou “Domingo Sangrento” (2002). Paul Greengrass parece ter uma queda por argumentos baseados em histórias verídicas – e ainda bem, pois o seu talento para contá-las, mantendo sempre a narrativa num limbo entre o suspense e o drama, é indiscutível.

22 de julho de 2011. A Noruega acorda para o seu pior pesadelo. Ao início da tarde, um carro-bomba explode junto aos prédios onde se situa o gabinete do primeiro-ministro, em Oslo, resultando na morte de 8 pessoas. Horas depois, 69 pessoas são mortas num tiroteio na ilha de Utøya, onde se realizava um campo de verão para jovens do Partido Trabalhista Norueguês. É um dia negro para a História da Noruega, especialmente porque a maioria das vítimas são crianças.

“22 de julho” leva-nos pelo antes, durante e depois dos acontecimentos do dia que marcou os noruegueses. Conhecemos os jovens que, no dia anterior, chegam entusiasmados ao campo de férias – crianças fascinadas pela ideia de deixar a sua marca no mundo, muitas delas filhas de dirigentes e figuras influentes da Noruega –, e conhecemos Anders Behring Breivik, enquanto escreve ao computador o manifesto que, como diria mais tarde, “explica a necessidade daquele atentado”.

Mestre em filmes sobre tragédias humanas, Paul Greengrass garante que nos envolvemos tanto com as vítimas como com o terrorista, antes dos momentos-chave. No discurso de Anders Breivik há ideias que, infelizmente, nos são familiares: a oposição em relação à imigração, aos refugiados e ao multiculturalismo – que o terrorista classifica como “forçado”. Sabemos que não param de nascer, pela Europa, frentes que apoiam ideias extremistas de direita, e este filme vem precisamente lembrar-nos disso. Vem lembrar-nos que o que construímos como ideal – uma Europa de braços abertos, onde todos podem trabalhar e sonhar ter uma vida melhor – está a ser ameaçado por quem preferia fechar portas a tudo o que é diferente e novo.

“22 de julho” é, também, brilhante a mostrar aquilo que não vemos, quando os bombeiros limpam os destroços e nasce um novo dia num palco de guerra: os longos meses de recuperação das vítimas dos atentados, as marcas que deixam nas suas famílias e o medo que se apodera, para sempre, dos seus corações. E é através de pequenos detalhes que o filme nos mostra como tudo muda, enquanto nós continuamos a fazer zapping, esquecendo aos poucos o último cenário sangrento que vimos na TV. Sentimo-nos, às vezes, a invadir momentos demasiado privados, quando Paul Greengrass nos leva pelas difíceis sessões de fisioterapia das vítimas, a imensa vitória que é descer umas escadas ou, simplesmente, tentar adormecer todos os dias sem pensar, outra vez, naquele dia fatídico.

No papel do infame Anders Breivik, o norueguês Anders Danielsen Lie não podia ter melhor prestação. Tudo na sua linguagem corporal e olhar transmite ódio e uma convicção cega nos ideais que defende. Mas a construção da personagem de Anders Breivik em “22 de julho” não cede ao facilitismo de retratar o terrorista norueguês como um “monstro”, como a imprensa daquele país começou por chamar-lhe. Descobrimos a sua infância e o que levou àquele tipo de pensamento, para percebemos que afinal, o “mau da fita moderno” não é apenas um lobo mau com sede de sangue: é fruto de más experiências e problemas que, infelizmente, o socialismo europeu levou para dentro das casas de adolescentes incompreendidos, que viram, injustamente, nos imigrantes e refugiados a culpa para a perda do poder de compra das suas famílias.

É por isso que “22 de julho” é um autêntico murro no estômago – porque põe a nu as fragilidades de um ideal à beira do colapso, e porque nos lembra da insignificância das nossas queixas de todos os dias, face à luta diária que se torna a vida de uma vítima de atentado.

 

Nada a Esconder

Um melodrama cómico à boa maneira do cinema europeu: nu e cru.

 

Título original: Le Jeu (FRA, BEL – 2018)
Realizador: Fred Cavayé
Argumento: Filippo Bologna, Fred Cavayé
Actores: Bérénice Bejo, Suzanne Clément, Stéphane De Groodt

Há, no serviço português da Netflix, cada vez mais e melhor oferta de filmes – nomeadamente, de produções europeias. “Nada a Esconder” é um desses exemplos: um original Netflix que encontramos pelo zapping, com a promessa de ser, segundo lemos na plataforma, um “filme espirituoso”. E, de facto, quem quer que tenha assim categorizado esta película francesa, tem toda a razão.

Comecemos pelo facto de ser uma produção francesa. As comédias realizadas neste país têm vindo a surpreender o público, seja pelas suas – lá está – espirituosas histórias, ou pelos seus excelentes atores, que trazendo para o grande ecrã os dotes para a ironia e sarcasmo do seu povo, tornam os filmes franceses incríveis experiências de gargalhadas sem parar.

Depois, há que salientar que este é um filme baseado numa produção italiana, “Amigos Amigos, Telemóveis à Parte” (Perfetti Sconosciuti, 2016), outro país de onde nos chegam, também, obras-primas da comédia – do estilo que põe o dedo na ferida, desconfortável.

Assim, temos os ingredientes que tornaram “Nada a Esconder” num melodrama cómico que importa ver, onde acabamos a olhar para dentro de nós e confessar os nossos próprios pecados, engolindo em seco – como apenas um bom filme é capaz de fazer.

A história é muito simples: um grupo de amigos, com laços que recuam até à escola primária, junta-se mais uma vez na casa de Vincent (Stéphane De Groodt), o cozinheiro e anfitrião do costume. Estamos perante casais nos seus trinta ou quarenta anos, com décadas de relacionamento, mágoas e segredos. A tensão é visível em cada um dos pares – menos entre os joviais Thomas (Vincent Elbaz) e Léa (Doria Tilier), que acabaram de casar. Mas quando chegam a casa de Vincent, todos brincam e riem juntos, como se nada se passasse. Até que Marie (Bérénice Bejo), psicoterapeuta de profissão, lança o tema dos telemóveis como “as novas caixas negras dos casais” e convida os amigos a fazer um jogo: naquela noite, todos irão pousar os seus telemóveis no centro da mesa, com o ecrã virado para cima e o som ativo, para que, sempre que um dos aparelhos tocar, todos possam ler as mensagens, ouvir os telefonemas e ver as fotos recebidas, confirmando se há, ou não, segredos entre os casais e amigos. E o resultado, que já se adivinhava desastroso, revela-se surpreendente. Especialmente, porque à medida que o jogo avança, e os segredos são postos a nu, aqueles que mais apontam o dedo acabam por ser obrigados a admitir a sua hipocrisia.

“Nada a Esconder” mostra-nos que, quando a narrativa é competente e envolvente, o cenário de 1h33 minutos de filme pode ser sempre o de uma pequena sala, sem mais nada. A força dos diálogos do filme prende-nos irremediavelmente, até ao seu intenso desenlace. Por uma noite, e durante um jogo, descobrimos, entre vícios, falhas e pudores, homens e mulheres que se revelam em toda a sua profunda imperfeição, e, como qualquer ser humano, erram e voltam a errar, porque amam e desejam ser amadas – não é o que queremos todos?

Um verdadeiro retrato da sociedade moderna, onde, com tantas formas de comunicar com quem não está, perdemos o contacto com quem está mesmo ao nosso lado.